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10/02/2026

Os três tecelões-de-cabeça-preta

 


Entre duas laranjeiras do quintal, à roda do idoso de longas pernas ossudas, a criançada agitada e saltitante, aos poucos, sossega, para escutar a história que ele vai contar.

«Era uma vez três passarinhos tecelões — uns que têm a cabeça preta, mas o corpo todo amarelo — que ainda viviam no ninho dos pais. Já voavam e já se alimentavam sozinhos, mas ainda vinham todos os dias dormir ao ninho. Ao fim de uns meses, o tempo começou a ficar mais frio e a comida foi ficando mais difícil de encontrar, de maneira que os pais dos pequenos tecelões aconselharam-nos a migrar. Abraçaram-nos, com tristeza, e recomendaram-lhes que, lá na terra para onde fossem, cada um construísse uma casa muito bem feita, que fosse confortável e resistisse ao mau tempo e aos inimigos que quisessem comê-los.

Os passarinhos voaram, voaram e, quando chegaram ao distante país para onde tinham migrado, primeiro alimentaram-se e descansaram um pouco, mas depois deram muitas voltas a voar, para ficarem a saber onde havia mais comida e de que materiais de construção dispunham. Antes de começarem a construir, cada um disse como ia fazer:

Vou fazer a minha casa com hastes de palha entrelaçadas na ponta de um ramo fino — declarou Crispim, o mais jovem.»

A miudagem soltou uma gargalhada. Como parecia tonto o Crispim!

«— Vou construir a minha casa com galhos sobre os ramos grossos de uma árvore — declarou Bézé, o irmão do meio.»

Nova risada se fez ouvir. Parecia que a história não era estranha à pequenada.

«— Vou construir a minha casa no buraco de um muro de pedra, largo e forte — declarou Antão, o mais velho.»

Um rumor de satisfação atravessou a assistência. Antão, sim, sabia como construir uma casa para resistir aos sopros de um lobo que quisesse comê-los, como na história dos três porquinhos!

«Assim disseram, assim fizeram. Antão não precisou de trabalhar muito; limitou-se a procurar uma cavidade de bom tamanho num muro grosso, deu-lhe uma limpeza e estava pronta. Do seu buraco soltou um chilreio de satisfação.»

«Bézé também se limitou a procurar uma árvore forte, com um espaço aconchegado na ligação de dois ramos, trouxe uma boa quantidade de pauzinhos e galhos para atapetar o chão e deitou-se a assobiar, desfrutando o espaço.»

A pequenada parecia estar a preparar-se para desfrutar do insucesso deste construtor de uma casa de madeira.

«Crispim demorou muito tempo a acabar a sua casa. Fez inúmeras viagens ao chão para apanhar palhas e ervas que entrelaçou na ponta de um galho, de maneira a formar uma espécie de bola de feno, com uma única entrada. Por fim, assobiou a anunciar a conclusão da obra. Os irmãos vieram ter com ele, mas não ficaram muito contentes com a casa do irmão:

Isto é muito frágil, Crispim! Se vem uma rajada de vento desfaz-te a casa e leva-a pelos ares.

Foram ver a casa de Bézé.

Tem uma bela vista, tem uma base sólida, mas não tem telhado. Pede às nuvens de chuva que não passem por aqui! — brincaram.

A última casa era a de Antão.

A-ah! Nesta casa não chove, nem há vento que a leve — aplaudiam os irmãos. — Muito bem!

Apesar das imperfeições, cada um já dormiu em sua casa, nessa noite. Mas, de madrugada, Antão, no seu ninho de pedra, ouviu uns ruídos arrastados. Cheio de medo, foi espreitar à abertura. Quase gelou de terror: uma cobra castanha, com duas riscas pretas a todo o comprimento, trepava pacientemente pelas pedras, dirigindo-se para a toca do nosso amiguinho Antão. Fugiu dali a sete asas para casa de Bézé.

Bézé, dá-me guarida, porque uma cobra atacou a minha casa — pediu ele ao irmão.»

O que é guarida, senhor avô? — perguntou um dos pequenos ouvintes.

É abrigo, proteção; um local onde seja possível viver sem perigo — esclareceu ele.

A cobra não podia atacar a casa do Bézé? — perguntou outro.

Não sabemos, mas, a árvore era muito grossa e de tronco liso, e talvez a cobra não conseguisse subir.

