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10/12/2025

Enfrentar o mundo com uma bainha

 

Na sua câmara no gineceu do palácio, Penélope medita sobre a sua impotência perante as insistências desprezíveis dos pretendentes. Lá em baixo, na sala grande, banqueteiam-se com as olorosas carnes das rezes dos seus domínios, estrondeando júbilos alarves, sem respeito pela casa que os acolhe, nem pela sua anfitriã. A repulsa física que sente por aqueles brutos não é menor do que a ira pelo saque que impõem ao seu património. Tivesse ela uma espada e outro seria o festim e outras as carnes sacrificadas, mas Penélope não dispõe de mais do que de uma bainha.

Ulisses partiu há muitos anos, elevando em glória a sua espada fulgurante. À frente dos seus guerreiros, a espada de Ulisses prometia a vitória junto aos muros de Troia. Ele e os seus companheiros iriam enterrar as espadas de Marte em muitos corpos de opositores valorosos. Para trás ficaram as esposas, as mães, com a ambígua defesa das suas bainhas de Vénus. Como enfrentar o mundo com uma bainha?

Dez anos durou a guerra de Troia. Foram batalhas constantes ou só um tedioso cerco, como sussurrava o rumor? Em que atividades teriam os combatentes gastado esses dez anos? Conhecendo os homens e os seus valores, Penélope acredita que passaram os intermináveis dias de assédio a exibir e a comparar as suas espadas. E a afagá-las para lhes realçar o brilho. Muita vaidade têm os homens nas suas espadas. Na sua rigidez confiam, do seu brilho se orgulham, nelas se reveem, como símbolo excelso do esplendor da sua virilidade.

Passados esses dez anos, saqueada Troia, todos os combatentes regressaram aos seus lares, para maior ou menor fortuna, mas Ulisses não. Andará a saquear cidades, a depredar campos inimigos, a arrebatar manadas de gordos vitelos? Ou, objeto da ira dos deuses, terá sido desviado da sua rota para praias distantes, rochedos destruidores? Como poderá Penélope saber? Um viajante naufragado nas costas de Ítaca diz-lhe que viu Ulisses em Creta, recebido com louvores de herói; outro, que ouviu falar em desditas marítimas do navegador Ulisses.

Penélope espera. Que pode uma esposa amante do seu esposo fazer senão esperar? Sente saudades. Sente solidão. Aninhada no leito que partilhou com Ulisses, compadece-se da sua bainha, também ela ali abandonada, triste e chorosa, como criança perdida e faminta. Em desvelos maternais, enche-a de carinhos para que consiga adormecer.

Passaram já dezassete anos e Ulisses mantém-se ausente. O pai de Penélope insiste que é tempo demais para esperar; que ela deve voltar a casar. O mundo conspira contra as mulheres. Todos sentenciam que tem de haver uma espada naquela casa. O filho de Ulisses arvora naturalmente uma espada, mas tem apenas dezassete anos. É demasiado novo para defender um património como o de seu pai.

Penélope é ainda bastante jovem e bela e suscita claramente o interesse de muitos pretendentes da ilha e de fora dela, todos nobres e valorosos, como exige a nobreza da excelente requestada. Parece, no entanto, a Penélope que é maior o interesse dos pretendentes na riqueza imensa que o património de Ulisses representa. A todos vai negando o seu leito e os seus domínios, mas eles não arredam pé. Apoiados na sentença espatária do pai de Penélope, vão ficando, vão-se instalando, comendo e bebendo à conta dos bens de Ulisses, até que ela escolha um deles.

São muitos, fazem questão de exibir a evidência das suas espadas, não se pode combatê-los senão com astúcia. Penélope é a esposa de um homem conhecido como “Ulisses dos mil ardis”. Também ela medita em estratagemas para ganhar tempo.

Uma ajuda a Penélope é decidida pelos deuses, a pedido de Atena e por ela personificada. Casta como é, admira e quer recompensar a fidelidade conjugal de Penélope. Uma ideia é inspirada à mortal.

Declara que escolherá um pretendente depois de completar a mortalha fúnebre para o pai de Ulisses, que está entrado em anos. Pode ser que entretanto Ulisses chegue. Mas os meses passam e Ulisses não regressa. Penélope desfaz de noite a urdidura tecida durante o dia.

