10/06/2026

Prova cega

 


O campo! Nas décadas entre guerras, o campo é um território habitado e amanhado por chusmas de gente de inúmeras competências rurais. Pastores, ganhões, quinteiros, terceiras tratam de rebanhos, lavras, ceifas, mondas.

Homens e mulheres aproximados fisicamente, na alegria dos trabalhos estivais, estão disponíveis para dichotes carregados de sensualidade e maiores brincadeiras. As descamisadas à obscuridade lunar, abrandado o calor diurno, são especialmente apetecíveis para jogos e folia. Um beijo por cada espiga de milho-rei funciona como atiçador. Quase sempre aparece um tocador de harmónio e o baile acontece; dança de corpos separados, de braços levantados, o corpo a saltitar, o rosto afogueado de entusiasmo, uns toques corporais — quem pode evitar?, quem quer evitar? As paixões incendeiam os corpos, depois dos rostos e, por vezes, uma escapada rápida é inevitável. Nunca dá para muito, às vezes é o início de um namoro, de um casamento. Quantos casais começam nas eiras? Os casados vão-se deitar, mas um dia tão longo ainda tem de prolongar-se mais uns minutos, para apaziguar os corpos, para o sono ser sossegado.

Os homens — e as mulheres — nunca estão satisfeitos. Mesmo os casados podem ficar a cismar com um olhar cheio de promessas, com outro corpo, com a sua apetência, com a sua disponibilidade. Muitas vezes não passam de devaneios, alguma tentativa tosca facilmente desarmada. O patrão tem outra manha, outro ascendente sobre as assalariadas.

Domingos Saruga não se deixou esquecer de umas coxas brancas, robustas e molhadas, cujos sobrejoelhos vislumbrou na ribeira. “Zabel”, a mulher do ganhão, estava a lavar a roupa, metida na água, com a saia enrolada na cintura, enquanto dois gaiatos andavam por ali a brincar com os seixos. Domingos passava a caminho do rancho, na lida desse dia: desbandeirar parte da beirada de milho. Entre saudações e despedidas, houve tempo para uns gracejos:

Boas tardes! Tá calor, hã? — fez Domingos, com a bota apoiada num pedregulho.

Boas tardes! Aqui nã se está mal… — Isabel, sorridente, não deixou de esfregar a barra de sabão azul e branco numas calças encardidas.

Tamém não me importava de estar aí!… — insinuou Domingos. — nõ sei é se nõ m’aumentava o calor… — arriscou.

Ó patrão, se o calor é desses, o melhor é ir ter com a patroa, a ver se ela lho tira… — lançou a rapariga, em risada.

No domingo seguinte, na missa, depois dos ora pro nobis e dos miserere, o padre veio com uma prática que parecia feita para ele e lhe deu umas ideias. Era a história do rei David e de Betsabé. O rei vira-a a tomar banho, desejara-a e seduzira-a. Como era casada, o rei mandou o marido, militar, para a frente de batalha para morrer, e ficou com ela. Não havia só a coincidência do banho; o nome Betsabé também fazia lembrar Zabel. E a guerra era ali ao lado, em Espanha, em tempos de avançada nacionalista. Às vezes, ouviam-se tiros. Não era má ideia afastar o ganhão, para se poder aproximar da mulher dele.

Nessa mesma tarde, Domingos comunicou-lhe a ordem:

Amanhã, vais para o Vale do Espinho, lavrar a encosta do Monte da Anta. Vamos lá semear feijão pequeno.

O dito monte ficava a uns bons dez quilómetros e não passava de um terreno aberto.

Atão, mas não há lá casa nem nada!

Está bom tempo. Dormes debaixo do carro!

O dia seguinte era dia de mercado de gado na cidade. Domingos não falhava um. Depois de se inteirar dos preços do gado, de um ou outro bocado de conversa e de comer a bucha que levava, entrou numa das duas ourivesarias da cidade e quis ver brincos. De conversas anteriores, sabia que Isabel ambicionava uns brincos novos para levar a um casamento daí a meses.

É para a sua senhora ou quer melhor? — perguntou o matreiro ourives.

Vossemecê arranje-me aí uma coisa em conta! — Apesar da importância do motivo, Domingos não queria gastar muito. Se tinha arranjado algum, não era a esbanjar.