«De manhã, já esquecidos do susto da noite anterior, puseram-se a brincar naquela casa tão arejada e confortável. A brincadeira atraiu um falcão que passava por ali e desceu velozmente sobre os manos, para os apanhar. Novamente em fuga, só se lembraram de se esconder na casinha de palha de Crispim.

Mano, socorre-nos, porque a casa de pedra de Antão foi atacada por uma cobra das pedras e a minha foi atacada por um falcão — pediu Bézé.

Mas vocês não a acham muito frágil? — disse Crispim com uma ponta de ironia.»

O que é uma ponta de ironia? — quis saber um dos jovens ouvintes.

É uma espécie de troça — tentou explicar o velho.

«Os irmãos, depois dos sustos que tinham apanhado, acharam que a casa do irmão até tinha coisas boas, que ainda não tinham pensado:

À tua casa não chegam cobras, porque o ramo onde ela está presa é muito fino e elas cairiam, se cá viessem — calculou Antão.

E o ramo não aguentaria o peso dos falcões, se eles cá pousassem, nem conseguiriam entrar na casa — raciocinou Bézé.

Crispim mandou entrar os manos e eles ficaram admirados e encantados com a casa, toda acolchoada com lã. Nessa tarde veio uma grande tempestade, mas a chuva não entrava na casinha de palha muito bem entrançada, e o vento fazia-a abanar e rodopiar, mas ela mantinha-se bem presa ao raminho e aguentou a tempestade.

Nunca pensámos que a tua casa fosse a mais bem construída das três. Pusemos-lhe defeitos, mas é a melhor das que construímos. Desculpa o que dissemos! — disse Antão. — Vou construir uma como a tua.

Eu também vou construir uma igual — disse Bézé. — É mesmo confortável.

Na primavera seguinte, foram visitar os pais e contaram as aventuras de como tinham descoberto a casa que era melhor para eles.

Muito bem, filhos! Pode não se acertar à primeira, mas vocês tentaram e conseguiram inventar uma casa que vos protege dos perigos do lugar, só com materiais da zona. E confortável, o que é fundamental. Parabéns!

Depois destas palavras, os jovens tecelões e os pais cantaram e dançaram felizes. E a partir de então, todos os tecelões-de-cabeça-preta daquela terra distante passaram a construir as casas como a do Crispim.»

E pronto, acabou a história — concluiu o ancião. — Agora, vamos subir, que são horas de almoço.

Não é assim! A história não é assim; é com três porquinhos; e a melhor casa é a de pedra — contestou uma das crianças. — E falta o lobo — lembrou outra.

Esta história não é a dos três porquinhos — explicou, cheio de paciência, o velho, na função de educador de infância da família —; é a dos três tecelões-de-cabeça-preta. Cada animal tem a sua história, e uma casa de pedra pode ser boa para um porquinho, mas não ser para um passarinho tecelão. E uma casa de galhos pode ser boa para uma cegonha, porque as cegonhas são grandes e não são atacadas pelos pequenos falcões. O Crispim teve sucesso porque puxou pela cabeça e percebeu que uma casinha leve pendurada num raminho era a mais adequada para evitar predadores e aguentar tempestades. Vá, todos para casa! Hoje há mosca.

Yeh! — gritaram os pequenos aranhiços, subindo rapidamente para a teia principal, mas dois não pareciam satisfeitos e ficaram para trás:

O que é adequada?

E predadores?

Joaquim Bispo


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Imagem de IA.

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10/01/2026

Vitória inútil (A outra – 2ª parte)

 


Resumo da primeira parte: https://vislumbresdamusa.blogspot.com/2025/11/a-outra.html

Nely, aspirante a escritora e jovem amante de Galhardo, um mecenas artístico, certo dia, roída de ciúmes da mulher dele, manda matá-la, através dos bons ofícios de Albano, um ex-namorado.

*

Tenho tantas saudades, querido! Vem ver-me, vem! Sim? — convidou Nely, inquieta, numa dessas manhãs um pouco enevoadas, habituais na zona.

É talvez a quarta chamada de Nely para o amante, desde que a mulher dele foi morta. Deu-lhe os pêsames, sentidamente, logo que a comunicação social noticiou o caso, incitando-o a arranjar forças para ultrapassar tão dura provação. Depois, deixou passar quinze dias sem dizer nada. Quando ligou novamente, Galhardo desculpou-se, mas mandou entregar-lhe o cheque habitual.

