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10/10/2026

Cretina comédia

 


Debald Dump, rodeado pelo seu staff na Sala Oval, acabara de ouvir uma declaração do seu rival chinês, mas não percebera o que é que ele tinha querido dizer com “divina comédia”.

― Achas que ele disse que foi divina a minha destruição do Irão? ― perguntou a DJ.

― Hum, acho que não. Se ele não tivesse falado em “comédia”… Ó Rosso, o que é que achas?

― Divina Comédia é como ficou conhecida uma epopeia de Dante Alighieri, um florentino do século XIV ― adiantou-se o especialista de cultura clássica.

― Não sei como é que aquele tipo tem tempo para antiguidades. Ó Hanson explica-me cá essa tal epopeia divina, que isso interessa-me ― arrebitou-se Dump.

Nos vinte minutos seguintes, o assessor fez uma resenha expedita da obra maior de Dante. Descreveu resumidamente a viagem imaginária de Dante aos mundos sobrenaturais do Inferno, do Purgatório e do Paraíso, acompanhado, aos dois primeiros, pelo aclamado poeta romano Virgílio, e por Beatriz, um amor de adolescência, ao Paraíso. Debald Dump manteve-se muito atento à explicação e ficou ainda uns minutos pensativo.

Nessa noite, sonhou que, perdido, vagueava por um deserto escuro e frio, talvez a Gronelândia. Para piorar as coisas era perseguido por um dragão, um urso e um burro, qual deles o mais ameaçador. Sem encontrar vivalma, nem vislumbrar saída para aquela situação, correu em desespero e, quando ofegante, estava prestes a desistir, apareceu-lhe o falecido amigo Epstein, para o guiar numa viagem de redenção através do mundo dos mortos. Vinha enviado por uma adolescente traficada por este e se suicidara em 2025. A rapariga queria ajudar Dump, porque percebera, quando o conheceu, que tinha ficado embeiçado por ela.

Guiado por Epstein, Dump visitou primeiro o Limbo, onde encontrou muitas caras conhecidas da História, alguns até com fama de virtuosos, só com o senão de não serem norte-americanos. Achou que havia um presidente sul-americano, outro africano e uma presidente da Islândia, com um nome esquisito, mas era irrelevante ― nomes não era com ele.

Depois, desceram pelos nove círculos do Inferno em forma de funil, que se tornam mais estreitos e profundos à medida que as maldades se tornam mais graves. Epstein mostrou-lhe demoradamente o círculo do tráfico humano, o que conhece melhor, onde Dump reencontrou muitos amigos de outros tempos. No círculo da ganância, o reencontro com um banqueiro que morreu na prisão também o confortou. No círculo da ferocidade viu debaterem-se ex-poderosos, alguns, antigos presidentes e secretários americanos da Defesa. Ali, uma cadeira esperava por Bush e ― horror ―, uma outra estava marcada Debald Dump.

― Como pode ser isto? ― sobressaltou-se Dump. ― Eu que acabei com oito guerras; eu que devia ter ganho o Nobel da Paz!

― Se calhar, não te aplicaste no marketing ― mentiu Epstein, solidário, não querendo sobressaltá-lo.

― Eles que pensem bem, que eu posso obliterá-los…

Sempre a descer, chegaram ao círculo mais profundo do Inferno, o da desumanização. Ali, o próprio Lúcifer, rodeado de chamas, rói perenemente os despojos dos maiores genocidas de todos os tempos. Dump reconheceu alguns, como Hitler e Ben Gurion, presos pelos artelhos em ganchos, numa fileira a perder de vista. Não escapou a Dump o pormenor de um gancho vazio, com o nome de Netanyahu. Lúcifer vai-lhes arrancando membros ou nacos de corpo, que rói meticulosamente, até não restar mais que ossos, que atira a um enorme monstro carnívoro, que completa a redução ao elementar. Os excrementos seguem depois para a máquina da perfídia, que os recompõe, eternamente.

Dump ficou convencido de que todos aqueles condenados tinham sido indivíduos de grande carisma. Sentiu até uma ponta de inveja, não fosse aquela fase de serem roídos.

Um pouco nauseados, os viajantes arrastaram-se demoradamente até à superfície. Começaram então a escalar uma montanha escarpada, com vários patamares a que correspondiam pecados em fase de resolução. Era o Purgatório. Em cada patamar, residiam penitentes que, embora tendo prevaricado com afinco, por jactância, ciúme, mândria, mesquinhez, alienação o fizeram por ignorância, ingenuidade ou inconsciência. Todos experimentavam agonizantes penas e sofrimentos, mas mantinham esperança em ultrapassar o estado lamentável que ali os levara, o que lhes concedia boa disposição e até alegria.

Dump ficou muito bem impressionado com o local e pretendeu informar-se sobre projetos urbanísticos para a zona, porque, na verdade, tinha paisagens de tirar o fôlego e seria, claramente, um bom investimento criar ali resorts de luxo.

― Depois vês isso ― apressou-o Epstein. ― Agora tens de visitar o Paraíso, que tem horário condicionado. Mas não posso acompanhar-te. Tenho embargo ativo para lugares decentes. Deixo-te com a tua idolatrada ninfeta.

Depois das naturais saudações, a antiga menina de Epstein guiou Dump pelas nove esferas celestes do Paraíso. À medida que subiam no firmamento, a rapariga mostrava a Dump inúmeros seres em pura harmonia celestial. Dump não conhecia a maior parte deles, mas reconheceu um militante anti-apartheid, outro pela alfabetização, e meia dúzia de artistas. O ambiente era de uma tal paz, que transmitia um contentamento muito sereno e aprazível. Dump estava encantado. Puxou do seu permanente livro de determinações, escreveu uma declaração de que, a partir daquele momento, o Paraíso passava a chamar-se América e assinou o nome na sua habitual letra longilínea de tamanho grado. Não tinha dúvida de que era uma excelente decisão.

A certo momento, foram rodeados por muitas dezenas de meninas, todas da mesma idade, que cantando, fizeram uma dança de roda, larga e compacta, em volta deles.

― Quem são estas crianças? ― quis saber Dump.

― São as 160 meninas iranianas assassinadas por um recente bombardeamento americano a uma escola no sul do Irão.

Dump sentiu um arrepio, mas logo a seguir questionou-a:

― Mas, porque é que me recebem tão bem? Não sabem que fui eu o principal responsável?

― É assim o estado de harmonia final: uma completa empatia entre seres. É como se já percebêssemos que cada ser malévolo não passa de um ente em desenvolvimento incompleto, portanto, não completamente consciente, nem responsável pelas atrocidades que pratica ― esclareceu a jovem.

Como se este encontro representasse a revelação transformadora que justificava a viagem, Dump sentiu uma onda claustrofóbica a percorrê-lo. Queria sair dali. Esperneou, tentando voltar à realidade, mas, por mais que se debatesse e tentasse gritar, nenhum som saía da sua garganta e, aos poucos, afundava-se num espasmo apoplético, a caminho de uma paragem cardiorrespiratória. O sentimento final era de uma grande angústia. Arrasava-o deixar a América ainda tão necessitada dele para crescer.

O velório decorreu no recém-construido salão de baile. O féretro, com o defunto exposto, impecável num fato azul e gravata vermelha até aos pés, e tratado por cabeleireiros e maquilhadores profissionais, foi visitado por inúmeros chefes de estado tentando fazer cara triste. O evento foi o mais noticiado desse ano e provocou a maior onda registada de suspiros de alívio.

Joaquim Bispo

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Imagem: Sandro Boticelli, O mapa do Inferno, c. 1485-1495.

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