Escolheu uns simples, mas de filigrana fina. A rapariga ia gostar.

No dia seguinte, passou “casualmente” pela pequena horta que cedera ao casal e iniciou a aproximação com conversa mole, tendo o cuidado de esperar que os miúdos se afastassem. Andavam na rega da manhã.

A aguinha é o que vale à horta, senão secava tudo, nõ é?

O sol já vai alto. Daqui a bocado nem parece que a horta foi regada.

É o calor do tempo. A esta hora é sempre a subir. É cmó meu...

Ai, patrão, meta os pés na água qu’isso passa.

Já experimentei de tudo. Não passa de maneira nenhuma. Mas, eu sei como é que ele passava e quem mo fazia passar... E tu também sabes. Dava-te uns brincos, Zabel!

Nõ diga isso, patrão, que é pecado — reagiu Isabel, com pouco vigor. O malvado tinha encontrado a palavra mágica.

Hoje à noite no palheiro, quando eu for arraçoar o gado.

Ó patrão… Não pode ser… Depois o que é que eu dizia ao meu Zé?

Que é uma paga por ter ido trabalhar para fora.

Isabel ficou o resto do dia em grande inquietação. Não queria fazer aquilo, por mais que lhe agradassem uns brincos novos. Mas como é que podia dizer “não” ao patrão? Alvoroçado como andava, se calhar ia ficar tão danado que era capaz de despedir o seu Zé. Isso não podia acontecer. Não havia assim tanto trabalho na zona. Em desespero, lembrou-se de pedir ajuda à patroa. Talvez ela intercedesse para que o marido não despedisse o Zé.

À tardinha, antes de o patrão regressar a casa, Isabel contou à patroa as encrencas em que o patrão a tinha enredado.

Ai, o valhaco! — reagiu Assunção, genuinamente arreliada. Ali ao lado da casa, nas barbas dela, salvo seja? — Deixa estar que eu trato disso. Vai descansada, mas fecha-te em casa. E não digas nada a ninguém. Nem ao teu marido, senão há sangue!

Assunção e Domingos cearam normalmente, mas este parecia um pouco ansioso. No fim, levantou-se e anunciou:

Vou arraçoar o gado!

Logo que o marido saiu, Assunção deixou a candeia acesa, mas escapou-se rapidamente pela porta das traseiras e entrou no palheiro cautelosamente por uma porta secundária, protegida pelo escuro da hora e um lenço pela cabeça. O marido já lá estava e repetia em surdina:

Zabel! Zabel!

Assunção já tinha escolhido o sítio — uma zona de palha limpa espalhada no chão, na zona mais escura do palheiro. Fez um “ch, ch” suficientemente baixo, que não desse para identificar o timbre de voz. Domingos seguiu o som. Conhecia bem o palheiro. Em menos de nada, chegou ao pé da mulher. Às apalpadelas, encontrou-lhe o busto. Sentiu a macieza das carnes. Em grande excitação, agarrou aquele corpo disponível.

Amandei-lhe as mãos às tetas, às nalgas, à abêbera — fanfarronaria, na segunda-feira seguinte, para o amigo de confidências, também agricultor.

Arrastou a mulher para o chão e, em urgência, afastou roupas e pernas.

Boa com’um raio! Aluada que nem uma bezerra! Encavei-lhe o vergalho naqueles entrefolhos e fiquei ali a regalar-me! À patrão! — concluiria Domingos.

O gozo sobreveio antes de o diabo esfregar um olho, intenso, avassalador, tempestuoso.

«Tanta pressa! Até parece que passa fome em casa…» — notava Assunção, atenta e um pouco divertida.

«Parece que levei uma marrada!» — pensava Domingos, ainda atordoado. Depois levantou-se e começou a compor-se. Antes que a mulher se afastasse, meteu a mão no bolso das calças e tateou a mão dela:

Toma os teus brincos. Ganhaste-os bem! Vai, vai lá! Ma nõ digas nada!

Assunção não tinha preparado nenhuma ação especial; nem imaginara como as coisas pudessem passar-se. Uma ideia perversa assaltou-a: podia repetir a farsa mais vezes. Mas logo reconsiderou. Não podia deixar que ele continuasse a pensar que tinha estado com a Zabel.

Atão! Sabe-te melhor aqui do que lá em casa? — saiu-lhe.