Desta vez, Galhardo acedeu ao convite. Nely foi particularmente carinhosa e, no fim de uma sessão de amor bastante ardente, quis falar do futuro.

Querido, preocupo-me contigo. Deves estar tão sozinho! Tu não podes viver assim! Tens de ter uma mulher para te acarinhar, para te dar as boas-noites, para dormir agarradinha a ti, para te beijar quando acordas. E para fazer amor contigo quando quiseres. Sabes que eu sou afetuosa contigo, porque gosto muito de ti. Não quero pressionar-te, mas custa-me que estejas sozinho, tendo-me a mim, disposta a viver junto de ti.

Nely, eu também gosto de ti, mas ainda é muito cedo. Está tudo muito fresco.

Eu sei! Posso esperar mais um pouco, mas já estou à espera há tanto tempo. Quanto mais tenho de esperar?

Não sei Nely. O que sei agora é que estava muito habituado a ela. Não é fácil, de repente, mudar os hábitos todos. E creio que a minha filha não ia aceitar muito bem.

Mas algum dia vai ter de ser!

Não necessariamente. Posso continuar nesta situação por tempo indeterminado. Para dizer a verdade, não sei se quero voltar a casar tão cedo.

Não? Mas tu precisas de uma mulher, sei-o bem! Não sentes que te faz falta uma mulher meiga e compreensiva? Que melhor companheira podes arranjar que eu?

Sabes, eu era feliz antes de matarem a Matilde. E também posso dizer que sou feliz agora. Quando tenho saudades tuas, venho ter contigo; quando tens saudades minhas, ligas-me. O que há melhor que isto?

Não me sinto bem. É como se me estivesses a usar. Enquanto tinhas a tua mulher, eu entendia. Mas agora…

Por mim, não é preciso mudar o que seja. Tu tens a tua casa, eu tenho a minha. Continuo a vir cá de vez em quando, continuo a deixar o cheque.

Isso é outra coisa que me incomoda. Eu sei que é um mecenato para eu poder escrever, mas parece outra coisa. Como se me estivesses a pagar para dormir contigo. Sabes o que quero dizer.

Nada disso! Se fosse para te pagar favores sexuais, teria de gastar muito mais do que te deixo. O que te dou não é para te pagar nada; é para te ajudar a ser escritora.

Acho que estás é a ajudar-me a ser puta. E das baratas. Eu não quero ser puta, quero viver da Literatura, de cabeça erguida.

Mas não está fácil, não é? Poucos são os escritores que o conseguem.

Não, não está fácil. Mas, se queres ajudar-me a ser escritora, realmente, não me dês dinheiro; leva-me para ao pé de ti. Faz-me tua mulher!

Também não é simples para mim. Sabes, a morte da minha mulher fez-me pensar. Antes, sentia-me como que preso. Tinha prazer não só por estar contigo, mas também por estar a ser infiel. Era uma espécie de atitude reflexa à prisão do casamento. Analisando-me a fundo, acho que vinha ter contigo também pelo prazer da transgressão. A relação contigo existia, digamos assim, em função dela. Agora, que aquela grilheta desapareceu, em vez de me sentir mais livre, tenho sentido menos urgência de te procurar. Achas que consegues entender como funciona a cabeça de um homem?

Nely começou por um esgar da face, antes de começar a soluçar convulsivamente. Arrastadamente, articulou:

Tu não gostas de mim!

Gosto! — afirmava Galhardo, sem ênfase.

Como é possível tratares-me assim, depois de tudo o que tenho aturado? Achas que gosto de fazer broches, a seco? Eu sei lá por onde andaste com ele!

Não sejas ordinária!

Porquê? As tuas gajas são todas muito finas? Só aqui a puta é que te faz as badalhoquices que te apetecem, é?

Olha, eu não gosto nada de cenas destas. Recompõe-te, se fazes favor.

Senão, o quê?

Senão vou-me embora. Não há razão para estares com essas coisas. Alguma vez te prometi que casava contigo? Alguma vez te obriguei a fazer alguma coisa que não quisesses?

Vai-te embora, vai! Abandona-me aqui sozinha! Deita-me fora como um trapo velho. Vai; mostra o canalha que és!

Vou, vou. Vou mesmo, Nely! Assim, não! Não apareço por cá tão cedo, está bem? Mas não te preocupes, que eu faço-te chegar o cheque. Adeus!