Penélope já não sabe que mais temer: a morte funesta do esposo em batalhas remotas ou a sedução de feiticeiras, ninfas e deusas invejosas. Em quem andará Ulisses a cravar a espada: em corpos de inimigos cruéis e desprezíveis ou em carnes mais delicadas e propícias? As costas dos mares irrequietos estão cheias de tentações e perigos.

Tecer, urdir uma teia, lidar com miríades de fios, juntar uns, separar outros, ajuda Penélope a meditar, a ter uma visão alargada da complexidade dos desafios que enfrenta. Apura-lhe a intuição, desvenda-lhe outros padrões, outras tecituras. Avalia possibilidades onde antes só encontrava entraves. Atena não a abandona.

Conferencia com o filho e com Mentor, o fiel amigo que Ulisses deixou a tomar conta dos seus domínios. Envia-os a pedir ajuda aos bravos heróis e companheiros de Ulisses em Troia, que há muito regressaram, mas também eles só vislumbram a solução matrimonial com um pretendente. A lógica da espada prevalece.

Seu pai e seus irmãos pressionam Penélope para que aceite Eurímaco, o pretendente que mais ricas prendas tem oferecido. Também a ela este parece o menos mau dos que a cortejam. Nunca Antínoo, o rude e agressivo líder da turba arrogante dos pretendentes. Disfarçadamente, vai avaliando os modos corteses de Eurímaco, o seu porte nobre, a elegância do seu gládio, bem mais admirável que as desprezíveis adagas ou as traiçoeiras cimitarras da maioria. Mas custa-lhe a imposição da escolha. Não é opção para uma rainha. Sobretudo sem a certeza da morte de Ulisses.

Se os pretendentes fossem dois ou três, facilmente poderia criar algumas intrigas, acicatar ciúmes e livrar-se de todos, mas com cento e oito…

Terrível dilema. É como se Hera, protetora das mulheres casadas, sentindo curiosidade pela extrema fidelidade de Penélope, bloqueasse outras ajudas dos deuses, propondo-se ver como conseguirá uma mortal desenvencilhar-se do aperto em que se encontra. Talvez a mortal encontre soluções para problemas tão complexos como os que por vezes ela própria enfrenta — as constantes traições de Zeus.

A situação é muito difícil, é um problema sem solução visível. Só os aedos vislumbraram e cantaram uma. Supostamente devida a um auxílio a Ulisses decidido pelos deuses. Homero cantará um regresso tumultuoso e arrasador de Ulisses. Com o auxílio de Atena, chegará a Ítaca disfarçado de mendigo, entrará no seu palácio ocupado, com a ajuda do filho e de um porqueiro, revelar-se-á a alguns servos indefetíveis e obterá o seu apoio. Arquitetará então um plano terrível que executará implacavelmente até à morte de todos os pretendentes. Sem perdoar um. E até de algumas servas que a eles se entregaram, por terem transformado em bordel a casa da sua senhora.

Que Ulisses implacável é este? Quão brutal e sanguinário se tornou um homem que, tendo já matado os principais e mais odiosos pretendentes, prossegue o massacre, mesmo depois de pedidos de perdão e declarações de pagamento de todos os depredações executadas na sua casa? E ter matado simples servas? Como desapareceu a sua lendária sensatez? Em que se transformou Ulisses? Ninguém o reconhece. A maioria só se deixa convencer ao lhe ser mostrada uma antiga cicatriz na perna. Será mesmo Ulisses que regressa? Ou um aventureiro que com ele privou e de quem foi confidente?

Outros aedos cantarão versões libidinosas de amores adúlteros de Penélope. Uma chegará ao extremo de pretender ter ela ido cedendo sucessivamente aos mais de cem pretendentes. Muito adulterada deverá estar a memória para admitir que tal seria concebível a uma princesa de Esparta, cidade por excelência das mulheres virtuosas.

Em nova conferência, Penélope, o filho e Mentor reveem as várias hipóteses. Dificilmente conseguirão livrar-se dos pretendentes pelos meios tradicionais. Eles dispõem da avassaladora vantagem da força, quer imediatamente, quer em retaliações futuras. Há que usar de criatividade, de astúcia, da força do espírito. Penélope fala em manobras de humilhação e do seu possível poder dissuasor. É uma arma poderosa, mas que pode gerar reações de grande brutalidade retaliatória.