Mergulhada no escuro, Assunção lamentava não poder ver a cara do marido. Seguiu-se um longo e opressivo silêncio. Nem cara, nem voz. Por um momento sentiu apreensão. Se calhar, não devia tê-lo confrontado já. A reação dele demorou, mas, quando chegou, regozijou-a e deu-lhe a certeza da vitória:

Rais parta as mulheres! — resmungou alto, afastando-se para deitar feno ao cavalo, à burra e a uma junta de vacas.

Em casa, depois de confirmar que não tinha palhas agarradas à roupa, Assunção apreciou os brincos. Já não se lembrava de quando é que ele lhe tinha dado uns. E o entusiasmo? «Só talvez por alturas do casamento» — calculou, despeitada. «O valhaco!» Com jeito, colocou-os e mirou-se num pequeno espelho, à luz da candeia de azeite. «Ficam-me bem! Acho que vou passar a usá-los. E hei de dar à Zabel os que já não uso, para ela levar ao casamento da prima.»

Recomeçou a arrumar a loiça. Domingos ainda demorou um bocado. Quando entrou, encontrou-a ao pé do lume, mas não disse nada e foi logo deitar-se.

Assunção ficou ainda algum tempo a meditar em tudo o que tinha acontecido. O malvado não tinha estado com outra mulher, mas, para o caso, era como se tivesse estado. A traição não tinha comparação com qualquer outra zanga. Era amargosa e verde como os concilhos. Aqueles brincos seriam o lembrete silencioso de que um dia Domingos tinha posto o pé em ramo verde. E lhe tinha corrido mal. Que ele teria de encarar todos os dias.

Joaquim Bispo

*

Este conto, com o título “Os brincos”, foi selecionado para a 57ª edição (maio/junho de 2026) da Revista LiteraLivre, em formato e-book (páginas 79 a 82):

https://drive.google.com/file/d/1R34FbQa6ZAtLeAcjBO7MA4qicIrxciQg/view

*

Imagem:

José Malhoa, Clara, 1903.

Museu do Chiado, Lisboa.

* * *

10/05/2026

Peso

 

As desavenças já vinham de longe. O avô de Verdasco sempre se queixara que um vizinho, um tal Gadanho, tinha uma atitude manhosa e traiçoeira nas relações com os vizinhos. A horta que depois o pai cultivava nos limites da freguesia de Lograssol, perto do Luso, sofria das manobras mesquinhas de Gadanho, que ia raspando a base da estrema um pouco sobrelevada, que, ao longo de muitos invernos, se ia desmoronando pouco a pouco, acrescentando área de terra à do manhoso e subtraindo-a do vizinho. Muitas discussões depois e de dois inícios de agressões que os familiares conseguiram suster, o ambiente tornara-se de tal modo desagradável que o pai de Verdasco abandonou mesmo o cultivo daquela horta, para nem ver o que Gadanho fazia.

Verdasco fora criado com aquele conflito na estrema do quotidiano e, depois da morte do pai, herdara aquela horta e aquela desavença, mas conseguia não pensar muito nisso, nem queria, até porque vivia em Penacova, a uma vintena de quilómetros. Só lá ia pela altura das ameixas e das peras, colher o que as árvores queriam dar. Mas, de cada vez, conseguia perceber que Croncho, o filho de Gadanho, herdara o terreno do pai e a mesma postura manhosa. Uma vez reparava que Croncho avançara a estrema meio metro para dentro do caminho comum; outra que encaminhara a regueira das chuvas para o seu terreno, que lhe arrastava terras; ou atravessava o seu terreno com o trator, fazendo novo caminho aos poucos. Não entrava em confrontos nem discussões, mas ia remoendo o desagrado. Jurava, para si, que um dia lhe iria calcar a sepultura.

Uma noite, cabeceando na Internet, Verdasco esbugalhou os olhos de surpresa: uma nota da funerária do Luso anunciava a morte e o funeral de Croncho. Não dizia de que morrera.

Depois de muito meditar e reviver as arrelias que o avô e o pai tinham amargado com aquela família e o que este membro continuava a fazer, Verdasco resolveu ir ao funeral e confirmar com os seus olhos que aquele miserável não voltaria a fazer-lhe sacanices.

