10/09/2026

A chave do guarda-joias

 


Túlio já era um pouco entradote quando se apaixonou por Georgete. Reconheceram afinidades num grupo católico, que organizava ações de apoio social nos bairros de barracas que iam cercando a capital. Nesses finais dos anos 60, a cidade abarrotava de migrantes internos, à procura de ocupações com salário, que os campos negavam cada vez mais, e o grupo tentava minimizar o choque com as condições degradadas que encontravam.

Ele já tinha uns anos de contabilidade na Frutuoso e Irmãos, ali ao Conde-barão, uma empresa de equipamentos de escritório; ela, a fazer os vinte e três anos, dava os primeiros passos na promissora carreira de datilógrafa, na mesma firma. O namoro foi rápido, mas contido, e o casamento, bastante frugal, não juntou mais de trinta pessoas. Foram viver para um andar antigo, mas espaçoso, que a empresa dispunha em Campolide e cedeu por empréstimo de 10 anos ao diligente funcionário, o que ajudou Túlio a convencer a mulher a dedicar-se exclusivamente ao lar.

Ordenado e assíduo, todas as tardes de sábado, depois de almoço, Túlio aproveitava a recente regalia da semana inglesa e transformava-se numa espécie de fauno das assoalhadas. Pelo pequeno labirinto da casa, perseguia a jovem esposa, que, antevendo a captura inevitável, fugia em alvoroço de risadas e gritinhos, acicatando o instinto predador do caçador. Os vizinhos não tinham nenhumas dúvidas do que acontecia, quando o clamor da presa emudecia. O ritual semanal manteve-se cronometricamente regular e tinha o condão de lembrar a um ou outro casal das redondezas que ainda não tinha cumprido o compromisso conjugal semanal. Nasceu até uma criança, no prédio do lado, a quem puseram o nome de George, que nunca conseguiu convencer os pais a contar-lhe porque raio lhe tinham posto aquele nome.

O 25 de Abril constituiu um choque enorme para o casal. O valor das ações em que Túlio ia aplicando as poupanças esfumou-se naquele dia. Os aumentos de salários que a convulsão social trouxe, começou a desencadear um fenómeno quase desconhecido — a inflação. Túlio pensou muito, antes de se decidir a explanar à mulher a situação económica familiar e a propor-lhe que voltasse a trabalhar fora de casa. Havia muitas indefinições a ultrapassar e muito perigos a evitar.

— Já podias ter falado há mais tempo, querido! Não, não me importo nada; não é coisa que eu não tivesse já pensado. Só acho que, se calhar, estou um pouco destreinada. Mas tudo se aprende.

Um mês depois, Túlio chegou com uma novidade.

— Amorzinho, já te arranjei trabalho. Falei com o meu amigo Queiroz da contabilidade da Contugal e ele disse que podes começar como assistente da secretária dos vendedores. Para começar, não é mau, pois não?

— Está bem. Vais ver que aprendo depressa.

— Claro, não tenho dúvidas. Mas estou tão preocupado. É que eu sei como são os vendedores. E vejo bem o que acontece na Frutuoso. Anda toda a gente enrolada com toda a gente. E esses não são os nossos valores, pois não?

— Ó querido, até me ofendes. Para mim, pode vir o mais pintado…

— Eu sei, eu sei, amorzinho; mas mesmo assim. Esta modernice de homens e mulheres trabalharem juntos provoca devaneios, oportunidades. Acho que devíamos jogar pelo seguro. Não podemos dar azo à malícia, nos tempos que correm. “A ocasião faz o ladrão”, como bem se diz. Sabes o que me deixava mesmo tranquilo? Era deixares a pombinha em casa. Muita gente está a fazer isso. E ainda mais com as ruas cheias de barbudos e mal-encarados, não duvido que vão aumentar as violações. Com a pombinha bem guardada, estavas tu segura e eu descansado. O que achas?

— Em casa? Eu não vejo necessidade; parece-me um excesso securitário, mas não quero, de maneira nenhuma, que fiques preocupado. Deixo-a cá, está combinado. Pelo menos enquanto os tempos não mudarem.

— Olha, amorzinho, podíamos guardá-la no guarda-joias que comprámos no Mercado do Povo, aquela caixa de madeira avermelhada com aplicações de madrepérola, com uma chavinha dourada. E metemo-lo na mesa de cabeceira.

Georgete adaptou-se bem ao emprego, mas sempre com os procedimentos de segurança bem assumidos. A rotina dos sábados pouco se alterou; apenas faziam um pequeno compasso de espera para abrir a caixa, exceto da vez em que só deram com a chave quando já estavam irritados e desanimados. Resolveram passar a deixá-la na fechadura.

Uns meses depois, Georgete contou o gracejo divertido, que metia chuchas, que um vendedor da empresa lhe dissera; Túlio teve um frémito de angústia.

