Mostrar mensagens com a etiqueta parcialidade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta parcialidade. Mostrar todas as mensagens

10/03/2026

MAD Talks

 



Na Associação Cultural e Recreativa Esmorecense é noite de espetáculo. O convite tinha sido afixado nas montras dos estabelecimentos comerciais e fora também enviado por e-mail para os sócios que tinham caixa de correio eletrónico. O texto pretendia ser apelativo:

«Nas comemorações do 20º aniversário da nossa Associação, vamos inaugurar uma série de palestras proferidas pelo nosso sócio, Sr. Manuel Alves Dutra, a que, para honrar o orador, chamaremos M.A.D. Talks, à semelhança do que se faz lá fora. A imperdível palestra desta noite tem o sugestivo título de A estranha cura dos corações empedernidos.»

Pelas 21 e 15, já a plateia do pequeno auditório estava composta. Notava-se algum nervosismo entre os sócios. Cinco minutos depois das 21 e 30, entrou em palco o presidente da agremiação. O silêncio foi quase instantâneo. Aurélio Miranda deu dois toques no microfone, para confirmar que estava ligado, e anunciou:

Muito boa noite! Obrigado por terem vindo. É uma honra receber-vos e é muito gratificante verificar que os nossos sócios e restantes conterrâneos corresponderam ao nosso convite. Como foi anunciado, o Sr. Manuel Dutra, reconhecido autodidata da nossa terra, vai dar uma pequena palestra sobre um assunto candente da atualidade, a que se seguirá um pequeno período de perguntas. Mas não vos canso com detalhes. É ele que vocês querem ouvir; é a ele que vou já passar a palavra. O vosso aplauso para Manuel Alves Dutra!

O visado subiu as estreitas escadas laterais do palco, sob uma revoada de palmas, fez um ligeiro aceno de agradecimento e, decidido, postou-se frente ao microfone de pé. As palmas terminaram de imediato e fez-se um silêncio atento.

Caros amigos: — começou o orador, lançando um olhar por sobre a plateia — todos os presentes me conhecem e sabem bem do meu gosto pelo saber e da curiosidade que tenho por tudo o que não entendo. “I have a dream”, como disse o poeta. Entre esses fenómenos, atingiu-me nos últimos meses a extraordinária adesão de toda a gente à condenação da recente invasão da Ucrânia e da não menos surpreendente compaixão ativa por todos os que fogem dessa guerra abjeta. Já não vou para novo e posso dizer, sem risco de mentir, que nunca tal tinha visto. Nas televisões, rádios, jornais, redes sociais era, foi, é permanente a raiva por este ataque bárbaro da Rússia contra a Ucrânia, sem razão, sem desculpa. As pessoas mostram-se verdadeiramente indignadas com a situação. Horrorizam-se com as imagens de prédios esventrados, de mortos espalhados pelas ruas, de multidões a tentar fugir daquele pesadelo. Não estávamos preparados para tanta ferocidade.

Manuel Dutra fez uma pequena pausa para respirar. O auditório mantinha-se atento, embora nada do que estava a ser dito fosse novidade.

Ora esta veemência contra uma guerra nunca se tinha visto. Só para falar na guerra contra o Iraque, em que igualmente não havia nenhuma justificação para um ataque, também foi uma guerra injusta, feroz, canalha. As forças americanas entraram por ali adentro a disparar sobre tudo e todos, a causar mortos sem conta, a destruir infraestruturas, alvos militares e colaterais e a fazer vítimas civis sem pejo. Mas, se bem me lembro, delirávamos com os bombardeamentos, admirávamos a pontaria cirúrgica e a capacidade destrutiva dos mísseis, sentíamos algum conforto pelas vitórias do invasor, achávamos muito bem destruir tudo, até que Saddam Hussein e o seu exército fossem derrotados e derrubados.

A plateia agora manifestava algum agitar de cabeças, alguns reajustes de posição nas cadeiras.

