10/02/2026

Os três tecelões-de-cabeça-preta

 


Entre duas laranjeiras do quintal, à roda do idoso de longas pernas ossudas, a criançada agitada e saltitante, aos poucos, sossega, para escutar a história que ele vai contar.

«Era uma vez três passarinhos tecelões — uns que têm a cabeça preta, mas o corpo todo amarelo — que ainda viviam no ninho dos pais. Já voavam e já se alimentavam sozinhos, mas ainda vinham todos os dias dormir ao ninho. Ao fim de uns meses, o tempo começou a ficar mais frio e a comida foi ficando mais difícil de encontrar, de maneira que os pais dos pequenos tecelões aconselharam-nos a migrar. Abraçaram-nos, com tristeza, e recomendaram-lhes que, lá na terra para onde fossem, cada um construísse uma casa muito bem feita, que fosse confortável e resistisse ao mau tempo e aos inimigos que quisessem comê-los.

Os passarinhos voaram, voaram e, quando chegaram ao distante país para onde tinham migrado, primeiro alimentaram-se e descansaram um pouco, mas depois deram muitas voltas a voar, para ficarem a saber onde havia mais comida e de que materiais de construção dispunham. Antes de começarem a construir, cada um disse como ia fazer:

Vou fazer a minha casa com hastes de palha entrelaçadas na ponta de um ramo fino — declarou Crispim, o mais jovem.»

A miudagem soltou uma gargalhada. Como parecia tonto o Crispim!

«— Vou construir a minha casa com galhos sobre os ramos grossos de uma árvore — declarou Bézé, o irmão do meio.»

Nova risada se fez ouvir. Parecia que a história não era estranha à pequenada.

«— Vou construir a minha casa no buraco de um muro de pedra, largo e forte — declarou Antão, o mais velho.»

Um rumor de satisfação atravessou a assistência. Antão, sim, sabia como construir uma casa para resistir aos sopros de um lobo que quisesse comê-los, como na história dos três porquinhos!

«Assim disseram, assim fizeram. Antão não precisou de trabalhar muito; limitou-se a procurar uma cavidade de bom tamanho num muro grosso, deu-lhe uma limpeza e estava pronta. Do seu buraco soltou um chilreio de satisfação.»

«Bézé também se limitou a procurar uma árvore forte, com um espaço aconchegado na ligação de dois ramos, trouxe uma boa quantidade de pauzinhos e galhos para atapetar o chão e deitou-se a assobiar, desfrutando o espaço.»

A pequenada parecia estar a preparar-se para desfrutar do insucesso deste construtor de uma casa de madeira.

«Crispim demorou muito tempo a acabar a sua casa. Fez inúmeras viagens ao chão para apanhar palhas e ervas que entrelaçou na ponta de um galho, de maneira a formar uma espécie de bola de feno, com uma única entrada. Por fim, assobiou a anunciar a conclusão da obra. Os irmãos vieram ter com ele, mas não ficaram muito contentes com a casa do irmão:

Isto é muito frágil, Crispim! Se vem uma rajada de vento desfaz-te a casa e leva-a pelos ares.

Foram ver a casa de Bézé.

Tem uma bela vista, tem uma base sólida, mas não tem telhado. Pede às nuvens de chuva que não passem por aqui! — brincaram.

A última casa era a de Antão.

A-ah! Nesta casa não chove, nem há vento que a leve — aplaudiam os irmãos. — Muito bem!

Apesar das imperfeições, cada um já dormiu em sua casa, nessa noite. Mas, de madrugada, Antão, no seu ninho de pedra, ouviu uns ruídos arrastados. Cheio de medo, foi espreitar à abertura. Quase gelou de terror: uma cobra castanha, com duas riscas pretas a todo o comprimento, trepava pacientemente pelas pedras, dirigindo-se para a toca do nosso amiguinho Antão. Fugiu dali a sete asas para casa de Bézé.

Bézé, dá-me guarida, porque uma cobra atacou a minha casa — pediu ele ao irmão.»

O que é guarida, senhor avô? — perguntou um dos pequenos ouvintes.

É abrigo, proteção; um local onde seja possível viver sem perigo — esclareceu ele.

A cobra não podia atacar a casa do Bézé? — perguntou outro.

Não sabemos, mas, a árvore era muito grossa e de tronco liso, e talvez a cobra não conseguisse subir.

«De manhã, já esquecidos do susto da noite anterior, puseram-se a brincar naquela casa tão arejada e confortável. A brincadeira atraiu um falcão que passava por ali e desceu velozmente sobre os manos, para os apanhar. Novamente em fuga, só se lembraram de se esconder na casinha de palha de Crispim.

Mano, socorre-nos, porque a casa de pedra de Antão foi atacada por uma cobra das pedras e a minha foi atacada por um falcão — pediu Bézé.

Mas vocês não a acham muito frágil? — disse Crispim com uma ponta de ironia.»

O que é uma ponta de ironia? — quis saber um dos jovens ouvintes.

É uma espécie de troça — tentou explicar o velho.

«Os irmãos, depois dos sustos que tinham apanhado, acharam que a casa do irmão até tinha coisas boas, que ainda não tinham pensado:

À tua casa não chegam cobras, porque o ramo onde ela está presa é muito fino e elas cairiam, se cá viessem — calculou Antão.

E o ramo não aguentaria o peso dos falcões, se eles cá pousassem, nem conseguiriam entrar na casa — raciocinou Bézé.

Crispim mandou entrar os manos e eles ficaram admirados e encantados com a casa, toda acolchoada com lã. Nessa tarde veio uma grande tempestade, mas a chuva não entrava na casinha de palha muito bem entrançada, e o vento fazia-a abanar e rodopiar, mas ela mantinha-se bem presa ao raminho e aguentou a tempestade.

Nunca pensámos que a tua casa fosse a mais bem construída das três. Pusemos-lhe defeitos, mas é a melhor das que construímos. Desculpa o que dissemos! — disse Antão. — Vou construir uma como a tua.

Eu também vou construir uma igual — disse Bézé. — É mesmo confortável.

Na primavera seguinte, foram visitar os pais e contaram as aventuras de como tinham descoberto a casa que era melhor para eles.

Muito bem, filhos! Pode não se acertar à primeira, mas vocês tentaram e conseguiram inventar uma casa que vos protege dos perigos do lugar, só com materiais da zona. E confortável, o que é fundamental. Parabéns!

Depois destas palavras, os jovens tecelões e os pais cantaram e dançaram felizes. E a partir de então, todos os tecelões-de-cabeça-preta daquela terra distante passaram a construir as casas como a do Crispim.»

E pronto, acabou a história — concluiu o ancião. — Agora, vamos subir, que são horas de almoço.

Não é assim! A história não é assim; é com três porquinhos; e a melhor casa é a de pedra — contestou uma das crianças. — E falta o lobo — lembrou outra.

Esta história não é a dos três porquinhos — explicou, cheio de paciência, o velho, na função de educador de infância da família —; é a dos três tecelões-de-cabeça-preta. Cada animal tem a sua história, e uma casa de pedra pode ser boa para um porquinho, mas não ser para um passarinho tecelão. E uma casa de galhos pode ser boa para uma cegonha, porque as cegonhas são grandes e não são atacadas pelos pequenos falcões. O Crispim teve sucesso porque puxou pela cabeça e percebeu que uma casinha leve pendurada num raminho era a mais adequada para evitar predadores e aguentar tempestades. Vá, todos para casa! Hoje há mosca.