Era uma terça-feira de fevereiro, Verdasco não foi à igreja; esperou no estacionamento do cemitério. A comitiva era reduzida: três pessoas, que não conhecia, além do padre e do cangalheiro. Croncho estava divorciado e a mulher e filhos estavam para França. Verdasco aproximou-se, mas manteve uma distância reservada. Ouviu as orações do padre, viu o cangalheiro e o coveiro descer a urna e este começar a lançar pazadas de terra para cima. Ninguém chorou. Quando os três acompanhantes se afastaram, Verdasco chegou-se à boca da cova, a fazer a confirmação possível. Ainda viu um canto do caixão já quase completamente coberto de terra, em que agora começavam a cair uns pingos de chuva. Aí estava toda a fanfarronice, toda a manha! Assim acabava quem não soubera viver. Mas tinha sorte o malandro: o pequeno cemitério entre pinhais era bem aprazível; quase apetecia viver ali.

Quando começou a sentir-se aliviado, Verdasco respirou fundo, saiu do cemitério e entrou no carro. Manteve-se ali ainda um bocado, imóvel, a saborear um resto de ressentimento, mas escurecia e ainda tinha uns quilómetros de estrada sinuosa até Penacova.

Passados uns dez minutos, já no lusco-fusco da serra e rodeado de floresta, a meio de uma curva para a direita, um alarme - turuli-turuli - invadiu o habitáculo, ao mesmo tempo que um sinal vermelho se acendia no painel, a indicar que o cinto do passageiro não estava colocado. Instintivamente, olhou para o lado. Claro que não estava ali ninguém, mas o assento pareceu-lhe pressionado.

Em pânico, travou; as rodas de trás começaram a deslizar, percebeu a berma a aproximar-se, e o desnível logo ali. Pressentindo que, sair da estrada, antes de traseira, rodou o volante ajudando a rotação e conseguiu parar, virado para trás, mesmo encostado à berma direita. Sem cuidar da altura, atirou-se para fora do carro. Caiu sobre mato rasteiro, um metro abaixo, e rolou até bater num tronco. Conseguiu endireitar-se e trepar pelo aclive até ao alcatrão, uns dez metros para lá da traseira do carro.

Enquanto corria arranhado e desnorteado pela estrada de Penacova, vigiado pelos farolins vermelhos do carro no anoitecer chuvoso, teve um vislumbre de raciocínio: o que quer que acionara o alarme, e de cuja natureza suspeitava, revelava-se bem mais pesado do que habitualmente se diz. Pelo menos naquele caso, o que era de esperar.

No dia seguinte, o mecânico que rebocou o carro explicou-lhe que é relativamente frequente o desajuste do sensor de peso do banco, quando há muita humidade no ar, mas Verdasco não quis saber. Daí a uma semana tinha vendido o carro.

Joaquim Bispo

*

Imagem: Anúbis pesa o coração do defunto contra a pena da verdade

* * *

10/04/2026

Uma pancada na cabeça

 

A viagem de quinze dias ao Egito suscitou a Augusto Salado preocupações com a segurança da casa. Talvez fosse a distância, talvez o muito tempo fora, talvez um certo sentimento de superstição com civilizações com poderes obscuros.

Puxando um pouco pela cabeça, resolveu organizar um sistema de simulação de presença, para enganar os ladrões, com a ajuda de simples aparelhos automáticos: um candeeiro de pé alto na sala, ligado a um temporizador, que acenderia entre as 20:15 e as 00:40 h, daria a entender que havia rotinas quotidianas em casa, embora a persiana estivesse sempre meio aberta; ligou ainda outro candeeiro de parede, no hall de entrada, a um sensor de movimento, apontado para a frincha que a porta tinha, que acenderia ― testou ― se alguém se aproximasse. E partiu descansado.

Por pouco tempo. Já ia no avião quando se apercebeu que cometera um erro: o candeeiro de pé alto estava até apoiado a um canto, mas tinha uma das suas telas por cima. Se o prego que a segurava cedesse, o quadro talvez batesse no abat-jour, o candeeiro caísse e ficasse aquelas mais de quatro horas com a lâmpada encostada sabe-se lá a quê. Nem queria pensar. Mas, que fazer? O que não tem remédio remediado está. Conformou-se com o que o destino lhe reservaria. E desfrutou a viagem sem angústias.