Agora, reparem na atenção que damos aos refugiados ucranianos, à pena que sentimos por eles e à vontade de ajudar que manifestamos, até enviando ajuda através das organizações que a fazem. Tem sido maravilhoso, enche-nos de orgulho e limpa-nos a alma. Afinal, somos gente com G grande, somos capazes de solidariedade, a Humanidade pode rever-se em nós. Mas, como foi com os refugiados do Iraque? Alguma vez se organizaram pontes aéreas para ir buscar alguns? Alguma vez pensámos receber um casal em nossa casa? Reparem na diferença. É certo que, uma vez por outra, ainda nos afligimos com as centenas dos que se metiam de qualquer maneira pelo Mediterrâneo adentro e lá naufragavam e se afogavam. Foi o máximo que atingimos. Mas nunca conseguimos ultrapassar uma certa desconfiança, como que um conflito interno de amor-repúdio.

Manuel Dutra avaliou a assistência. Aqui e ali percebia-se que alguns dos presentes não concordavam completamente com o que estava a ser dito.

Pois foi esta aparente incoerência que me atingiu com toda a sua estranheza. O que é que mudou? São assim tão díspares os cenários de guerra que nos levam agora a agir de uma forma muito mais humanitária? Os massacres de Fallujah eram menos terríveis que os de Mariupol? Serão estes mortos e estes fugitivos mais dignos de compaixão? Ou terá sido a lenta corrosão do tempo que nos mudou? Passaram dezanove anos. Será que houve uma alteração qualitativa da Humanidade de hoje, que se tornou mais sensível e dorida com os males que vê o próximo sofrer? Amigos…

Chegara o momento de Manuel Dutra revelar o que descobrira, ou pensava que descobrira. Não era preciso estar muito atento à fisionomia do palestrante para perceber um disfarçado sorriso no seu rosto um pouco macilento.

Amigos — repetiu — o que se alterou não foi fruto de um desenvolvimento das características altruístas da Humanidade, da evolução no sentido darwinista, nem foram as características deste conflito que determinaram esta onda de compaixão e revolta. Eu acho que encontrei a explicação para este paradoxo. Pensei, examinei, vi gráficos, li análises e cheguei à conclusão que, lógica e humanamente, não há nenhuma diferença entre estes dois conflitos armados que justifique tão grande mudança da nossa interação com eles. Então, o que a motivou? Aqui surgiu-me, óbvia e luminosa, a explicação. O que é que tivemos antes desta guerra, que não tivemos no início do século?

Manuel Dutra fez uma longa pausa, saboreando a tensão palpável da curiosidade da plateia e observando o mar de olhos pousados em si.

Uma pandemia global, intensa e duradoura — revelou, por fim, lenta e solenemente. — Um dia viremos a conhecer toda a extensão e a profundidade desta virose que mexeu com toda a nossa genética. Então, confirmaremos que ela nos tornou mais sensíveis, acentuando os sentimentos de empatia e compaixão pelos sofredores, ao mesmo tempo que fortalece os sentimentos de indignação e ódio pelos que infligem sofrimentos. É isto, é! — reafirmava Dutra, acentuando a certeza com acenos da cabeça, tentando matar à nascença alguma descrença que pudesse nascer. —Esta teoria, que parece inverosímil e deslocada, é afinal luminosa, lógica e quase evidente. E tem a suprema virtude de explicar esta contradição. Por isto me orgulho dela e a trouxe ao vosso julgamento. Agora, fico à vossa disposição para as perguntas que entenderem fazer.

Logo dois braços se levantaram. Dutra apontou para um rapaz com uma barbita rala, que lhe pareceu ser quem tinha levantado o braço primeiro.

Sr. Dutra, tenho dificuldade em concordar consigo. Parece-me que existem diferenças importantes entre os dois conflitos que referiu e que podem justificar esta diferença de atitude geral que apontou. A começar por quem promoveu cada um dos conflitos. A invasão do Iraque foi executada pelo bloco militar de que o nosso país faz parte, o que determinou que a nossa comunicação social apoiasse a narrativa do invasor. Hoje, a mesma comunicação social condena as razões do invasor, que é adverso do bloco a que pertencemos, e, desta vez, mostra e dramatiza os horrores que acontecem no território invadido. Isto faz toda a diferença, não acha?