Yeh! — gritaram os pequenos aranhiços, subindo rapidamente para a teia principal, mas dois não pareciam satisfeitos e ficaram para trás:

O que é adequada?

E predadores?

Joaquim Bispo


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Imagem de IA.

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10/01/2026

Vitória inútil (A outra – 2ª parte)

 


Resumo da primeira parte: https://vislumbresdamusa.blogspot.com/2025/11/a-outra.html

Nely, aspirante a escritora e jovem amante de Galhardo, um mecenas artístico, certo dia, roída de ciúmes da mulher dele, manda matá-la, através dos bons ofícios de Albano, um ex-namorado.

*

Tenho tantas saudades, querido! Vem ver-me, vem! Sim? — convidou Nely, inquieta, numa dessas manhãs um pouco enevoadas, habituais na zona.

É talvez a quarta chamada de Nely para o amante, desde que a mulher dele foi morta. Deu-lhe os pêsames, sentidamente, logo que a comunicação social noticiou o caso, incitando-o a arranjar forças para ultrapassar tão dura provação. Depois, deixou passar quinze dias sem dizer nada. Quando ligou novamente, Galhardo desculpou-se, mas mandou entregar-lhe o cheque habitual.

Desta vez, Galhardo acedeu ao convite. Nely foi particularmente carinhosa e, no fim de uma sessão de amor bastante ardente, quis falar do futuro.

Querido, preocupo-me contigo. Deves estar tão sozinho! Tu não podes viver assim! Tens de ter uma mulher para te acarinhar, para te dar as boas-noites, para dormir agarradinha a ti, para te beijar quando acordas. E para fazer amor contigo quando quiseres. Sabes que eu sou afetuosa contigo, porque gosto muito de ti. Não quero pressionar-te, mas custa-me que estejas sozinho, tendo-me a mim, disposta a viver junto de ti.

Nely, eu também gosto de ti, mas ainda é muito cedo. Está tudo muito fresco.

Eu sei! Posso esperar mais um pouco, mas já estou à espera há tanto tempo. Quanto mais tenho de esperar?

Não sei Nely. O que sei agora é que estava muito habituado a ela. Não é fácil, de repente, mudar os hábitos todos. E creio que a minha filha não ia aceitar muito bem.

Mas algum dia vai ter de ser!

Não necessariamente. Posso continuar nesta situação por tempo indeterminado. Para dizer a verdade, não sei se quero voltar a casar tão cedo.

Não? Mas tu precisas de uma mulher, sei-o bem! Não sentes que te faz falta uma mulher meiga e compreensiva? Que melhor companheira podes arranjar que eu?

Sabes, eu era feliz antes de matarem a Matilde. E também posso dizer que sou feliz agora. Quando tenho saudades tuas, venho ter contigo; quando tens saudades minhas, ligas-me. O que há melhor que isto?

Não me sinto bem. É como se me estivesses a usar. Enquanto tinhas a tua mulher, eu entendia. Mas agora…

Por mim, não é preciso mudar o que seja. Tu tens a tua casa, eu tenho a minha. Continuo a vir cá de vez em quando, continuo a deixar o cheque.

Isso é outra coisa que me incomoda. Eu sei que é um mecenato para eu poder escrever, mas parece outra coisa. Como se me estivesses a pagar para dormir contigo. Sabes o que quero dizer.

Nada disso! Se fosse para te pagar favores sexuais, teria de gastar muito mais do que te deixo. O que te dou não é para te pagar nada; é para te ajudar a ser escritora.

Acho que estás é a ajudar-me a ser puta. E das baratas. Eu não quero ser puta, quero viver da Literatura, de cabeça erguida.

Mas não está fácil, não é? Poucos são os escritores que o conseguem.

Não, não está fácil. Mas, se queres ajudar-me a ser escritora, realmente, não me dês dinheiro; leva-me para ao pé de ti. Faz-me tua mulher!

Também não é simples para mim. Sabes, a morte da minha mulher fez-me pensar. Antes, sentia-me como que preso. Tinha prazer não só por estar contigo, mas também por estar a ser infiel. Era uma espécie de atitude reflexa à prisão do casamento. Analisando-me a fundo, acho que vinha ter contigo também pelo prazer da transgressão. A relação contigo existia, digamos assim, em função dela. Agora, que aquela grilheta desapareceu, em vez de me sentir mais livre, tenho sentido menos urgência de te procurar. Achas que consegues entender como funciona a cabeça de um homem?

Nely começou por um esgar da face, antes de começar a soluçar convulsivamente. Arrastadamente, articulou:

Tu não gostas de mim!

Gosto! — afirmava Galhardo, sem ênfase.

Como é possível tratares-me assim, depois de tudo o que tenho aturado? Achas que gosto de fazer broches, a seco? Eu sei lá por onde andaste com ele!

Não sejas ordinária!

Porquê? As tuas gajas são todas muito finas? Só aqui a puta é que te faz as badalhoquices que te apetecem, é?

Olha, eu não gosto nada de cenas destas. Recompõe-te, se fazes favor.

Senão, o quê?

Senão vou-me embora. Não há razão para estares com essas coisas. Alguma vez te prometi que casava contigo? Alguma vez te obriguei a fazer alguma coisa que não quisesses?

Vai-te embora, vai! Abandona-me aqui sozinha! Deita-me fora como um trapo velho. Vai; mostra o canalha que és!

Vou, vou. Vou mesmo, Nely! Assim, não! Não apareço por cá tão cedo, está bem? Mas não te preocupes, que eu faço-te chegar o cheque. Adeus!

Vai p’ó raio que te parta, mais o cheque! Desaparece da minha vista! Desaparece! — gritava Nely, transtornada.

Galhardo saiu da casa de Nely, meio constrangido pela cena que ela fizera, meio aliviado por estar a libertar-se desta ligação. A relação já ia longa e de vez em quando sentia que não passava de “mais do mesmo”. Iria estar atento a que Nely não passasse dificuldades económicas, pelo menos durante um ano, mas precisava de leveza, de jovialidade e não de situações penosas e recriminações.


No dia seguinte, Nely, de cara fechada, ligava para Albano, de um telefone público, alterando a expressão assim que ele atendeu:

Olá! Vais bem? Sim, tudo bem! Queria falar contigo, sabes porquê? Por causa de uma dívida, estás a ver? Estás? Maroto, sabes como levar a tua avante! Já sei como pagar, mas não queria que entendesses como o simples pagamento de uma dívida, antes como um agradecimento sentido e desejado. Sabes, tenho pensado muito naqueles tempos. Acho que fui uma estúpida em não esperar mais uns minutos. Era muito nova. Se fosse agora, e depois de ver como estás bonito, tinha esperado pelo menos uma hora. Não te rias, que é verdade! Sim, podes vir quando quiseres; avisa-me só, que é para me pôr airosa. Vá, um beijo!