Mas o destino não o ameaçava apenas a cinco mil quilómetros de distância. Na ponta final das férias, depois de ter visitado talvez um dezena de túmulos e templos por todo o vale do Nilo, já em Abu Simbel, na visita ao templo de Nefertari, desequilibrou-se com um pequeno desnível do chão, caiu, bateu com a cabeça na laje e desmaiou. Disseram-lhe que foi uma questão de 15 segundos; nem foi preciso chamar apoio médico. Salado acordou normalmente e ficou consciente, apenas com um pequeno “galo” no frontal direito. E três dias depois estava de regresso a Lisboa.

Ao chegar a casa, meteu a chave à porta, mas ela não abriu; parecia presa. Teria descaído? Tentou puxá-la para cima, enquanto a empurrava, mas mantinha-se perra. Parecia ter qualquer coisa atrás. Curiosamente, a luz do hall acendeu-se, o que lhe fez acelerar a pulsação. «Está alguém lá dentro», concluiu, em pânico, completamente esquecido das geringonças que montara.

Pediu apoio ao vizinho da frente e, quando a empurraram com força, a porta arrastou alguma coisa e abriu-se. Então depararam com os tacos de madeira do chão levantados em grande parte do hall. Tinham sido eles que travavam a porta. Que estranho! Não havia torneiras abertas, nem fugas de água visíveis. Uma misteriosa poalha branca e arenosa por baixo dos tacos fê-lo acionar a hipótese de maldição de Nefertari. O ténue cheiro perfumado que exalava, a evocar os bálsamos das princesas egípcias, fortalecia-lhe essa suspeita.

Nessa noite já achou estranhas as notícias. Aliás, tinha-se até esquecido dos grandes conflitos em curso.

Os europeus afirmavam que a única maneira admissível de conseguir a paz na Ucrânia era derrotar a Rússia. Não diziam qual o número aceitável de ucranianos a sacrificar.

No outro dia, uma das inúmeras comentadoras, que agora enchiam o ecrã de éticas alinhadas, com os escombros de Gaza em fundo, afirmava que Israel tem o direito de se defender. «Mas ninguém lhe explicou quem é que começou; que foram os israelitas que, em 1948, expulsaram 700.000 palestinianos das suas terras, das suas casas?», espantou-se Salado.

Agora, diziam que os países europeus tencionavam comprar armas e munições aos Estados Unidos para oferecerem à Ucrânia e esta despejar sobre a Rússia. «Curiosa combinação! Uns ficam com a despesa; outros com os mortos; e outros com os cofres cheios...»

«Alguma coisa se passa com a televisão» ― pensou.

No dia seguinte, mais um perplexidade: os mesmos países ocidentais que condenavam a invasão russa, agora alinhavam com o invasor Israel a afirmar a necessidade de desmantelar o Hamas. «E vão negociar com quem?»

Mais um dia e a notícia era que alguns países europeus declaravam a inevitabilidade de desmantelar o estado social ― as reformas, as pensões, os apoios sociais, o subsídio de desemprego e outros ―, para conseguirem criar uma estrutura militar que pudesse combater a Rússia.

Salado começou a desconfiar da sua sanidade mental. Aquela pancada com a cabeça no chão do templo de Nefertari talvez tivesse feito estragos não visíveis, mas que estivessem a comprometer o seu discernimento.

O vizinho viu a notícia na televisão de que vão acabar com as pensões para gastar em mísseis? ― perguntou ele a um, que encontrou na escada.

Capazes disso são eles... ― deu ele de ombros. ― Estão mortinhos para começarem todos à batatada. Eles é que mandam nisto...

Dois dias depois, um comentador televisivo declarava que colegas e camaradas na NATO lhe tinham assegurado que esta força está e estará preparada para defender todos os centímetros quadrados do território euro-atlântico e derrotar a Rússia em qualquer teatro de operações, seja guerra convencional, seja guerra nuclear. «A guerra nuclear pode ter e terá vencedores» ― asseverava.

«Aqui há gato» ― desconfiou. «Está tudo doido, ou sou só eu?»

Mais um dia e outro militante dizia que, em 61, Cuba não podia colocar ogivas nucleares na sua ilha, mas que agora é diferente. «A Ucrânia tem todo o direito a fazê-lo.»