Vai p’ó raio que te parta, mais o cheque! Desaparece da minha vista! Desaparece! — gritava Nely, transtornada.

Galhardo saiu da casa de Nely, meio constrangido pela cena que ela fizera, meio aliviado por estar a libertar-se desta ligação. A relação já ia longa e de vez em quando sentia que não passava de “mais do mesmo”. Iria estar atento a que Nely não passasse dificuldades económicas, pelo menos durante um ano, mas precisava de leveza, de jovialidade e não de situações penosas e recriminações.


No dia seguinte, Nely, de cara fechada, ligava para Albano, de um telefone público, alterando a expressão assim que ele atendeu:

Olá! Vais bem? Sim, tudo bem! Queria falar contigo, sabes porquê? Por causa de uma dívida, estás a ver? Estás? Maroto, sabes como levar a tua avante! Já sei como pagar, mas não queria que entendesses como o simples pagamento de uma dívida, antes como um agradecimento sentido e desejado. Sabes, tenho pensado muito naqueles tempos. Acho que fui uma estúpida em não esperar mais uns minutos. Era muito nova. Se fosse agora, e depois de ver como estás bonito, tinha esperado pelo menos uma hora. Não te rias, que é verdade! Sim, podes vir quando quiseres; avisa-me só, que é para me pôr airosa. Vá, um beijo!

Joaquim Bispo

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Este conto integra a coletânea Tempo de Vilões — resultante de concurso literário —, disponível na Amazon, em formato eBook Kindle. https://www.amazon.com.br/gp/product/B0BB52VNKX?fbclid=IwAR1GOZxMaC6Ka3Ae6NUGvQej0wTpM_UQ6ZN7bn8bpvBykJkP0XeUIn7nJr8

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Imagem:

Jean-Auguste Dominique Ingres, Júpiter e Tétis, 1811.

Museu Granet, Aix-en-Provence, França.

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10/11/2025

A outra

 


Numa noite de início de primavera, Nely Flores enganava o tédio jogando nas slot-machines do casino do Estoril, quando avistou, por entre os rendilhados pintados dos vidros da sala, Galhardo e a esposa, que saíam de braço dado da sala de espetáculos. Todas as noites passava ali duas ou três horas, apostando moedas nas máquinas rigorosamente programadas para a derrotar. Quando o fim do mês se aproximava, tinha de se conter. Para fazer render, jogava a aposta mínima e introduzia as moedas, uma a uma, em vez de mandar carregar a máquina com um determinado valor. Por vezes, limitava-se a bebericar um Alexander no bar do foyer. Ao ver o seu amante com a legítima, gloriosa num vestido comprido rosado, suspendeu o gesto de carregar no botão da máquina, como se tivesse ficado paralisada. Uma profunda névoa de tristeza toldou-lhe o olhar, enquanto via o casal afastar-se. Com a dor na alma, recolheu as quatro ou cinco moedas da bandeja da máquina e dirigiu-se para o bar. Pensativa, desta vez pediu um uísque de malte, tentando atordoar a mágoa que a feria visceralmente.

Não havia direito! A si é que amargava a boca, com o amor de Galhardo, e a consorte é que desfrutava da sua companhia e se exibia a seu lado. A princípio, fora bom. Ele tinha sido generoso e subsidiara a publicação de autor do seu livro. Eram dezasseis contos inspirados na sua experiência de modelo de moda e tinha o título genérico de “Poodles amestrados”. Conseguira impingir uma trintena de exemplares a familiares e amigos, mas a saída em livrarias fora pouco mais que simbólica. Na verdade, não era grande coisa como literatura, admitia. Deixava transparecer um certo ressentimento de fim de carreira.

Envolvera-se com Galhardo nessa situação de dependência de gratidão que os poderosos sabem aproveitar tão bem. E era atento e gentil. Depois de ir a casa dela algumas vezes, e em vista das suas dificuldades para continuar a dedicar-se exclusivamente à escrita, oferecera-se para ser o seu mecenas e deixara um cheque de mil e quinhentos euros. Desde então, um cheque de valor semelhante era deixado na última semana de cada mês. Às vezes, havia um reforço, a meio do mês, sobretudo pelo vício das slot-machines, que entretanto adquirira. Porquê? Morava perto do casino, permitia-lhe sentir que saía e via gente, e, provavelmente, mantinha-lhe uma esperança mal assumida de voltar a ser independente, desta vez pela sorte.