Joaquim Bispo

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Este conto integra a coletânea Tempo de Vilões — resultante de concurso literário —, disponível na Amazon, em formato eBook Kindle. https://www.amazon.com.br/gp/product/B0BB52VNKX?fbclid=IwAR1GOZxMaC6Ka3Ae6NUGvQej0wTpM_UQ6ZN7bn8bpvBykJkP0XeUIn7nJr8

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Imagem:

Jean-Auguste Dominique Ingres, Júpiter e Tétis, 1811.

Museu Granet, Aix-en-Provence, França.

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10/12/2025

Enfrentar o mundo com uma bainha

 

Na sua câmara no gineceu do palácio, Penélope medita sobre a sua impotência perante as insistências desprezíveis dos pretendentes. Lá em baixo, na sala grande, banqueteiam-se com as olorosas carnes das rezes dos seus domínios, estrondeando júbilos alarves, sem respeito pela casa que os acolhe, nem pela sua anfitriã. A repulsa física que sente por aqueles brutos não é menor do que a ira pelo saque que impõem ao seu património. Tivesse ela uma espada e outro seria o festim e outras as carnes sacrificadas, mas Penélope não dispõe de mais do que de uma bainha.

Ulisses partiu há muitos anos, elevando em glória a sua espada fulgurante. À frente dos seus guerreiros, a espada de Ulisses prometia a vitória junto aos muros de Troia. Ele e os seus companheiros iriam enterrar as espadas de Marte em muitos corpos de opositores valorosos. Para trás ficaram as esposas, as mães, com a ambígua defesa das suas bainhas de Vénus. Como enfrentar o mundo com uma bainha?

Dez anos durou a guerra de Troia. Foram batalhas constantes ou só um tedioso cerco, como sussurrava o rumor? Em que atividades teriam os combatentes gastado esses dez anos? Conhecendo os homens e os seus valores, Penélope acredita que passaram os intermináveis dias de assédio a exibir e a comparar as suas espadas. E a afagá-las para lhes realçar o brilho. Muita vaidade têm os homens nas suas espadas. Na sua rigidez confiam, do seu brilho se orgulham, nelas se reveem, como símbolo excelso do esplendor da sua virilidade.

Passados esses dez anos, saqueada Troia, todos os combatentes regressaram aos seus lares, para maior ou menor fortuna, mas Ulisses não. Andará a saquear cidades, a depredar campos inimigos, a arrebatar manadas de gordos vitelos? Ou, objeto da ira dos deuses, terá sido desviado da sua rota para praias distantes, rochedos destruidores? Como poderá Penélope saber? Um viajante naufragado nas costas de Ítaca diz-lhe que viu Ulisses em Creta, recebido com louvores de herói; outro, que ouviu falar em desditas marítimas do navegador Ulisses.

Penélope espera. Que pode uma esposa amante do seu esposo fazer senão esperar? Sente saudades. Sente solidão. Aninhada no leito que partilhou com Ulisses, compadece-se da sua bainha, também ela ali abandonada, triste e chorosa, como criança perdida e faminta. Em desvelos maternais, enche-a de carinhos para que consiga adormecer.

Passaram já dezassete anos e Ulisses mantém-se ausente. O pai de Penélope insiste que é tempo demais para esperar; que ela deve voltar a casar. O mundo conspira contra as mulheres. Todos sentenciam que tem de haver uma espada naquela casa. O filho de Ulisses arvora naturalmente uma espada, mas tem apenas dezassete anos. É demasiado novo para defender um património como o de seu pai.

Penélope é ainda bastante jovem e bela e suscita claramente o interesse de muitos pretendentes da ilha e de fora dela, todos nobres e valorosos, como exige a nobreza da excelente requestada. Parece, no entanto, a Penélope que é maior o interesse dos pretendentes na riqueza imensa que o património de Ulisses representa. A todos vai negando o seu leito e os seus domínios, mas eles não arredam pé. Apoiados na sentença espatária do pai de Penélope, vão ficando, vão-se instalando, comendo e bebendo à conta dos bens de Ulisses, até que ela escolha um deles.

São muitos, fazem questão de exibir a evidência das suas espadas, não se pode combatê-los senão com astúcia. Penélope é a esposa de um homem conhecido como “Ulisses dos mil ardis”. Também ela medita em estratagemas para ganhar tempo.

Uma ajuda a Penélope é decidida pelos deuses, a pedido de Atena e por ela personificada. Casta como é, admira e quer recompensar a fidelidade conjugal de Penélope. Uma ideia é inspirada à mortal.

Declara que escolherá um pretendente depois de completar a mortalha fúnebre para o pai de Ulisses, que está entrado em anos. Pode ser que entretanto Ulisses chegue. Mas os meses passam e Ulisses não regressa. Penélope desfaz de noite a urdidura tecida durante o dia.

Penélope já não sabe que mais temer: a morte funesta do esposo em batalhas remotas ou a sedução de feiticeiras, ninfas e deusas invejosas. Em quem andará Ulisses a cravar a espada: em corpos de inimigos cruéis e desprezíveis ou em carnes mais delicadas e propícias? As costas dos mares irrequietos estão cheias de tentações e perigos.

Tecer, urdir uma teia, lidar com miríades de fios, juntar uns, separar outros, ajuda Penélope a meditar, a ter uma visão alargada da complexidade dos desafios que enfrenta. Apura-lhe a intuição, desvenda-lhe outros padrões, outras tecituras. Avalia possibilidades onde antes só encontrava entraves. Atena não a abandona.

Conferencia com o filho e com Mentor, o fiel amigo que Ulisses deixou a tomar conta dos seus domínios. Envia-os a pedir ajuda aos bravos heróis e companheiros de Ulisses em Troia, que há muito regressaram, mas também eles só vislumbram a solução matrimonial com um pretendente. A lógica da espada prevalece.

Seu pai e seus irmãos pressionam Penélope para que aceite Eurímaco, o pretendente que mais ricas prendas tem oferecido. Também a ela este parece o menos mau dos que a cortejam. Nunca Antínoo, o rude e agressivo líder da turba arrogante dos pretendentes. Disfarçadamente, vai avaliando os modos corteses de Eurímaco, o seu porte nobre, a elegância do seu gládio, bem mais admirável que as desprezíveis adagas ou as traiçoeiras cimitarras da maioria. Mas custa-lhe a imposição da escolha. Não é opção para uma rainha. Sobretudo sem a certeza da morte de Ulisses.

Se os pretendentes fossem dois ou três, facilmente poderia criar algumas intrigas, acicatar ciúmes e livrar-se de todos, mas com cento e oito…

Terrível dilema. É como se Hera, protetora das mulheres casadas, sentindo curiosidade pela extrema fidelidade de Penélope, bloqueasse outras ajudas dos deuses, propondo-se ver como conseguirá uma mortal desenvencilhar-se do aperto em que se encontra. Talvez a mortal encontre soluções para problemas tão complexos como os que por vezes ela própria enfrenta — as constantes traições de Zeus.

A situação é muito difícil, é um problema sem solução visível. Só os aedos vislumbraram e cantaram uma. Supostamente devida a um auxílio a Ulisses decidido pelos deuses. Homero cantará um regresso tumultuoso e arrasador de Ulisses. Com o auxílio de Atena, chegará a Ítaca disfarçado de mendigo, entrará no seu palácio ocupado, com a ajuda do filho e de um porqueiro, revelar-se-á a alguns servos indefetíveis e obterá o seu apoio. Arquitetará então um plano terrível que executará implacavelmente até à morte de todos os pretendentes. Sem perdoar um. E até de algumas servas que a eles se entregaram, por terem transformado em bordel a casa da sua senhora.