No dia seguinte, diziam que o Trump queria comprar Gaza aos palestinianos para fazer lá um formidável empreendimento turístico. A maluqueira do Trump era grande, mas esta notícia?

Salado deixou de contar os dias. Num deles saltou de pasmo: uma fila de comentadores, muito alinhadinhos, estavam a receber condecorações de excelência. Chamavam-nos pelo nome, antecedido do posto, eles avançavam até a um rabino, que lhes aplicava uma quipá, e a seguir, um oficial americano passava-lhes uma faixa da NATO pela cabeça, faziam continência e voltavam ao lugar, muito compenetrados.

Mentira, isto não pode ser! ― indignou-se Salado. ― Se isto fosse verdade, não mostravam.

O vizinho viu ontem os comentadores a receber condecorações da NATO e de Israel? ― perguntou ele ao vizinho.

Capazes disso são eles... ― aventou o inquirido, em tom conspirativo. ― Se calhar, é porque as mereceram…

Capazes disso são eles… ― respondeu Salado, para terminar a conversa, mas já estava a ver que não seria o vizinho a tirar-lhe dúvidas sobre o que se estava a passar.

À tarde, a Prémio Nobel da Paz apelava a Trump para a ajudar a vencer a guerra contra Maduro, na Venezuela. Era demasiado inconcebível. O problema não devia ser da televisão. Alguma coisa de terrível se passava, mas devia ser com o seu cérebro: estava a alterar a realidade. Resolveu recorrer às urgências.

Ao chegar ao hospital confirmou os seus piores receios: a urgência estava fechada. Uma urgência fechada? Era o mundo em si que chegava alterado ao seu intelecto. Sentimentos de fragilidade física e finitude invadiram-no. A quem pedir ajuda, quando o nosso cérebro soçobra?

Resolveu perder o amor a mais de 100 euros e consultar um psiquiatra privado.

Ó homem, por onde é que você tem andado? ― reagiu o médico, quando Salado lhe contou de que se queixava. ― O clima de confrontação está ao rubro e essas singularidades de política externa estão mesmo a acontecer. E, naturalmente, vão sendo comentadas pelas televisões. Mas, tem de lhes dar um desconto. Eles não conseguem evitar “puxar a brasa à sua sardinha”. Aparentemente muito lógicos, patriotas e bem-intencionados, mas a amplificar as teses militaristas e armamentistas. Mas essa das condecorações da NATO é ilusão pura, garanto-lhe. Eu posso receitar-lhe uns antidepressivos e uns hipnóticos…

Salado começou a tomar os medicamentos, e parecia melhorar. Um vazamento da máquina de lavar roupa no andar de cima fê-lo concluir que teria sido isso que acontecera, tendo a água perfumada deslizado sobre a laje até ao hall de entrada. Finalmente, as coisas pareciam fazer sentido.

Mas, um dia, acordou com uma enorme dor de cabeça. Conseguiu ligar para a Saúde 24, pouco depois veio uma ambulância e levou-o para um hospital a funcionar. Tinha um aneurisma cerebral, provavelmente devido a traumatismo craniano. Foi operado de urgência e salvou-se à justa. Deram-lhe alta duas semanas depois, mas, atendendo ao histórico, aconselharam-no a evitar notícias. Quando, um dia, num café, foi apanhado por um televisor ligado e soube que o presidente americano raptara o presidente da Venezuela, queria anexar a Gronelândia e ameaçava obliterar a civilização persa, achou que estava a ter uma recaída.

Joaquim Bispo

*

Imagem: Pieter Brueghel, o Velho, A Parábola dos Cegos, 1568.

Museu de Capodimonte, Nápoles.

* * *


10/03/2026

MAD Talks

 



Na Associação Cultural e Recreativa Esmorecense é noite de espetáculo. O convite tinha sido afixado nas montras dos estabelecimentos comerciais e fora também enviado por e-mail para os sócios que tinham caixa de correio eletrónico. O texto pretendia ser apelativo:

«Nas comemorações do 20º aniversário da nossa Associação, vamos inaugurar uma série de palestras proferidas pelo nosso sócio, Sr. Manuel Alves Dutra, a que, para honrar o orador, chamaremos M.A.D. Talks, à semelhança do que se faz lá fora. A imperdível palestra desta noite tem o sugestivo título de A estranha cura dos corações empedernidos.»