Mentor sugere alternativas violentas. Poderia mandar as criadas envenenar-lhes a comida, mas os pais e outros familiares não entenderiam e viriam cobrar vingança. Poderia propor jogos de eliminatórias — corridas de carros, tiro de arco — até ao apuramento de um vencedor. Podiam ser torneios tão viris e violentos que os pretendentes se fossem eliminando fisicamente uns aos outros. Mas sempre restaria algum, talvez um que Penélope não quer ver nem dourado, talvez o odioso Antínoo...

Não; abdicar do poder da escolha está fora de questão. Bem bastara ter sido ela o prémio na corrida de carros que Ulisses vencera. Para acentuar que a escolha nupcial também fora sua, Penélope aceitara seguir Ulisses para Ítaca, em vez de se manter em Esparta, conforme os rogos do pai. Deixar que o acaso decida, seria um retrocesso no controlo do processo e isso é inaceitável.

Há anos que os pretendentes se fizeram presentes. Mais ou menos convincentes, cada um intenta ser o príncipe que a encantará. Aos poucos habituou-se à adulação subjacente. Cada um daqueles jovens almeja elevar em glória a espada no seu leito. A uma decisão sua, podia dar sentido à sua bainha. Mas não é da companhia de um jovem que Penépole sente falta. Ulisses nunca abandona o seu pensamento.

Passaram mais três anos. Completam-se em breve vinte, desde que Ulisses levantou a sua poderosa espada na proa da negra nau que rumava a Troia, encabeçando a flotilha de outras onze. O estratagema de desfazer a urdidura durante a noite foi desmascarado por uma escrava. Penélope é pressionada a escolher um pretendente, das muitas dezenas que todos os dias se fazem comensais nas mesas da sala grande. Que fazer? Adiar a escolha torna-se cada vez mais difícil. Atena cicia-lhe soluções.

Penélope tece, maneja os fios com destreza, medita, imagina que consegue prender um dos fios a um pretendente e comandá-lo. Outro fio a outro pretendente. Um fio para cada um. É uma urdidura ambiciosa, uma teia ampla, global. Cada fio cumpre uma função particular, e juntos completam o tecido. A este cumpre assegurar o resguardo, a proteção, o recato, o seu, de mulher casada, ou viúva, ou só mulher. Através da urdidura pode comandar o seu destino.

A queda de Troia desarticulou o equilíbrio da região. Hordas de desenraizados espreitam e saqueiam as costas mediterrânicas. Penélope toma consciência da força que, se unida, aquela centena de guardiões representa. Uma guarda de elite é a proteção mínima, mas suficiente que a livrará de depredações invasoras. O que consome à mesa é um preço irrisório, comparado com a proteção que oferece. É preciso que o espírito que moveu para ali cada um dos pretendentes se consolide em irmandade protetora.

Se antes, por cortesia, não hostilizava os pretendentes, cada vez os acarinha mais, apesar do deboche que alguns protagonizam. Incentiva e, não raras vezes, aceita honrar com a sua presença os jogos de adestramento bélico e os banquetes subsequentes. Evita que, cansados da espera, desistam, enviando-lhes mensagens personalizadas, sugerindo dias mais auspiciosos e insinuando que pode estar próximo o prémio que espera. Fazendo-o sentir-se especial, envolve cada pretendente num acordo tácito de proteção, Atrás do véu que brota do seu tear, vai conseguindo tecer uma teia coesa e protetora, para si e para Ítaca. Que talvez lhe permita esperar por Ulisses indefinidamente.

Joaquim Bispo

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Este conto foi selecionado para a 54ª edição (novembro/dezembro de 2025) da Revista LiteraLivre, em formato e-book (páginas 81 a 85):

https://drive.google.com/file/d/1bfOCXN-t7jfyhFDgiptn9viPPOrV-Yhy/view

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Imagem: John William Waterhouse, Penélope e os Pretendentes, 1912.

Coleção Aberdeen Art Gallery

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10/08/2021

As mulheres da Ourela

 

As mulheres da Ourela são o amparo da casa. Robustas e determinadas, ganharam admiração e proteção das deusas primordiais. A sua aldeia fica encravada entre montes atulhados de pinheiros nas faldas da serra da Gardunha, onde só é possível cultivar estreitas leiras junto ao pontos mais profundos dos vales. Por isso, sempre tiveram de obter complemento económico fora da pequena agricultura de subsistência. Às vezes, em atividades inesperadas e até longe da sua terra. São vistas desde sempre a carregar pesos à cabeça. Em grupo, em rancho. Decididas, caminhando e equilibrando os carregos, balançando as ancas cheias. Como os deuses gostam de contemplar o seu caminhar! Talvez por isso as tenham colocado ali, na Ourela, para lhes fruírem os meneios, em vez da rigidez de antanho.