Que Ulisses implacável é este? Quão brutal e sanguinário se tornou um homem que, tendo já matado os principais e mais odiosos pretendentes, prossegue o massacre, mesmo depois de pedidos de perdão e declarações de pagamento de todos os depredações executadas na sua casa? E ter matado simples servas? Como desapareceu a sua lendária sensatez? Em que se transformou Ulisses? Ninguém o reconhece. A maioria só se deixa convencer ao lhe ser mostrada uma antiga cicatriz na perna. Será mesmo Ulisses que regressa? Ou um aventureiro que com ele privou e de quem foi confidente?

Outros aedos cantarão versões libidinosas de amores adúlteros de Penélope. Uma chegará ao extremo de pretender ter ela ido cedendo sucessivamente aos mais de cem pretendentes. Muito adulterada deverá estar a memória para admitir que tal seria concebível a uma princesa de Esparta, cidade por excelência das mulheres virtuosas.

Em nova conferência, Penélope, o filho e Mentor reveem as várias hipóteses. Dificilmente conseguirão livrar-se dos pretendentes pelos meios tradicionais. Eles dispõem da avassaladora vantagem da força, quer imediatamente, quer em retaliações futuras. Há que usar de criatividade, de astúcia, da força do espírito. Penélope fala em manobras de humilhação e do seu possível poder dissuasor. É uma arma poderosa, mas que pode gerar reações de grande brutalidade retaliatória.

Mentor sugere alternativas violentas. Poderia mandar as criadas envenenar-lhes a comida, mas os pais e outros familiares não entenderiam e viriam cobrar vingança. Poderia propor jogos de eliminatórias — corridas de carros, tiro de arco — até ao apuramento de um vencedor. Podiam ser torneios tão viris e violentos que os pretendentes se fossem eliminando fisicamente uns aos outros. Mas sempre restaria algum, talvez um que Penélope não quer ver nem dourado, talvez o odioso Antínoo...

Não; abdicar do poder da escolha está fora de questão. Bem bastara ter sido ela o prémio na corrida de carros que Ulisses vencera. Para acentuar que a escolha nupcial também fora sua, Penélope aceitara seguir Ulisses para Ítaca, em vez de se manter em Esparta, conforme os rogos do pai. Deixar que o acaso decida, seria um retrocesso no controlo do processo e isso é inaceitável.

Há anos que os pretendentes se fizeram presentes. Mais ou menos convincentes, cada um intenta ser o príncipe que a encantará. Aos poucos habituou-se à adulação subjacente. Cada um daqueles jovens almeja elevar em glória a espada no seu leito. A uma decisão sua, podia dar sentido à sua bainha. Mas não é da companhia de um jovem que Penépole sente falta. Ulisses nunca abandona o seu pensamento.

Passaram mais três anos. Completam-se em breve vinte, desde que Ulisses levantou a sua poderosa espada na proa da negra nau que rumava a Troia, encabeçando a flotilha de outras onze. O estratagema de desfazer a urdidura durante a noite foi desmascarado por uma escrava. Penélope é pressionada a escolher um pretendente, das muitas dezenas que todos os dias se fazem comensais nas mesas da sala grande. Que fazer? Adiar a escolha torna-se cada vez mais difícil. Atena cicia-lhe soluções.

Penélope tece, maneja os fios com destreza, medita, imagina que consegue prender um dos fios a um pretendente e comandá-lo. Outro fio a outro pretendente. Um fio para cada um. É uma urdidura ambiciosa, uma teia ampla, global. Cada fio cumpre uma função particular, e juntos completam o tecido. A este cumpre assegurar o resguardo, a proteção, o recato, o seu, de mulher casada, ou viúva, ou só mulher. Através da urdidura pode comandar o seu destino.

A queda de Troia desarticulou o equilíbrio da região. Hordas de desenraizados espreitam e saqueiam as costas mediterrânicas. Penélope toma consciência da força que, se unida, aquela centena de guardiões representa. Uma guarda de elite é a proteção mínima, mas suficiente que a livrará de depredações invasoras. O que consome à mesa é um preço irrisório, comparado com a proteção que oferece. É preciso que o espírito que moveu para ali cada um dos pretendentes se consolide em irmandade protetora.

Se antes, por cortesia, não hostilizava os pretendentes, cada vez os acarinha mais, apesar do deboche que alguns protagonizam. Incentiva e, não raras vezes, aceita honrar com a sua presença os jogos de adestramento bélico e os banquetes subsequentes. Evita que, cansados da espera, desistam, enviando-lhes mensagens personalizadas, sugerindo dias mais auspiciosos e insinuando que pode estar próximo o prémio que espera. Fazendo-o sentir-se especial, envolve cada pretendente num acordo tácito de proteção, Atrás do véu que brota do seu tear, vai conseguindo tecer uma teia coesa e protetora, para si e para Ítaca. Que talvez lhe permita esperar por Ulisses indefinidamente.

Joaquim Bispo

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Este conto foi selecionado para a 54ª edição (novembro/dezembro de 2025) da Revista LiteraLivre, em formato e-book (páginas 81 a 85):

https://drive.google.com/file/d/1bfOCXN-t7jfyhFDgiptn9viPPOrV-Yhy/view

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Imagem: John William Waterhouse, Penélope e os Pretendentes, 1912.

Coleção Aberdeen Art Gallery

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10/11/2025

A outra

 


Numa noite de início de primavera, Nely Flores enganava o tédio jogando nas slot-machines do casino do Estoril, quando avistou, por entre os rendilhados pintados dos vidros da sala, Galhardo e a esposa, que saíam de braço dado da sala de espetáculos. Todas as noites passava ali duas ou três horas, apostando moedas nas máquinas rigorosamente programadas para a derrotar. Quando o fim do mês se aproximava, tinha de se conter. Para fazer render, jogava a aposta mínima e introduzia as moedas, uma a uma, em vez de mandar carregar a máquina com um determinado valor. Por vezes, limitava-se a bebericar um Alexander no bar do foyer. Ao ver o seu amante com a legítima, gloriosa num vestido comprido rosado, suspendeu o gesto de carregar no botão da máquina, como se tivesse ficado paralisada. Uma profunda névoa de tristeza toldou-lhe o olhar, enquanto via o casal afastar-se. Com a dor na alma, recolheu as quatro ou cinco moedas da bandeja da máquina e dirigiu-se para o bar. Pensativa, desta vez pediu um uísque de malte, tentando atordoar a mágoa que a feria visceralmente.

Não havia direito! A si é que amargava a boca, com o amor de Galhardo, e a consorte é que desfrutava da sua companhia e se exibia a seu lado. A princípio, fora bom. Ele tinha sido generoso e subsidiara a publicação de autor do seu livro. Eram dezasseis contos inspirados na sua experiência de modelo de moda e tinha o título genérico de “Poodles amestrados”. Conseguira impingir uma trintena de exemplares a familiares e amigos, mas a saída em livrarias fora pouco mais que simbólica. Na verdade, não era grande coisa como literatura, admitia. Deixava transparecer um certo ressentimento de fim de carreira.