Pelas 21 e 15, já a plateia do pequeno auditório estava composta. Notava-se algum nervosismo entre os sócios. Cinco minutos depois das 21 e 30, entrou em palco o presidente da agremiação. O silêncio foi quase instantâneo. Aurélio Miranda deu dois toques no microfone, para confirmar que estava ligado, e anunciou:

Muito boa noite! Obrigado por terem vindo. É uma honra receber-vos e é muito gratificante verificar que os nossos sócios e restantes conterrâneos corresponderam ao nosso convite. Como foi anunciado, o Sr. Manuel Dutra, reconhecido autodidata da nossa terra, vai dar uma pequena palestra sobre um assunto candente da atualidade, a que se seguirá um pequeno período de perguntas. Mas não vos canso com detalhes. É ele que vocês querem ouvir; é a ele que vou já passar a palavra. O vosso aplauso para Manuel Alves Dutra!

O visado subiu as estreitas escadas laterais do palco, sob uma revoada de palmas, fez um ligeiro aceno de agradecimento e, decidido, postou-se frente ao microfone de pé. As palmas terminaram de imediato e fez-se um silêncio atento.

Caros amigos: — começou o orador, lançando um olhar por sobre a plateia — todos os presentes me conhecem e sabem bem do meu gosto pelo saber e da curiosidade que tenho por tudo o que não entendo. “I have a dream”, como disse o poeta. Entre esses fenómenos, atingiu-me nos últimos meses a extraordinária adesão de toda a gente à condenação da recente invasão da Ucrânia e da não menos surpreendente compaixão ativa por todos os que fogem dessa guerra abjeta. Já não vou para novo e posso dizer, sem risco de mentir, que nunca tal tinha visto. Nas televisões, rádios, jornais, redes sociais era, foi, é permanente a raiva por este ataque bárbaro da Rússia contra a Ucrânia, sem razão, sem desculpa. As pessoas mostram-se verdadeiramente indignadas com a situação. Horrorizam-se com as imagens de prédios esventrados, de mortos espalhados pelas ruas, de multidões a tentar fugir daquele pesadelo. Não estávamos preparados para tanta ferocidade.

Manuel Dutra fez uma pequena pausa para respirar. O auditório mantinha-se atento, embora nada do que estava a ser dito fosse novidade.

Ora esta veemência contra uma guerra nunca se tinha visto. Só para falar na guerra contra o Iraque, em que igualmente não havia nenhuma justificação para um ataque, também foi uma guerra injusta, feroz, canalha. As forças americanas entraram por ali adentro a disparar sobre tudo e todos, a causar mortos sem conta, a destruir infraestruturas, alvos militares e colaterais e a fazer vítimas civis sem pejo. Mas, se bem me lembro, delirávamos com os bombardeamentos, admirávamos a pontaria cirúrgica e a capacidade destrutiva dos mísseis, sentíamos algum conforto pelas vitórias do invasor, achávamos muito bem destruir tudo, até que Saddam Hussein e o seu exército fossem derrotados e derrubados.

A plateia agora manifestava algum agitar de cabeças, alguns reajustes de posição nas cadeiras.

Agora, reparem na atenção que damos aos refugiados ucranianos, à pena que sentimos por eles e à vontade de ajudar que manifestamos, até enviando ajuda através das organizações que a fazem. Tem sido maravilhoso, enche-nos de orgulho e limpa-nos a alma. Afinal, somos gente com G grande, somos capazes de solidariedade, a Humanidade pode rever-se em nós. Mas, como foi com os refugiados do Iraque? Alguma vez se organizaram pontes aéreas para ir buscar alguns? Alguma vez pensámos receber um casal em nossa casa? Reparem na diferença. É certo que, uma vez por outra, ainda nos afligimos com as centenas dos que se metiam de qualquer maneira pelo Mediterrâneo adentro e lá naufragavam e se afogavam. Foi o máximo que atingimos. Mas nunca conseguimos ultrapassar uma certa desconfiança, como que um conflito interno de amor-repúdio.

Manuel Dutra avaliou a assistência. Aqui e ali percebia-se que alguns dos presentes não concordavam completamente com o que estava a ser dito.