Na década de 40, era comum vê-las a carregar caldeiros cheios de pedras com volfrâmio. O dinheiro do minério já lhes permitia comprar alguma massa ou arroz na venda da aldeia. Todas se lembravam e queriam afastar os tempos penosos da Guerra Civil de Espanha, com racionamentos e contrabandos. Os homens manejavam as enxadas a esburacar terrenos, e as picaretas a desfazer calhaus, um pouco por todos os montes das redondezas, onde vissem ou suspeitassem encontrar o apetecido minério negro e brilhante.

Elas enchiam as vasilhas, punham-nas à cabeça e, pelo meio dos pinheiros, dos matos, das pedras, por fim por veredas, carregavam-nas até pontos combinados, onde as mulas podiam chegar. De etapa em etapa, o minério lá acabava por chegar aos Aliados. E aos Nazis. O comércio não tem ideologia. Umas atrás das outras, em filas espontâneas, tenteando o peso, abanando as ancas, iam e vinham lançando um ou outro canto com temática religiosa, mas reconforto pagão. Por vezes, Atena apiedava-se do esforço brutal das suas amadas ourelenses e, disfarçada como uma delas, ajudava-as, sem que elas percebessem. E afugentava algum condutor de mulas que, fiado no ermo dos pinhais, se preparasse para abusar de alguma delas.

Na década de 50, com a II Guerra acabada, já ninguém queria saber do volfrâmio. As mulheres da Ourela voltaram à agricultura, ou antes, ao trabalho sazonal nos grandes terrenos planos a sul da serra, por conta de proprietários ou rendeiros. Os homens iam para as grandes ceifas do Alentejo, elas ficavam-se por zonas não tão distantes. Aí por princípios da primavera, ora um ora outro agricultor aparecia na terra depois da missa de domingo e propunha o trabalho. O acordo não tinha nada que negociar: era um terço da produção para todas. Por isso lhes chamavam “terceiras”. Às vezes, já apalavradas de antemão, repetiam o lavrador de um ano para o outro.

Constituído o rancho, apresentavam-se ao trabalho depois das ceifas, por meados de julho e mantinham-se até final de setembro. Regavam milheirais, melanciais e aboborais, colhiam a produção na altura certa, ajudavam a transportá-la para as tulhas ou para a eira, descamisavam as maçarocas, malhavam-nas, limpavam o grão. O trabalho mais demorado era o da apanha do feijão frade, em setembro, feijoeiro a feijoeiro. Calcorreavam extensões enormes, dobradas, apanhando as vagens maduras para as cestas, que eram despejadas em panais, que eram atados em trouxas quando as pilhas transbordavam, que eram carregadas para o carro de vacas, que as levava para a eira.

Vendo-as em tão grandes penares de labuta campestre, Deméter, disfarçada como uma delas, imiscuía-se frequentemente no rancho, colhendo as vagens agilmente, aliviando a dureza da lida.

A mais nova estava encarregue de, ao longo do dia de calor inclemente, ir buscar água a alguma fonte ou mina, numa bilha à cabeça, e dessedentá-las. Também era a aguadeira que ia adiantando os cozinhados de todas, em panelinhas de ferro individuais. Muita solidariedade coletiva, muita comunhão de quase tudo, mas mantinham áreas de reserva individual: a comida, os homens e a religiosidade pessoal. Uma fogueira, uma dúzia de panelinhas em redor, cozendo batatas ou feijão. Com um naco de toucinho cozido ou um pedaço de morcela, estava a ceia feita.

Se houvesse lua e trabalho na eira, era possível que Zeus, Dioniso ou outro deus igualmente lúbrico incentivasse os cantares e as danças, disfarçado de ganhão ou pastor. Sileno nunca perdia uma desfolhada. E um beijo por outro não desonra ninguém.

Iam à terra no sábado à tardinha e voltavam segunda ao alvorecer. Uma cesta à cabeça, umas atrás das outras. Cantando, galhofando, calando. Como os deuses gostam de ver o balanço das suas ancas!

Na década de 60, os namorados foram combater para África, os maridos foram trabalhar para França. Algumas foram com eles. A salto. Malas à cabeça. As que ficaram na Ourela amanharam-se como puderam. Rezavam, teciam, cuidavam dos filhos, tratavam de uma horta, iam à lenha. Traziam os molhos à cabeça. Os faunos dos pinhais gostavam de as ver calcorrear veredas. Meneando as ancas.