Envolvera-se com Galhardo nessa situação de dependência de gratidão que os poderosos sabem aproveitar tão bem. E era atento e gentil. Depois de ir a casa dela algumas vezes, e em vista das suas dificuldades para continuar a dedicar-se exclusivamente à escrita, oferecera-se para ser o seu mecenas e deixara um cheque de mil e quinhentos euros. Desde então, um cheque de valor semelhante era deixado na última semana de cada mês. Às vezes, havia um reforço, a meio do mês, sobretudo pelo vício das slot-machines, que entretanto adquirira. Porquê? Morava perto do casino, permitia-lhe sentir que saía e via gente, e, provavelmente, mantinha-lhe uma esperança mal assumida de voltar a ser independente, desta vez pela sorte.

No primeiro ano, ainda fora acompanhante de Galhardo à República Checa e à Polónia, mas, desde então — e já iam quatro anos — nunca mais o acompanhara nas suas viagens de negócios. O contacto que mantinham limitava-se à visita de Galhardo, uma ou duas vezes por semana, nas quais, quase sempre, ele se contentava com um felatio.

Nely andava perto dos quarenta anos e, se não fosse por usar cabelos lisos, em vez de armados, podia dizer-se que era uma réplica da mulher de Galhardo, mais nova. Na verdade, também tinha formas mais generosas, sobretudo o peito. Segundo se lembrava, só uma outra vez tinha visto Galhardo e a mulher juntos, ao vivo. Fora um ano atrás, nesta mesma situação de saída do casino. Também dessa vez, Nely tinha ficado muito perturbada e invejara, como símbolo legitimador, a gargantilha de pedras azuis que dona Matilde ostentava. Nely reconhecera a gargantilha, pelo que tinha dito, algum tempo antes, a sua amiga Gina, que era esteticista no hotel Palace:

Sabes quem esteve ontem lá no salão? — a legítima do teu homem. Ainda rompe meias solas, a socialite! Estava toda elegante, com um colar de ouro, incrustado de pedras azuis. Com um colar daqueles, até eu havia de parecer uma grã-fina!

Nely não gostara da apreciação positiva feita pela amiga, e alardeara uma influência que não sabia se tinha:

Não digas a ninguém, mas ele comprou aquele colar para mim. Eu é que não o quis, porque a pedra do meu signo é a esmeralda, que é verde. O que fazia eu com um colar de pedras azuis?

Essa conversa era uma parte da razão para nunca pôr a gargantilha de safiras que ele, depois de muito pressionado, lhe oferecera.

Igualzinha, querido, tem de ser igualzinha! Não quero sentir-me discriminada. Já passo tanto tempo sem te ter ao pé de mim…

Na verdade, não tinha muitas ocasiões para a usar. Nem achava que fizesse o seu estilo. Era um bocado pesada de mais para a sua idade. Apresentava-se-lhe com ela posta, isso sim, nalgumas das vezes que ele a visitava.

Quanto mais pensava em todas estas recordações, mais deprimida se sentia. E o sentimento por aquela mulher que ocupava, de pedra e cal, um lugar que podia ser seu, era uma dor cortante no âmago do seu ser.

Desculpe, não é a Nely? — ouviu perguntar.

Ao seu lado, estava um homem entroncado e olhar intenso. Quando ela se voltou suficientemente, Albano não teve dúvidas de que era a sua antiga namorada, de há uns doze anos.

Nely, há quanto tempo! O que é feito?

Olá! Por aqui? Albano, não é?

Nunca mais te vi, desde aquela vez…

Pois, deixaste-me a secar!

Atrasava-me sempre, mas daquela vez devo ter exagerado… Nem voltaste a atender o telefone!

Sei que estás bem, que tens uma empresa de segurança, não é? Vi-te na televisão, quando foi dos tiroteios no Porto.

Queriam saber como era em Lisboa. Eles lá matam-se uns aos outros, pelo controlo dos contratos das casas de diversão noturna. Nós aqui temos a coisa dividida por zonas. Eu não me meto na zona dos outros e eles não se metem na minha. Não temos problemas.

Nely não soube em que momento tremeluziu no seu espírito uma centelha inspiradora, certo é que, em certo ponto da conversa sobre seguranças, e sobre o difícil e delicado que é lidar com homens duros, alguns, ex-cadastrados, Nely entreviu uma possibilidade de alterar o rumo da sua vida.

Também tens ex-assassinos na tua empresa?

Tenho de tudo. Isso não é problema. Só me interessa se sabem impor-se fisicamente, em caso de alteração da ordem, na casa noturna onde estiverem a prestar serviço.

Nely baixou os olhos, pensativa. Albano reconheceu nessa posição a longínqua imagem da amiga, com quem nunca chegara a vias de facto. Nely, após reviver por momentos o rancor que sentira há pouco, ao ver a sua rival, resolveu arriscar e aproximou o rosto do ouvido do ex-namorado.

Achas que consegues arranjar-me um fulano para um trabalhinho realmente sujo?

Albano hesitou um momento.

Sujo, como? Dar uma coça, partir as perninhas?

Apagar uma certa pessoa.

Albano quedou-se um pouco a contemplar o rosto decidido de Nely. Como estava diferente da jovem suave e um pouco tímida que conhecera anos atrás!

Caramba, Nely, não estou a reconhecer-te! Mas arranjo-te o que precisares. Deixa-me pensar! Olha, depois de amanhã, às onze, encontra-te comigo no miradouro da Boca do Inferno. Talvez já tenha alguma coisa para ti.


À hora combinada, chegou Albano. Nely, encostada à amurada do miradouro, fingia contemplar o infinito. Na verdade, controlava, discretamente, o acesso pedonal, um pouco insegura sobre quem apareceria. Albano cumprimentou-a e sugeriu o aconchego discreto de um banco de namorados incrustado na rocha. Foi direto ao assunto.

Nely, não chegámos a falar a sério sobre o que pretendes. Tens consciência de que é uma coisa muito grave e que deve ser rodeada de todas as cautelas?

Sim. O que queres dizer?

Sabes, não há operações perfeitas. Há sempre alguma coisa que corre mal, algum imprevisto. Tens consciência disto?

Nely acenou fracamente, sem dizer nada. Albano continuou.

Estás disposta a avançar, sabendo que, se der para o torto, somos todos envolvidos e presos, incluindo tu?

Estou — respondeu, endireitando o tronco e adotando uma expressão voluntariosa.

Ok! Então, é assim: há dois gajos que fazem isso, mas querem dois mil contos cada um. Vinte mil euros pelos dois. Estavas a contar com este valor?

Bem, sim! Eu não tenho esse dinheiro, mas tenho uma coisa que o vale. Uma gargantilha de safiras. Olha! — sugeriu, virando a abertura da mala de mão para ele. — Vale bem mais que isso.

Ok, talvez. Lembra-te que um recetador não dá o dinheiro que isso custou na loja. Mas vamos ver. Depois digo-te se chega. Agora, preciso de saber quem é o “feliz contemplado”.

Estás a ver o Galhardo dos vinhos? A mulher! — informou, estendendo uma revista do social a Albano. — É esta das fotografias.

Fihu! — assobiou Albano. — Não sei se os gajos vão querer. Logo se vê. Como é que ela se chama?