No primeiro ano, ainda fora acompanhante de Galhardo à República Checa e à Polónia, mas, desde então — e já iam quatro anos — nunca mais o acompanhara nas suas viagens de negócios. O contacto que mantinham limitava-se à visita de Galhardo, uma ou duas vezes por semana, nas quais, quase sempre, ele se contentava com um felatio.

Nely andava perto dos quarenta anos e, se não fosse por usar cabelos lisos, em vez de armados, podia dizer-se que era uma réplica da mulher de Galhardo, mais nova. Na verdade, também tinha formas mais generosas, sobretudo o peito. Segundo se lembrava, só uma outra vez tinha visto Galhardo e a mulher juntos, ao vivo. Fora um ano atrás, nesta mesma situação de saída do casino. Também dessa vez, Nely tinha ficado muito perturbada e invejara, como símbolo legitimador, a gargantilha de pedras azuis que dona Matilde ostentava. Nely reconhecera a gargantilha, pelo que tinha dito, algum tempo antes, a sua amiga Gina, que era esteticista no hotel Palace:

Sabes quem esteve ontem lá no salão? — a legítima do teu homem. Ainda rompe meias solas, a socialite! Estava toda elegante, com um colar de ouro, incrustado de pedras azuis. Com um colar daqueles, até eu havia de parecer uma grã-fina!

Nely não gostara da apreciação positiva feita pela amiga, e alardeara uma influência que não sabia se tinha:

Não digas a ninguém, mas ele comprou aquele colar para mim. Eu é que não o quis, porque a pedra do meu signo é a esmeralda, que é verde. O que fazia eu com um colar de pedras azuis?

Essa conversa era uma parte da razão para nunca pôr a gargantilha de safiras que ele, depois de muito pressionado, lhe oferecera.

Igualzinha, querido, tem de ser igualzinha! Não quero sentir-me discriminada. Já passo tanto tempo sem te ter ao pé de mim…

Na verdade, não tinha muitas ocasiões para a usar. Nem achava que fizesse o seu estilo. Era um bocado pesada de mais para a sua idade. Apresentava-se-lhe com ela posta, isso sim, nalgumas das vezes que ele a visitava.

Quanto mais pensava em todas estas recordações, mais deprimida se sentia. E o sentimento por aquela mulher que ocupava, de pedra e cal, um lugar que podia ser seu, era uma dor cortante no âmago do seu ser.

Desculpe, não é a Nely? — ouviu perguntar.

Ao seu lado, estava um homem entroncado e olhar intenso. Quando ela se voltou suficientemente, Albano não teve dúvidas de que era a sua antiga namorada, de há uns doze anos.

Nely, há quanto tempo! O que é feito?

Olá! Por aqui? Albano, não é?

Nunca mais te vi, desde aquela vez…

Pois, deixaste-me a secar!

Atrasava-me sempre, mas daquela vez devo ter exagerado… Nem voltaste a atender o telefone!

Sei que estás bem, que tens uma empresa de segurança, não é? Vi-te na televisão, quando foi dos tiroteios no Porto.

Queriam saber como era em Lisboa. Eles lá matam-se uns aos outros, pelo controlo dos contratos das casas de diversão noturna. Nós aqui temos a coisa dividida por zonas. Eu não me meto na zona dos outros e eles não se metem na minha. Não temos problemas.

Nely não soube em que momento tremeluziu no seu espírito uma centelha inspiradora, certo é que, em certo ponto da conversa sobre seguranças, e sobre o difícil e delicado que é lidar com homens duros, alguns, ex-cadastrados, Nely entreviu uma possibilidade de alterar o rumo da sua vida.

Também tens ex-assassinos na tua empresa?

Tenho de tudo. Isso não é problema. Só me interessa se sabem impor-se fisicamente, em caso de alteração da ordem, na casa noturna onde estiverem a prestar serviço.

Nely baixou os olhos, pensativa. Albano reconheceu nessa posição a longínqua imagem da amiga, com quem nunca chegara a vias de facto. Nely, após reviver por momentos o rancor que sentira há pouco, ao ver a sua rival, resolveu arriscar e aproximou o rosto do ouvido do ex-namorado.

Achas que consegues arranjar-me um fulano para um trabalhinho realmente sujo?

Albano hesitou um momento.

Sujo, como? Dar uma coça, partir as perninhas?

Apagar uma certa pessoa.