— Amorzinho, não queres deixar cá também as margaridas? Só para não provocar esses depravados.

— Querido, ele referia-se aos socialistas; foi um dito sem más intenções. E o peito compõe muito uma mulher. Não quero parecer uma matrafona com chumaços, muito menos aparecer lá agora de peito liso. Mas, a propósito, porque é que tu não deixas cá o tulinho?Segundo me disseste, uma das operadoras mecanográficas tem sido muito simpática...

— Quiducha, fica em casa já amanhã. Não me faz falta nenhuma lá, garanto-te. Tenho ali um estojo, que acho que era da máquina de barbear, que deve ser à medida.

A sociedade ia mudando em ritmo acelerado, Georgete foi promovida a secretária do chefe dos vendedores, mas o casal não se afastava das rotinas sensuais a que estava habituado. Certa tarde de sábado, porém, no vertiginoso momento das aberturas da caixa e do estojo, a dona da pombinha estranhou qualquer coisa na posição da sua joia.

— Túlio, mexeste na pombinha? — perguntou em tom desconfiado.

Os princípios cristãos de Túlio não o deixaram mentir.

— Amorzinho, desculpa! — pediu Túlio com os olhos em alvo e a testa franzida. — Tinhas ido ao almoço de anos da tua amiga Fernanda; era sábado e não estavas cá… Tu sabes que o sábado é sagrado para mim. Não te fui infiel; foi tudo só nosso.

— Francamente, Túlio, não podias esperar?; era dia de afogar o careca, como vocês dizem?; é só disso que precisas de mim? — reagiu, indignada.

— Eu não digo expressões rascas dessas; faz-me a justiça de o reconhecer.

— Fazer, fazer... Diz-me tu: o que é que eu faço, agora? Deixa-me pensar. Olha que tem de haver reciprocidade! Vai lá fazer um balancete, que eu vou discutir o assunto a sós aqui com o teu embuçadinho.

O episódio foi ultrapassado sem mais crispações, mas Georgete passou a andar com a chave do cofre da pombinha. Os anos decorriam calmos, Túlio começou a apostar dinheiro na D. Branca, que, na altura, era afamada por dar juros de 10% ao mês, o que sempre compunha o bolo remuneratório mensal. Certo sábado, Georgete notou que a fechadura do guarda-joias parecia mexida e confrontou o marido. Túlio, envergonhado, desatou a chorar em silêncio, para não alertar os vizinhos.

— Desculpa, desculpa, desculpa! A D. Branca entrou em falência e ficámos sem o dinheiro.

— Quê? O que é que estás para aí a dizer?

— O Queiroz. Somos amigos há tanto tempo. Foi ele que te arranjou emprego lá na Contugal, lembras-te? Foi a ele que recorri, para ultrapassar esta perda imensa.

— O chefe da contabilidade? O que é que o Queiroz é para aqui chamado? O que é que fizeste com a minha pombinha? — gritava Georgete, que temia o pior.

— Era para ser uma coisa simples e tão esmerada que nem desses por nada. Entreguei-lhe a caixa na segunda e uma cópia da chave, que fiz há anos, mas ou ele é desajeitado ou estava tão apressado que não conseguiu abri-la e resolveu arrombá-la. Ontem, ainda tentei compor a fechadura, mas, pelos vistos, foi em vão.

— Tu vendeste a minha pombinha ao Queiroz, aquele monte de banha?

— Foi só um empréstimo por cinco dias. E bem remunerado. Nem te digo quanto é que ele bateu em notas de 1000!

— Tu não tens vergonha nessa cara de degenerado? — berrou Georgete, sem se preocupar com a vizinhança.

— Degenerado, não! Há situações na vida em que um homem tem de assumir as ações que mais o magoam. Nem imaginas o quanto me custou.

— Tu é que não imaginas! O tulinho vai comigo na segunda e só peço ao Florêncio que mo devolva na sexta. O Florêncio, sabes?; aquele que te estava a galar na festa de Natal? Estou a dever-lhe um favor: foi ele que substituiu a fechadura do meu guarda-joias há uns meses. Tem muito jeito de mãos. Mas, descansa que não vou violar os nossos princípios católicos de renúncia da usura. Será a título gratuito.

O rosto de Túlio fazia pena. Parecia tão indefeso como um dos deserdados dos bairros de barracas que visitavam. Claramente, não fora boa ideia separarem-se das suas joias íntimas.


Joaquim Bispo


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Este conto foi selecionado para a 59ª edição (setembro/outubro de 2026) da Revista LiteraLivre, em formato e-book (páginas 74 a 76):

https://www.calameo.com/read/0054095542fc0f733bcd8

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Imagem:

Guarda-joias com uma pintura de Alphonse Mucha aplicada

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