Mesmo com poucos homens na terra, não deixaram morrer a romaria da Senhora do Alto. No quarto domingo de maio, partiam ao princípio da manhã, com o tabuleiro da merenda à cabeça, cantando glórias à Virgem. Oscilando as ancas, aos poucos iam vencendo os vários quilómetros que separavam a aldeia da capela, sempre a subir. Depois da missa, derramavam-se pelas sombras, saboreando a merenda, rodeadas da filharada e de uma ou outra deusa disfarçada de romeira e saudosa de convívio humano. Pagas as promessas, feita a procissão, regressavam à Ourela, cantando modas menos religiosas que à ida.

Na década de 70, acreditaram na mudança prometida. Ouviram os militares, os políticos, fizeram reivindicações, conseguiram um lavadouro público coberto. Com a vulgarização do gás e a chegada da eletricidade, deixaram de ir à lenha. Os incêndios sucederam-se nos pinhais atulhados de mato. As fontes tornavam-se frequentemente chafurdos de cinzas.

As mulheres da Ourela punham os cântaros à cabeça e percorriam distâncias, até alguma mina que não fora atingida. Por veredas serpenteantes, uma após outra, traziam para casa o líquido mais precioso. Como os deuses apreciam o seu caminhar!

Algumas convenceram os maridos a regressar, fizeram reuniões, dançaram. Dioniso não deixava de aparecer, sempre que havia folia. Finalmente, chegou a água canalizada e uma estrada de alcatrão. Algumas famílias compraram carro. Ou motoreta.

Aos poucos, as mulheres da Ourela deixaram de calcorrear lonjuras com pesos à cabeça. Os deuses ficaram melancólicos. Alguma graça no mundo se perdera. Chegaram a pensar devolvê-las aonde tinham ido buscá-las. Lá onde, rígidas e pétreas, eram o sustentáculo de arquitraves e platibandas clássicas. E a quem os mortais chamam cariátides. Além disso, estavam a ficar cheiinhas e roliças.

Felizmente, Hera, também com um pouco de peso a mais, lançou a moda de andar a pé, para emagrecer, e precisou de companhia. As veredas da Ourela voltaram a encher-se de mulheres que caminham. Embora sem pesos à cabeça. Mas ainda com o tão admirável meneio de ancas. E os deuses voltaram a ostentar um sorriso deleitado no rosto divino.


Joaquim Bispo

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Com o título “As mulheres da Paradanta”, este conto integra a coletânea resultante do X Concurso Literário da Cidade de Presidente Prudente, Brasil, de 2016.

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Em 2021, também com o título “As mulheres da Paradanta”, foi um dos selecionados para a 28ª edição (julho/agosto de 2021) da Revista LiteraLivre, em formato e-book (páginas 103 a 105).

http://revistaliteralivre.blogspot.com/2021/07/revista-literalivre-28-edicao.html

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Uma versão reduzida deste conto foi publicada na edição número 1703, de 18/08/2021, do jornal Gazeta do Interior.

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Imagem: Cariátides [figuras femininas esculpidas, servindo como suportes de arquitetura — colunas ou pilares] do templo Erectéion, Acrópole de Atenas, obra de 421–406 a.C. atribuída ao arquiteto Mnésicles.