Albano quedou-se um pouco a contemplar o rosto decidido de Nely. Como estava diferente da jovem suave e um pouco tímida que conhecera anos atrás!

Caramba, Nely, não estou a reconhecer-te! Mas arranjo-te o que precisares. Deixa-me pensar! Olha, depois de amanhã, às onze, encontra-te comigo no miradouro da Boca do Inferno. Talvez já tenha alguma coisa para ti.


À hora combinada, chegou Albano. Nely, encostada à amurada do miradouro, fingia contemplar o infinito. Na verdade, controlava, discretamente, o acesso pedonal, um pouco insegura sobre quem apareceria. Albano cumprimentou-a e sugeriu o aconchego discreto de um banco de namorados incrustado na rocha. Foi direto ao assunto.

Nely, não chegámos a falar a sério sobre o que pretendes. Tens consciência de que é uma coisa muito grave e que deve ser rodeada de todas as cautelas?

Sim. O que queres dizer?

Sabes, não há operações perfeitas. Há sempre alguma coisa que corre mal, algum imprevisto. Tens consciência disto?

Nely acenou fracamente, sem dizer nada. Albano continuou.

Estás disposta a avançar, sabendo que, se der para o torto, somos todos envolvidos e presos, incluindo tu?

Estou — respondeu, endireitando o tronco e adotando uma expressão voluntariosa.

Ok! Então, é assim: há dois gajos que fazem isso, mas querem dois mil contos cada um. Vinte mil euros pelos dois. Estavas a contar com este valor?

Bem, sim! Eu não tenho esse dinheiro, mas tenho uma coisa que o vale. Uma gargantilha de safiras. Olha! — sugeriu, virando a abertura da mala de mão para ele. — Vale bem mais que isso.

Ok, talvez. Lembra-te que um recetador não dá o dinheiro que isso custou na loja. Mas vamos ver. Depois digo-te se chega. Agora, preciso de saber quem é o “feliz contemplado”.

Estás a ver o Galhardo dos vinhos? A mulher! — informou, estendendo uma revista do social a Albano. — É esta das fotografias.

Fihu! — assobiou Albano. — Não sei se os gajos vão querer. Logo se vê. Como é que ela se chama?

Matilde. Vive numa quinta em Sintra e dorme sozinha num quarto no rés-do-chão da casa. É fácil.

Tens pressa nisso? Tens algum método preferido?

Nely evocou a imagem da rival, radiosa, de colar a rodear o pescoço.

Enforcada! Pendurada por aquele pescocinho flácido. Assim que puderem.


Ainda nessa noite, Albano chamou ao seu gabinete os dois homens que tinham aceitado fazer o trabalho. Fora uma escolha acertada, à primeira.

Zezé; Bruno; já tenho os elementos que vocês vão precisar. É esta gaja — apontou, mostrando uma revista, em que avultavam fotografias de dona Matilde em várias divisões da sua casa de Sintra. — Vejam bem a gaja e as fotografias da casa, e estudem a localização aqui no Google Earth — adiantou, mostrando o ecrã do computador.

Chefe, já tem a “narta”? — quis saber Zezé.

Já! Tenho isto — asseverou, mostrando a gargantilha. — São pedras verdadeiras. Se levarem isto a Espanha, de certeza que conseguem mais de trinta mil euros. Vou cortá-la ao meio. Se aceitarem o trabalho, levam já metade. Quando acabarem, vêm buscar o resto. Pode ser assim?

Conte connosco, Chefe! — confirmou Zezé.

Se conseguirem sacar mais alguma coisa de valor lá da casa da gaja, é convosco. Até convinha, para parecer um assalto que se descontrolou. Mas, se trouxerem de lá alguma coisa, isso é material que queima. Tenham cuidado com ele. Não é como este.

Esteja descansado! Nós sabemos o que fazemos.

Claro. Era só para lembrar. Agora, queria ter uma conversinha muito séria convosco — explicou Albano. — A ti, Zezé, já te conheço desde os Fuzileiros. Sabes que um camarada nunca lixa outro. Se alguma coisa correr mal — e nestas coisas nunca se sabe o que pode acontecer — lembrem-se que é muito mais útil um amigo que possa fazer alguma coisa por nós, que um que esteja tão tramado como nós. O que eu quero dizer é o seguinte: se algum de vocês for preso, não lixe mais ninguém. Por um lado, eu ia negar tudo; depois, comigo cá fora, sempre vos posso contratar um advogado que valha alguma coisa. Fui claro?