Matilde. Vive numa quinta em Sintra e dorme sozinha num quarto no rés-do-chão da casa. É fácil.

Tens pressa nisso? Tens algum método preferido?

Nely evocou a imagem da rival, radiosa, de colar a rodear o pescoço.

Enforcada! Pendurada por aquele pescocinho flácido. Assim que puderem.


Ainda nessa noite, Albano chamou ao seu gabinete os dois homens que tinham aceitado fazer o trabalho. Fora uma escolha acertada, à primeira.

Zezé; Bruno; já tenho os elementos que vocês vão precisar. É esta gaja — apontou, mostrando uma revista, em que avultavam fotografias de dona Matilde em várias divisões da sua casa de Sintra. — Vejam bem a gaja e as fotografias da casa, e estudem a localização aqui no Google Earth — adiantou, mostrando o ecrã do computador.

Chefe, já tem a “narta”? — quis saber Zezé.

Já! Tenho isto — asseverou, mostrando a gargantilha. — São pedras verdadeiras. Se levarem isto a Espanha, de certeza que conseguem mais de trinta mil euros. Vou cortá-la ao meio. Se aceitarem o trabalho, levam já metade. Quando acabarem, vêm buscar o resto. Pode ser assim?

Conte connosco, Chefe! — confirmou Zezé.

Se conseguirem sacar mais alguma coisa de valor lá da casa da gaja, é convosco. Até convinha, para parecer um assalto que se descontrolou. Mas, se trouxerem de lá alguma coisa, isso é material que queima. Tenham cuidado com ele. Não é como este.

Esteja descansado! Nós sabemos o que fazemos.

Claro. Era só para lembrar. Agora, queria ter uma conversinha muito séria convosco — explicou Albano. — A ti, Zezé, já te conheço desde os Fuzileiros. Sabes que um camarada nunca lixa outro. Se alguma coisa correr mal — e nestas coisas nunca se sabe o que pode acontecer — lembrem-se que é muito mais útil um amigo que possa fazer alguma coisa por nós, que um que esteja tão tramado como nós. O que eu quero dizer é o seguinte: se algum de vocês for preso, não lixe mais ninguém. Por um lado, eu ia negar tudo; depois, comigo cá fora, sempre vos posso contratar um advogado que valha alguma coisa. Fui claro?


No dia seguinte, Albano voltou a encontrar-se com Nely, para lhe dar conta da evolução do processo.

Está tudo tratado, Nely. Eles aceitaram o trabalho e o pagamento. Agora, é só esperar. Estou convencido de que vai correr tudo bem, que eles são homens de confiança. Por ti, deves fazer uma vida completamente normal, sem qualquer alteração, quer até ao dia D, quer depois. Nós próprios não devemos voltar a ver-nos, pelo menos sem deixar passar muito tempo e deixar arrefecer o caso.

És um querido! — regozijou-se Nely, dando um beijo na face de Albano. — Não sei como te agradecer!

Uma mulher bonita encontra sempre uma maneira de pagar um favor, se quiser — sentenciou Albano, com voz maliciosa.

Maroto! — protestou Nely, sorrindo.


Joaquim Bispo

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Este conto integra a coletânea Tempo de Vilões — resultante de concurso literário —, disponível na Amazon, em formato eBook Kindle. https://www.amazon.com.br/gp/product/B0BB52VNKX?fbclid=IwAR1GOZxMaC6Ka3Ae6NUGvQej0wTpM_UQ6ZN7bn8bpvBykJkP0XeUIn7nJr8

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Imagem:

Édouard Manet, Nana, 1877.

Coleção Hamburger Kunsthalle, Hamburgo, Alemanha.

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10/10/2025

Vocação de mabeco

 


Ruffy era um dobermann preto, nascido no Zimbabué em casa de um vigário inglês. Ao fim de uns anos, o inglês, “farto de aturar pretos”, voltou para a Europa, abandonando o animal, que não teve outro remédio senão desenrascar-se sozinho. Nas primeiras semanas, Ruffy sobreviveu a virar caixotes em Lupane, a sua pequena cidade das margens do Gwayi; depois, decidiu que não era um coitadinho qualquer, como alguns que ele via a mendigar comida, e aventurou-se pelos matos.

Percebeu rapidamente que, na savana, era onde podia encontrar muita comida, com o contratempo de ser ligeira a fugir. A princípio, teve de se contentar com restos de carcaças, algumas já com um cheiro pouco apetitoso. E muitas vezes teve de ser ele ligeiro, para escapar de bocas que não se importavam de comer carne de cão.

Tomar contacto com os mabecos foi inspirador. Viu-os de longe, caracteristicamente malhados, em matilha, a perseguir zebras ou antílopes ou tudo o que não fosse demasiado grande. Eram incansáveis. Podiam correr quase uma hora, até cansar a presa, que era sucessivamente mordida em corrida e ia perdendo vigor. Por fim, rodeavam-na, despedaçavam-na em poucos minutos, ingeriam quanta carne podiam, alguma da qual era depois regurgitada para as crias ou para outros membros que não tinham podido acompanhar a caçada.

Não eram flor que se cheirasse, bem o percebeu. Naqueles contactos visuais, sentiu apreensão. Em numerosas ocasiões, pensou voltar para as ruas dos homens. Se estes cães selvagens o vissem, não teria qualquer hipótese. Passou a ter cuidados redobrados, não atravessando espaços abertos, mas, quando se sentia seguro, passou a tentar a caça à maneira dos mabecos.

Muitas corridas não deram em nada, mas, uma vez por outra, conseguiu abater presas pequenas. Começou a ganhar autoconfiança. Um dia abalançou-se a perseguir um javali, mas, depois de uma pequena corrida, o javardo virou-se a ele. Surpreendido, levou uma naifada que lhe atingiu o flanco e a coxa esquerda. Conseguiu escapar e escondeu-se nuns arbustos espinhosos, a lamber as feridas.

Ruffy pensou que era o fim. Sem conseguir correr, iria morrer de fome, se não morresse dos ferimentos. Ao fim de dois dias, um grupo de mabecos deu com ele. Então, não teve dúvidas do que o esperava. Os primos selvagens rosnaram-lhe, foram-se aproximando de cabeça baixa e dentes arreganhados, mas, inesperadamente, cheiraram-no, devem ter encontrado afinidades canídeas, perceberam que estava ferido, pareceram ficar indecisos.

Depois de umas idas e vindas, para dentro e para fora dos arbustos, com cuidado, por causa dos espinhos, um macho com aspeto soberbo, regurgitou uma massa carnosa junto ao focinho de Ruffy. O dobermann não pensou em mais nada; só que podia matar a fome imediatamente. A massa, vagamente acastanhada, demorou menos tempo a chegar ao estômago do cão, do que a sair da goela do mabeco. E, no dia seguinte, o grupo voltou. E, novamente, o alimentou. Afinal, era malta de bem. Ao fim de três dias, o cão seguiu os seus salvadores.