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10/07/2019

O rapto de Hélade



Na pátria dos Aqueus, em tempos de ninfas e faunos, vivia-se ao sabor das estações, aproveitando as benesses que a Natureza generosa estendia aos habitantes daquela ampla península sulcada por múltiplas enseadas abertas ao Mar Egeu.
Muito tempo depois, Hélade, jovem e bela helena na flor da idade, instruída na cultura mitológica do seu país, estando um dia em folguedos com as amigas na almargem litoral das terras de seu pai, não estranhou, quando um boi muito branco se separou da manada e se aproximou das donzelas, manso e sedutor. Imediatamente lhe acudiu ao pensamento a história pitoresca da sua antepassada Europa, que, por via da mansidão encantadora de um boi resplandecente, fora raptada, levada para Creta e seduzida.
O relato mitológico não era sequer inquietante, porque o boi que raptara Europa não fora outro senão Zeus disfarçado, querendo aproximar-se da formosa mortal sem suscitar os ciúmes de sua mulher, Hera. Além disso, a história não tinha terminado mal: Europa tivera três filhos de Zeus, que foram homens importantes do seu tempo.
O boi que se acercou do grupo de Hélade tinha chifres em forma de luas em quarto crescente e deitou-se aos pés da jovem. Assim, foi quase natural acariciar-lhe o lombo e a cornadura e, pouco depois, enfeitá-la com grinaldas de malmequeres e outras flores silvestres. O pelo macio e luminoso do boi, a sua mansidão, a euforia juvenil do grupo e até a expectativa de uma grande e excitante aventura levaram a donzela a arriscar subir para o dorso do belo animal. Como ela temia ou desejava? o boi levantou-se e em passo ligeiro dirigiu-se para a praia, atravessou a areia e entrou no mar, perante os gestos animados e os risos divertidos do grupo de jovens.
Hélade, mais entusiasmada que apreensiva, deixou-se conduzir pelo boi que, nadando até ao mar alto, se transformou em uma águia-de-cabeça-branca e, sempre com a jovem mediterrânica no dorso, rumou à América, onde tinha o ninho. Ali, aliciou-a com todas as comodidades e todas as engenhocas tecnológicas que a civilização global consegue produzir. Sem precisar de pagar nada. Tudo a crédito. A jovem argiva sentia-se a mais ditosa das mediterrânicas. Nem sabia como agradecer ao seu benfeitor. Mas este não parecia querer que a donzela se preocupasse com ninharias. E convenceu-a a desfrutar da sociedade de consumo. O que Hélade fez despreocupadamente. Tornou-se amante de luxos e sofisticações e até caprichosa investidora da Bolsa. Quando Hélade já não sabia o que mais queria possuir e já não tinha mais palavras para agradecer, o génio que a raptara começou por fim a falar em crise e na necessidade de ela pagar os créditos que tinha contraído. Hélade não entendia o que implicava a inesperada conversa do até aí simpático raptor. Mas ele foi perentório:
Minha menina, não há brinquedos grátis! Não te ensinaram lá no Peloponeso? Se não pagas de uma maneira, pagas de outra...
Então, possuiu-a pela primeira vez. Se Hélade há muito tinha efabulado com esta romântica eventualidade, a maneira economicista e quase vingativa de ele concretizar um ato que devia ser de amor entristeceu-a: além do mais, teve ainda a suprema insensibilidade de dizer que lhe fazia uma gentileza abatia-lhe dez mil dólares no valor em dívida!
Nos tempos que se seguiram, possuiu-a repetidamente, fazendo-se assim pagar pelos inúmeros bens tecnológicos que adiantara. Com juros. Pelas contas do tratante, Hélade pagaria com o corpo, à razão de uma penetração por cada 100 dólares de dívida.
Ontem valia dez mil dólares… ― indignou-se Hélade, na primeira vez.
Estamos a falar de produtos diferentes, rapariga. O teu rating triplo A de ontem, entretanto, baixou para A+, como deves compreender…