No dia seguinte, Albano voltou a encontrar-se com Nely, para lhe dar conta da evolução do processo.

Está tudo tratado, Nely. Eles aceitaram o trabalho e o pagamento. Agora, é só esperar. Estou convencido de que vai correr tudo bem, que eles são homens de confiança. Por ti, deves fazer uma vida completamente normal, sem qualquer alteração, quer até ao dia D, quer depois. Nós próprios não devemos voltar a ver-nos, pelo menos sem deixar passar muito tempo e deixar arrefecer o caso.

És um querido! — regozijou-se Nely, dando um beijo na face de Albano. — Não sei como te agradecer!

Uma mulher bonita encontra sempre uma maneira de pagar um favor, se quiser — sentenciou Albano, com voz maliciosa.

Maroto! — protestou Nely, sorrindo.


Joaquim Bispo

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Este conto integra a coletânea Tempo de Vilões — resultante de concurso literário —, disponível na Amazon, em formato eBook Kindle. https://www.amazon.com.br/gp/product/B0BB52VNKX?fbclid=IwAR1GOZxMaC6Ka3Ae6NUGvQej0wTpM_UQ6ZN7bn8bpvBykJkP0XeUIn7nJr8

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Imagem:

Édouard Manet, Nana, 1877.

Coleção Hamburger Kunsthalle, Hamburgo, Alemanha.

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10/04/2023

Uma pedra no sapato de ténis

 

Casimiro Lopes começou a suspeitar de que qualquer coisa não estava bem quando, pela terceira vez, o seu parceiro habitual de ténis, Francisco Torrinha, deu uma desculpa para não fazerem a partida habitual. Não jogavam com muita regularidade — talvez de três em três semanas, muito longe das duas vezes semanais de uns anos atrás, quando ambos ainda estavam ao serviço da empresa —, mas era o suficiente para manterem a ilusão e a imagem de jogadores de ténis. Nem sequer eram grandes praticantes, apesar de jogarem juntos havia uns vinte anos. O ténis, agora, não passava de um pretexto para mexerem um pouco as articulações, calcificadas por tanto sedentarismo, e atualizarem o contacto.

Se, na primeira “nega”, Casimiro achou normal que o amigo não pudesse jogar por “ter de levar o carro à inspeção” e na segunda não pudesse, por andar “com uma dor lombar”, na terceira achou que as “compras no supermercado” bem podiam ser adiadas. Entre o surpreendido e o magoado, resolveu que não desafiava mais o amigo. Ele que telefonasse! Se a questão fosse circunstancial, Francisco haveria de arranjar um bocado da tarde para jogarem.

Passou-se um, passaram-se três meses e o telefone não cantou nenhum convite do amigo. Paciência! Casimiro é que não queria humilhar-se mais. Podia bem passar sem jogar ténis.

Quis o fado ou o diabo que Casimiro encontrasse um ex-colega da tropa, o Henriques, e chegassem à conclusão de que eram ambos jogadores de ténis a ressacar. E logo ali combinaram uma partida para o dia seguinte. Aziago dia esse!

Eram umas dez e meia, quando desceram dos balneários do Jamor para os campos de terra batida. O Henriques parecia jogar bastante melhor do que Casimiro, pelo que este se preparou para uma bela tareia. Na verdade, meia hora bastou para levar 6–2, na primeira partida.

Estavam a iniciar a segunda, com Casimiro a servir, quando este ouviu uma voz, seguida de uma risada, que muito bem conhecia. Estacou um momento, a determinar de onde vinha o som, e percebeu que vinha de um campo próximo, mas encoberto pelos arbustos de separação. Serviu, mas fez dupla falta. A seguir, meteu a bola na zona própria, mas um petardo do outro lado fê-lo ir buscá-la ao fundo do campo. Enquanto a apanhava, conseguiu espreitar por entre os arbustos e confirmar o que temia: Francisco Torrinha jogava ténis alegremente com outro tipo. E como se isso não bastasse, o outro era o Renato, o nojento Renato, o ex-colega de ambos que tinha das posturas mais irritantes na empresa. Irritante, manhoso e arrogante. Uma víbora com pernas.