Alvo de curiosidade do bando, mostrou-se sempre humilde, prostrando-se e ganindo a cada aproximação mais desconfiada. Aos poucos, começou a acompanhar a matilha nas caçadas. Não tinha a velocidade nem a técnica dos mabecos, mas ajudava nas estratégias de separação de uma presa de um grupo. Depois corria, enquanto conseguia. A princípio, quando chegava ao local do abate, a presa já tinha sido esfacelada e os líderes do grupo já se tinham alimentado. Mas sobrava sempre alguma coisa. Aquando da primeira zebra, abandonaram quase um quarto da carcaça aos abutres.

Ao fim de uns meses, já tinha o seu lugar no grupo, em posição subalterna, é certo, mas participava em todas as caçadas com grande entusiasmo e mesmo alegria. Surpreender a presa incauta, lançar-lhe um latido «Eu vou atrás de ti», perceber-lhe o medo, persegui-la implacavelmente, integrado na matilha de uma dúzia de mabecos, conseguir mordiscar-lhe o ventre ou uma pata, participar no derrube final, ferrar-lhe os caninos na goela, senti-la a esvair-se, a desistir de lutar, exaltava-o até ao uivo.

Depois do ardor e da alegria da perseguição, a festa das carnes, das vísceras arrancadas, engolidas a correr, uma e outra vez. Como estava contente por se ter decidido pela savana, em vez de andar aos caixotes na cidade, a catar restos azedos, a morrer de vergonha alheia pelo comportamento de outros cães!

Mas a vida na savana não é só vitórias. Come-se e é-se comido. Talvez dois anos depois de chegar à savana, enquanto estava emboscada a observar a movimentação de uma manada de gnus-de-cauda-preta, a matilha foi rodeada por várias leoas caçadoras. Também elas tinham estudado a matilha e concentraram o ataque no elemento mais fraco: o cão da cidade.

Separado do resto da matilha em fuga, correu quanto pôde, mas a velocidade não era comparável. Não ouviu nenhum “Eu vou atrás de ti”, das leoas, mas o terror que o invadiu não tinha paralelo com qualquer outro medo que já tivesse sentido, nem mesmo quando fora encontrado ferido pelos mabecos. Parecia que os músculos não respondiam como esperava. Sentiu-se perdido.

No auge do cansaço, enfrentou as leoas. “Porquê eu?”, ganiu. “É muito injusto!” Ruffy era um animal pequeno, comparado com tantos outros que dali se avistavam; não percebia porque o tinham escolhido a ele. “Com tantos gnus e zebras, porquê eu?”, ululou. “Agora vão ter que ouvir: Aqueles não perseguem vocês... Vergonha! Eu não sou nenhum coitadinho; eu enfrentei sozinho um javali; vocês vão ver!”, ameaçava.

Os dentes que mostrava eram temíveis, mas as leoas eram três. Rodearam-no, num jogo que os predadores em grupo sabem jogar. Quando a presa investe contra um, os outros atacam-no por detrás. O confronto desigual terminou rapidamente.

As primícias da carcaça foram para o macho alfa, que se aproximou sem pressas. Depois de se saciar, o leão estendeu-se por perto, a ver as leoas dividir o restante sem lutas, em cedências tácitas, consumindo-o totalmente no local. Na savana, fora do grupo, não havia justiça, nem contemplação com os pequenos e os coitadinhos; vigorava uma desapaixonada luta pela sobrevivência em que até os predadores podiam tornar-se presas.

Joaquim Bispo

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Este conto foi selecionado para a 53ª edição (setembro/outubro de 2025) da Revista LiteraLivre, em formato e-book (páginas 81 a 83):

https://drive.google.com/file/d/1MkUxqXzC849GS9J_mgt8t5clM6smyLbm/view

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Ilustração de @rodolfo.bispo.77

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10/09/2025

Sexta-feira na luta de classes

 


Ao princípio da tarde, D. Matilde pediu a Ramiro:

Prepare o carro e leve-me a Cascais, a casa da Tatá Menezes, se faz favor.

Durante a viagem, a senhora parecia apreensiva, ao contrário de outras ocasiões em que se encontrara com a amiga, e quase não falou. Já nas alamedas do bairro chique da Gandarinha, alterou:

A Tatá mandou-me agora uma mensagem a dizer que está no bar do Hotel do Cabo. Vamos para lá, está bem?

Perto do hotel, Ramiro ouviu um sinal de chegada de mensagem. Entraram no estacionamento subterrâneo, mas D. Matilde manteve-se sentada. Pelo espelho, Ramiro percebeu alguma perturbação no rosto da patroa. Parecia claramente abatida. Após uns momentos que lhe pareceram longos, quebrou o silêncio.

Esperamos um pouco, Sra. D. Matilde?

Sim, deixe-me descansar cinco minutos.

A passageira cerrou os olhos e inclinou a cabeça para trás. Mantinha o telemóvel na mão, como se se tivesse esquecido dele. Por pudor profissional, Ramiro passou a olhar ostensivamente para fora, após perceber um esgar ténue no rosto da patroa. Uns dez minutos depois, D. Matilde abriu a porta do carro:

Ajude-me a levar a minha nécessaire, Ramiro, se faz favor. Preciso de me estender um pouco.

Tomaram o elevador para o segundo andar e, aí, D. Matilde entregou a Ramiro uma chave eletrónica marcada 202. Da janela larga da suíte avistava-se uma ampla mancha verde de pinhal. Depois, o azul profundo do Atlântico. D. Matilde tirou o elegante bolero de cetim e sentou-se no sofá da zona de convívio.

Sente-se aqui, Ramiro; faça-me um pouco de companhia! Traga um martini para mim, aí do bar, e uma bebida para si.

O motorista escolheu um maple fronteiro ao sofá, receoso de impor familiaridade não desejada.

Há quanto tempo está connosco, Ramiro?

Vai fazer treze anos em outubro, minha senhora. Quando o Sr. Conselheiro comprou os vinhos de Bucelas, eu vim no pacote — ironizou. — Eu era lá motorista do patrão.

Ah, eu lembro-me de si, muito jovem, ainda com o cabelo todo preto.

Sim, a idade não perdoa.

Bons tempos! Naquela altura, eu ainda nem tinha cinquenta, ainda estava bem viçosa. Agora, é o que se vê!

Ó Sra. D. Matilde, por amor de Deus, a senhora está igual! — protestou Ramiro. — Parece que os anos não passam pela senhora.

Não diga isso, Ramiro, que eu tenho espelhos. E o espelho mais cruel são os olhos dos outros. Dantes, os homens comiam-me com o olhar; agora… Se soubesse o que me aconteceu hoje!

A sério, minha senhora. Acho-a muito bonita; sempre achei.

Nesta idade ganha-se muita insegurança. Gasto fortunas em tratamentos para a pele. O rosto tem este aspeto, que engana, mas o corpo… nem tudo está bem. — Levantou-se e rodou lentamente à frente de Ramiro. — Acha que ainda sou atraente? Sinceramente!

D. Matilde era alta e um pouco magra. Tinha olhos azulados e pescoço esguio. Usava cabelo louro sempre bem armado, toaletes caras e, quase sempre, delicados perfumes florais. As suas formas mostravam alguma alteração pela idade, que as roupas disfarçavam. As ancas estavam um pouco menos arredondadas e a cintura um pouco mais cheia, mas o rosto apresentava-se bastante liso e os seios eram mantidos no ponto correto. Ramiro lembrava-se dela como uma mulher deslumbrante e ainda era fácil reconhecer o seu aspeto de então.