Quando a dívida cresceu para valores que o vigor sexual do malandro já não acompanhava, começou a alugá-la a tempo, a bandeiradas de quarto de hora, concedendo-lhe 10 dólares por hora. Enquanto ele guardava um valor não revelado, a título de serviços de angariação, promoção e facilitação de negócio.
Ou preferes vender órgãos? ripostara o patife, aos protestos de Hélade.
Só demasiado tarde Hélade percebeu que este esplendoroso boi que a seduzira nada tinha que ver com aquele lúbrico, mas generoso, boi que raptara Europa. Este não era outro senão o terrível Minotauro Global, mutação maligna adorada pelos mercados que, agradecidos, lhe tinham erigido uma enorme escultura em Wall Street. A ingénua jovem descobriu então que este Minotauro era vezeiro neste tipo de manobras de engano. Os primeiros contactos eram sempre de ajuda e proteção, mas depois vinha a fatura. Muitas jovens e efebos por esse mundo afora tinham caído nas malhas dessa generosidade com intenções escondidas. Luso era um deles; Hibernia, outra.
Hélade não sabia como se livrar deste cárcere de grades económicas que a dívida odiosa lhe impunha. Percebeu que nada seria suficiente quando a dívida cresceu para valores estratosféricos e o monstro lhe ordenou que mandasse vir as amigas. Só então, Hélade, não suportando mais a tirania, evocou os seus bravos antepassados Aqueus e lançou um “NÃO!” que se ouviu na Terra inteira. Muitos dos deuses que na Antiguidade cuidavam dos Homens e das suas dificuldades acordaram, alarmados.
Inteirado da situação, Zeus reuniu-os e incitou-os a fazer alguma coisa por esta humana duma nação que os deuses tanto amavam. Hermes foi o primeiro a levar uma mensagem de indignação ao Minotauro, mas voltou, humilde e um pouco assustado, quando o monstro global lhe lembrou que a força negocial dele era nula, desde que adquirira, como Hélade, ativos tóxicos ao banco Caiman Brothers. A seguir, avançou Hefesto, que ameaçou o Minotauro com métodos mais violentos, aqueles ligados ao raio e ao fogo, mas também ele voltou humilhado, quando o Minotauro lhe mostrou o poder bélico do complexo militar e industrial.
Viste o que aconteceu a Santorini? ― sibilou o Minotauro, ameaçador. ― Não se compara ao que aconteceria a toda aquela lamentável região…
Hera ofereceu-se então para tentar negociar, argumentando que tinha alguma experiência com espécimes bovinos… Senhora de muita experiência, deu-se relativamente bem com o Minotauro, em quem encontrava semelhanças com o seu esposo quando jovem. Louvando o liberalismo e a legitimidade do poder do mais forte, com modos sedutores, conseguiu afagar o ego de macho alfa do Minotauro, e assim obter dele algumas graças ― uma delas, experimentar carnalmente a pujança taurina, vivência que invejara a Europa.
A partir daí, as negociações foram mais fáceis, mas sempre numa ótica economicista. Hera voltou com um contrato específico que, a ser aprovado pelo Concílio dos Deuses, iria atenuar por alguns anos as penas da dívida de Hélade e, com esperança inconfessada, trazer alguma animação ao Olimpo, para irritação provável da maioria dos seus esquivos companheiros divinos. Tratava-se da privatização do Monte Olimpo, onde se previa a instalação de um imenso parque temático, aberto todo o ano, cujas receitas de bilheteira e de todo o merchandising associado à mitologia autóctone seriam naturalmente controladas pelo Minotauro.
Amorzinho, de certeza que o Concílio não vai aceitar de bom grado os pontos do contrato que obrigam os deuses a estar sempre visíveis e a interagir com os visitantes humanos... advertira Hera, genuinamente apreensiva.
Eles que pensem bem! ― resfolegara o implacável touro mutante. ― Senão, mando instalar uma mitologia de deus único.