O resto da partida correu ainda pior do que a primeira, se isso era possível. O sol queimava, a terra batida vermelha cegava, os olhos não conseguiam ver com precisão a trajetória das bolas. Quando a partida acabou com 6–0, Casimiro desculpou-se com o calor e voltaram aos balneários. Mais do que o calor, Casimiro já não aguentava a alegria que adivinhava no outro campo. Com o Renato!

O resto do dia não foi nada repousante para Casimiro. Pensou em mil e uma coisas que podia fazer, das mais vingativas às mais conciliadoras. A mais sensata, que acabou por prevalecer, quando, pelas três da manhã, o cansaço já se sobrepunha à raiva, foi a de confrontar Francisco com aquela facada nas costas.

No dia seguinte, foi esperá-lo à porta do infantário, aonde sabia que Francisco levava todos os dias a neta. Este não podia ter ficado mais surpreendido com a visita, mas pareceu a Casimiro que ele tentava disfarçar um ar comprometido:

Por aqui a esta hora? Pensei que a manhã era sagrada para ti!

Isso é um sarcasmo dos mais reles que já ouvi. Mais reles que isso é teres ido jogar ténis com o Renato — descarregou Casimiro, sem conseguir evitar o fel.

Mas o que é que estás a dizer? — ripostou Francisco, à defesa. — Quem é que te disse isso?

És capaz de negar na minha cara? Vá, diz; és? — faiscava Casimiro.

Sim, fui — admitia Francisco, vendo que não adiantava negar. — E daí? Qual é o problema?

O problema é que somos parceiros há vinte anos e ultimamente tens andado a evitar-me. E para quê? Para ires jogar com o mete-nojo do Renato! Com o Renato… Como é que foste capaz?

O que é que tem? Calhou! Encontrei-o no supermercado…

«Encontrei-o no supermercado» — repetiu Casimiro com voz de falsete. — Se te aparecesse o “Doninha” do Contencioso, também ias jogar ténis com ele, não? Agora vais com qualquer um? Não me admirava!

Ó Casimiro, qual é a tua? — aborrecia-se Francisco. — Mas, então, não posso ir jogar ténis com quem me apetecer? Era só o que faltava!

Pois, podes ir com quem te apetece, mas baldaste-te três vezes, quando te convidei. O que é que os outros têm a mais que eu não tenho?

Olha, por exemplo, estão dispostos a ir jogar de manhã, enquanto que tu…

Eu, quê? Se for o único período livre, posso ir de manhã. Ainda ontem fui — descaiu-se Casimiro — Tu é que nunca insististe!

Ah, tu podes jogar com outros e eu não posso! É essa a tua ideia de fidelidade?

Só fui porque tu nunca mais me ligaste. Assim, não! Também tenho sentimentos.

Ó Casimiro, não sejas assim! Não tem dado, mas podemos ir jogar um dia destes.

Amanhã? — apressou Casimiro, pela perspetiva de voltar a jogar com o amigo.

Eh, pá, amanhã não posso; tenho uma consulta no Centro de Saúde.

Eu não acredito que estava a ir na tua cantiga! — desesperou Casimiro. — Já percebi. Percebo até bem de mais. Sabes o que te digo? Vai-te catar! Eu não preciso de ti para nada. Se eu quiser jogar ténis tenho muito com quem.

Casimiro saiu de ao pé do amigo mais fulo do que nunca. «Falso!» — pensava para si. «Tu vais ver o que é bom...»

Daí a uns dias, tendo contactado um outro ex-colega que sempre conhecera como jogador de golfe, Casimiro deu as primeiras tacadas num campo de 9 buracos, num magnífico espaço dos arredores. Saboreando o imenso relvado tratado e a cavaqueira com este amigo que já não via há algum tempo, comprazia-se sobretudo na vingança que iria aplicar ao traiçoeiro Francisco, esfregando-lhe na cara o prestígio do golfe.

«Bem fria é que ela sabe bem!» — confirmou ainda nesse dia, ao publicar no facebook uma selfie com o amigo golfista, enquadrados numa esplendorosa paisagem verdejante, com um lago em fundo, de tacos na mão, felizes.

Joaquim Bispo

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Este conto foi um dos selecionados para a 38ª edição (março/abril de 2023) da Revista LiteraLivre, em formato e-book (páginas 64 a 67):

https://drive.google.com/file/d/1SVBk91JJrG2NmG9y3lGsmNRRakP1bHI8/view

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Imagem: Pintura mural no interior do restaurante anexo ao “court” central do Jamor, c. 1945 (?).

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