Acho-a muito atraente, Sra. D. Matilde. Sempre achei.

Ah! Ó Ramiro, você é tão cavalheiro. Eu pedi que fosse sincero!

A sério, minha senhora; acho-a muito… desejável, se me permite.

O que lhe agrada em mim?

A elegância, os olhos, o rosto. Os lábios.

Só?!

Ramiro não respondeu logo.

Os seios. Sempre gostei dos seus seios — atreveu-se, perante o silêncio expectante e recetivo da patroa. — Não leve a mal. Às vezes, tinha que fazer um grande esforço para conter o meu olhar de fugir para eles.

D. Matilde manteve-se silenciosa a fitar Ramiro, como que a certificar-se da sua sinceridade. No passado, embora suspeitasse que ele a admirava furtivamente, nunca lhe notara o menor sinal desrespeitoso. O rosto dele denotava uma genuína dedicação pessoal que ultrapassava o mero empenho profissional. Naquele momento, D. Matilde experimentou um sentimento de reconhecimento e um apelo de generosidade.

Gostava de vê-los, Ramiro?

Este levantou-se surpreendido e visivelmente pouco à vontade:

Ó minha senhora, de maneira nenhuma; quero dizer, não me atrevo a dizer que sim.

D. Matilde desapertou lentamente os botões da blusa de seda branca sem mangas que trazia e deixou-a solta. Pela abertura generosa, o volume bojudo e sedoso dos seios revelou-se saliente por sobre as copas alvas e delicadas do sutiã. Ramiro, apesar de ser homem vivido, não pôde evitar uma aceleração cardíaca que a respiração denunciava. D. Matilde aproximou-se:

Toque-lhes! Pode tocar-lhes.

Ramiro estendeu devagar a mão esquerda aberta, enchendo-a de seio e copa. Apertou delicadamente, enquanto semicerrava os olhos. D. Matilde rodou o corpo, oferecendo as costas e o fecho da peça íntima. Ramiro abraçou-a por detrás. Os seus braços cruzaram-se no peito de D. Matilde, penetrando por sob a base do sutiã e enchendo ambas as mãos com os frutos desejados. Manteve-se uns momentos a desfrutar a suavidade tensa das carnes, até que D. Matilde abriu o fecho do sutiã e o retirou. Ficou de frente para Ramiro, que parecia aparvalhado de desejo a mirar o par de seios, relativamente pequenos, suspensos no tronco estreito da sua senhora.

Quer que tire mais alguma coisa, Ramiro? — incitou D. Matilde, inclinando a cabeça em trejeito insinuante.

Deixe só a gargantilha, minha senhora! — pediu Ramiro, num sussurro rouco.

A azáfama que se seguiu podia presumir-se de sexo louco e desvairado, mas o corpo de Ramiro, que num primeiro momento parecia ir rebentar, mostrava-se preguiçoso e refratário.

Desculpe, minha senhora, deve ter sido da cerveja do almoço.

Deixa lá o “minha senhora”, Ramiro, pelo menos agora — sorria-se D. Matilde. — E olha que eu não sou de cristal; podes ser mais bruto, se quiseres.

E dava o exemplo com palmadas rijas no rabo de Ramiro. Este incremento de intimidade pareceu desinibi-lo. Seguiu o conselho e retaliou longamente, o que pareceu restaurar o seu desempenho e resultou em nádegas vermelhas em D. Matilde. Mais tarde, reconheceu para si próprio que grande parte do prazer adveio dos açoites dados. Além da alegria da sua parte solar por fornicar uma mulher ainda bonita, a sua parte escura, até aí inibida, rejubilara também por espancar a patroa. A gratificação era completa. D. Matilde parecia também muito distendida. Os gritos que dera tinham sido a consequência inevitável da mistura sofisticada de prazer e dor. Acendeu um cigarro longo e fino e contou:

Uma vez fiquei assim com as nádegas por ter dito ao meu pai que ele era um assassino sem coração. Eu devia ter uns treze anos quando começaram os massacres de colonos em Angola. Nós tínhamos uma roça de café. Vieram os turras e mataram três empregados brancos nossos. Os meus pais tinham ido levar-me a Nova Lisboa, para a escola. Estava num colégio interno. Quando voltaram e o meu pai se deparou com aqueles corpos mutilados, juntou um grupo de homens, foram a uma aldeia que diziam que apoiava os turras, e enforcaram nove homens, pretos, claro. Foi muito falado o caso dos nove corpos pendurados dum embondeiro. Durante muito tempo tive medo que os amigos e familiares retaliassem, que entrassem pela roça adentro e nos matassem a todos. Talvez por isso, casei cedo.

O meu marido — continuou — nunca me tocou com um dedo. Sempre nos demos bem. Talvez porque sempre fomos muito independentes. Sabes que até dormimos em quartos separados? — gracejou — mas é mais por causa dos ressonos. Quando ele andou metido naquela coisa dos negócios com a UILA — armas para lá, diamantes para cá — passava meses sem o ver. Depois, as idas à Lunda ficaram muito perigosas e ele optou por ficar cá definitivamente e investir em vinhos e bancos. Agora tramou-se com o BNN. Também não nos metemos muito na vida um do outro. Eu vou sabendo de um ou outro encantamento dele, mas vale a pena proibir as ondas de enrolar na areia? Isso também me deixa à vontade para algum devaneio que me apeteça. Não sei se ele já soube de algum, mas prefiro que não saiba. Apesar de sermos um casal mais ou menos aberto, não sei como iria reagir. A propósito, sabes o que me fez hoje o… — tu conheces — tinha combinado encontrar-me aqui com ele, mas sabes o que o sabujo me fez?: mandou uma mensagem — uma mensagem, vê bem! — a dizer que não conseguia trair o amigo e que, de qualquer modo, tinha uma reunião de trabalho. Detesto sedutores mal assumidos.

Para D. Matilde, este episódio que começara mal, acabara por ter um desfecho gratificante. Já vestidos, D. Matilde, num impulso de mulher abastada, e em gesto teatral, desapertou a gargantilha de pedras azuis e estendeu-a a Ramiro.

Ramiro, quero que fique com esta gargantilha. Tome!

Oh, Sra. D. Matilde, por amor de Deus; não posso aceitar.

Aceite! Quando a olhar, lembre-se de mim só com ela em cima do corpo. Espero que seja uma recordação aprazível.

Claro que é, minha senhora! Sem dúvida! Não a vou esquecer nunca mais. Mas, esta joia não foi uma prenda do Sr. Galhardo?

Foi, mas era melhor que não ma tivesse dado. Acho que ele a comprou para a amante do Estoril e ma deu porque ela não gostou. Soou-me. Ele esqueceu-se que a pedra do signo dela é a esmeralda! Bem, vamos embora. Não é preciso dizer que este é um segredo nosso; que não seria bom para mim se alguém o soubesse, muito menos para o Ramiro!

Joaquim Bispo

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Este conto foi selecionado para a 52ª edição (julho/agosto de 2025) da Revista LiteraLivre, em formato e-book (páginas 86 a 90):

https://drive.google.com/file/d/1gWrCTkOKrEO8xjuGwnWx8Nep72Uo98q2/view

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Imagem: Lucian Freud, E o noivo, 1993.

Coleção privada.

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