Dutra fez um trejeito de desconforto, e avançou para o microfone.

O que o meu amigo diz é verdade em parte, mas, para que fosse relevante, teríamos de admitir duas condições irrealistas e até ofensivas. Primeira: que os jornalistas se guiam pelo seu arbítrio pessoal, em vez de pelo seu código deontológico, ou pior, que são uma espécie de agentes do bloco político-militar ocidental. Segunda: que as pessoas seguem submissamente tudo o que a comunicação social difunde. Que amam ou odeiam o que ela determina. E que acham que o que ela não mostra não existe. Não quero acreditar nisso. Acredito que, no geral, a comunicação social mantém uma equidistância informativa entre as partes, em vez de uma adesão militante a um dos blocos, como dizem alguns. E acho que as pessoas são críticas do que veem, e sabem muito bem distinguir as situações. Só que hoje, devido ao vírus da COVID-19, os nossos mecanismos de empatia estão mais sensíveis.

Ouviu-se um risinho no fundo da sala e o rapaz que tinha feito a pergunta abanava a cabeça, nada convencido, mas Dutra já apontava para outra pessoa do público, uma rapariga com um único brinco do lado direito.

O Sr. Dutra disse, e bem, que estamos muito sensíveis aos dramas dos refugiados ucranianos, mas já pensou que pode tratar-se de uma mera consequência do nosso racismo tendencialmente endémico? Há dias ouvi alguém notar que estes refugiados são lourinhos e lavadinhos e os outros eram “farruscos”. Não acha que o racismo pode ter tido aqui um papel?

De maneira nenhuma! — declarou Dutra com veemência. — Isso seria de uma sordidez sem nome. Então nós estaremos a condoer-nos com uns, porque aspiramos ao seu branquismo, e borrifámo-nos para outros, como que a exorcizar o nosso grau de “farrusquice”? Não acredito nisso! Se não fosse a pandemia, também nos borrifávamos para os ucranianos. É a minha tese.

No meio do zunzum que flutuava na plateia, levantou-se o braço de uma mulher, com um colar de pérolas de fantasia.

Sr. Dutra, no Iraque havia um ditador que mantinha o povo submetido pelo terror; na Ucrânia existe um regime democrático, com um presidente eleito, atacado por um outro ditador. Parece-me que será mais por aqui…

Os refugiados são todos iguais — começou o palestrante, em tom paciente. — São desgraçados a fugir da guerra e da fome; da perseguição e da morte. Tanto no Iraque como na Ucrânia, fugiam e fogem da devastação causada por uma superpotência. Recuso-me a acreditar que as pessoas tratem os povos conforme os regimes que têm - sejam democracias ou regimes desaprovados pelas superpotências - e que deixem de ter compaixão pelas pessoas que nasceram em países cujo modelo político não aprovam.

O burburinho acentuava-se. Antes que o orador entrasse em pormenorizações, o presidente da coletividade resolveu dar por concluída a sessão e entrou em palco. De rosto sorridente, deu um abraço ao orador e dirigiu-se ao microfone.

E pronto, caros associados e público em geral; encerramos assim a nossa primeira palestra de 2022. Espero que tenham gostado. Quero agradecer ao Sr. Manuel Alves Dutra a sua brilhante comunicação e cá estaremos de hoje a um mês para mais uma MAD Talks. Até lá!

O salão da associação encheu-se com as palmas de quase todos os presentes, alguns estavam até a decidir não deixar passar a próxima palestra, mas outros pareciam muito desapontados e não tencionavam voltar. Manuel Dutra mostrava-se satisfeito e já antevia o êxito da palestra do mês seguinte de título “As tocantes declarações de amor das superpotências pelas populações dos países hostis“.

Joaquim Bispo

*

Este conto foi selecionado para a 56ª edição (março/abril de 2026) da Revista LiteraLivre, em formato e-book (páginas 66 a 68):

https://drive.google.com/file/d/13aCqpBlbdC19wZcNDV8fVnwM731FH1xH/view

*

Imagem:

Ragnhild Kaarbø, Composição com uma cabeça, c. 1925.

Museu Nacional, Oslo.

* * *