Joaquim Bispo

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Por seleção em concurso literário, este conto integra — páginas 158 a 161 — a 15ª edição (maio/junho de 2019) da Revista LiteraLivre, em formato e-book:


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Imagem: Arturo di Modica, Touro investindo, c. 1989.
Wall Street. Nova Iorque.
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10/05/2017

A Vingança de Zeus


Nos tempos de Homero, era público que os deuses interferiam na vida dos homens, às vezes por motivos mesquinhos e de maneira impertinente. Nos tempos que correm, não pensamos em deuses traquinas quando as nossas vidas tomam rumos inesperados, mas ficamos desconfiados da qualidade do argumentista da nossa realidade.

Há tempos, na Alemanha, um casal, desesperando de não conseguir ter filhos, como tantos outros, obteve dos testes de fertilidade a mais cruel das respostas: o marido era infértil.
Para qualquer ser humano, esta é uma notícia perturbadora. O seu eu físico, genético, ficará por ali, não se prolongará para lá dele, a eternidade fica condenada. Resta a possibilidade de prolongar o seu eu cultural, memético, que, para muitos, é até mais identitário. Para isso, há que arranjar uma criança, dê por onde der: adoção, barriga de aluguer, inseminação artificial. Nesta última alternativa, ao menos, a parte genética da esposa está presente.
Foi isso que os membros do casal alemão decidiram ele de ascendência grega, 29 anos, e ela de idade semelhante , mas, em vez de recorrerem a um banco de esperma, contrataram um vizinho para cumprir a parte do fornecimento seminal, devido ao facto de ter extraordinárias parecenças físicas com o marido infértil. Além disso, o vizinho dava garantias de sucesso: era casado e pai de dois filhos, bem bonitos, por sinal.
Será que, a partir daí, o casal entregou o processo a um laboratório que se encarregasse de recolher o esperma do vizinho e o colocasse no útero da mulher? Não. Fosse porque desconfiam da tecnologia, ou por outra razão não revelada, o combinado foi que o vizinho copulasse com a senhora, de modo natural, três vezes por semana, até que ela engravidasse.
Não sabemos o que sentiu o vizinho quando foi convidado, mas adivinhamos. Deve ter agradecido a todos os deuses do panteão germânico a graça que lhe tombou na cama. Copular de forma descomprometida, sem ameaças de responsabilidades futuras, é a ambição de todos os homens, pelo menos dos imaturos. Todas as fantasias masculinas tilintam de alegria ante tão excitante perspetiva. Além disso, consta que a senhora é uma estampa de mulher, pelo que não se percebe por que foi preciso pagar 2000 euros ao inseminador que, com 34 anos, não devia precisar de tal incentivo. Estamos, certamente, perante um excelente negociador que obteve um pagamento pelo que teria feito de graça, alegremente. Na verdade, foi só com o dinheiro que estava a ganhar que ele argumentou à própria esposa, quando ela tomou conhecimento do propósito das inúmeras saídas noturnas do marido.
Neste ponto, tudo parecia correr bem e a contento de todos: o vizinho tinha o melhor trabalho do mundo; a vizinha, sua mulher, confortava-se com a entrada da receita extra; o grego esperava ter em casa, brevemente, uma criança parecida consigo, para educar; a mulher iria, finalmente, ser mãe, de maneira totalmente humanizada, sem ter de recorrer a impessoais burocracias e frios procedimentos laboratoriais, e com dupla garantia para a cria. Pode-se especular que o facto de saber quem era o pai poderia vir a ser de enorme utilidade, se fosse necessário apontar a paternidade biológica, em caso de futuras carências económicas da criança que estas contas não se pensam, mas estão sempre presentes na contabilidade genética inconsciente de cada um que os genes não brincam na hora de garantir a preservação.
Foi neste ínterim que Zeus quem mais? interveio, para gorar os planos deste grupo tão bem conluiado. Talvez se tenha apiedado da posição humilhada do seu infértil compatriota, talvez tenha querido mostrar a Odin qual o panteão mais poderoso, ou talvez tenha ficado roído de inveja da sorte olímpica do vizinho porque ele, apesar de ser o todo-poderoso deus dos deuses, tem de tomar formas de cisne, de touro, ou outras, para conseguir unir-se à mulher ou à deusa que deseja.
Bem que o vizinho alemão se esforçava, pontual e assiduamente, mas a senhora não engravidava. A eficiência do copulador contratado não merecia reparos, mas, ao fim de seis meses e setenta e duas jornadas de trabalho, o casal infértil começou a duvidar da eficácia dele para terminar a obra dentro do prazo previsto e intimaram-no a provar as habilitações. Mais uma vez, a resposta laboratorial foi desoladora também o vizinho era infértil só que, desta vez, com consequências ainda mais devastadoras.
O alegre copulador passou, repentinamente, de o mais feliz dos homens para um dos mais castigados pela sorte: não só a mulher o tinha traído, como os seus filhos não eram seus e supremo golpe não poderia vir a tê-los.
Podemos conjeturar que ela, quando confrontada sobre a origem da prole, ainda tenha tentado desculpar-se com Odin, disfarçado de padeiro ou de técnico de televisão por cabo, mas o marido já não vai em mitologias e exigiu o divórcio.
Do casal greco-alemão de soluções criativas, a mulher voltou à estaca zero, propriamente dita, e, provavelmente, tenta lembrar-se onde é que viu um outro homem parecido com o marido; este, dada a ausência de resultados do contrato em que tanto investiu, sente-se o mais manso dos herbívoros e, para readquirir alguma dignidade, lançou um processo judicial contra o vizinho, para tentar recuperar, ao menos, os 2000 euros. Além disso, deve precisar deles para o próximo contrato.
O vizinho, que também pode vir a precisar, não quer devolvê-los, argumentando que forneceu a mão-de-obra salvo seja conforme combinado, mas que nunca garantiu a consecução do projeto.
O caso estava para ser decidido pelo tribunal de Estugarda, e é por isso que dele tomámos conhecimento, através do jornal Bild — porque pela boca de Zeus jamais o saberíamos…

Joaquim Bispo

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Imagem: Nikias Skapinakis, Leda e o Cisne (?), Coleção Berardo (?).

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(Esta crónica foi publicada no número 27 da revista literária virtual Samizdat, de abril de 2010.)

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