Pois foi esta aparente incoerência que me atingiu com toda a sua estranheza. O que é que mudou? São assim tão díspares os cenários de guerra que nos levam agora a agir de uma forma muito mais humanitária? Os massacres de Fallujah eram menos terríveis que os de Mariupol? Serão estes mortos e estes fugitivos mais dignos de compaixão? Ou terá sido a lenta corrosão do tempo que nos mudou? Passaram dezanove anos. Será que houve uma alteração qualitativa da Humanidade de hoje, que se tornou mais sensível e dorida com os males que vê o próximo sofrer? Amigos…

Chegara o momento de Manuel Dutra revelar o que descobrira, ou pensava que descobrira. Não era preciso estar muito atento à fisionomia do palestrante para perceber um disfarçado sorriso no seu rosto um pouco macilento.

Amigos — repetiu — o que se alterou não foi fruto de um desenvolvimento das características altruístas da Humanidade, da evolução no sentido darwinista, nem foram as características deste conflito que determinaram esta onda de compaixão e revolta. Eu acho que encontrei a explicação para este paradoxo. Pensei, examinei, vi gráficos, li análises e cheguei à conclusão que, lógica e humanamente, não há nenhuma diferença entre estes dois conflitos armados que justifique tão grande mudança da nossa interação com eles. Então, o que a motivou? Aqui surgiu-me, óbvia e luminosa, a explicação. O que é que tivemos antes desta guerra, que não tivemos no início do século?

Manuel Dutra fez uma longa pausa, saboreando a tensão palpável da curiosidade da plateia e observando o mar de olhos pousados em si.

Uma pandemia global, intensa e duradoura — revelou, por fim, lenta e solenemente. — Um dia viremos a conhecer toda a extensão e a profundidade desta virose que mexeu com toda a nossa genética. Então, confirmaremos que ela nos tornou mais sensíveis, acentuando os sentimentos de empatia e compaixão pelos sofredores, ao mesmo tempo que fortalece os sentimentos de indignação e ódio pelos que infligem sofrimentos. É isto, é! — reafirmava Dutra, acentuando a certeza com acenos da cabeça, tentando matar à nascença alguma descrença que pudesse nascer. —Esta teoria, que parece inverosímil e deslocada, é afinal luminosa, lógica e quase evidente. E tem a suprema virtude de explicar esta contradição. Por isto me orgulho dela e a trouxe ao vosso julgamento. Agora, fico à vossa disposição para as perguntas que entenderem fazer.

Logo dois braços se levantaram. Dutra apontou para um rapaz com uma barbita rala, que lhe pareceu ser quem tinha levantado o braço primeiro.

Sr. Dutra, tenho dificuldade em concordar consigo. Parece-me que existem diferenças importantes entre os dois conflitos que referiu e que podem justificar esta diferença de atitude geral que apontou. A começar por quem promoveu cada um dos conflitos. A invasão do Iraque foi executada pelo bloco militar de que o nosso país faz parte, o que determinou que a nossa comunicação social apoiasse a narrativa do invasor. Hoje, a mesma comunicação social condena as razões do invasor, que é adverso do bloco a que pertencemos, e, desta vez, mostra e dramatiza os horrores que acontecem no território invadido. Isto faz toda a diferença, não acha?

Dutra fez um trejeito de desconforto, e avançou para o microfone.

O que o meu amigo diz é verdade em parte, mas, para que fosse relevante, teríamos de admitir duas condições irrealistas e até ofensivas. Primeira: que os jornalistas se guiam pelo seu arbítrio pessoal, em vez de pelo seu código deontológico, ou pior, que são uma espécie de agentes do bloco político-militar ocidental. Segunda: que as pessoas seguem submissamente tudo o que a comunicação social difunde. Que amam ou odeiam o que ela determina. E que acham que o que ela não mostra não existe. Não quero acreditar nisso. Acredito que, no geral, a comunicação social mantém uma equidistância informativa entre as partes, em vez de uma adesão militante a um dos blocos, como dizem alguns. E acho que as pessoas são críticas do que veem, e sabem muito bem distinguir as situações. Só que hoje, devido ao vírus da COVID-19, os nossos mecanismos de empatia estão mais sensíveis.

Ouviu-se um risinho no fundo da sala e o rapaz que tinha feito a pergunta abanava a cabeça, nada convencido, mas Dutra já apontava para outra pessoa do público, uma rapariga com um único brinco do lado direito.

O Sr. Dutra disse, e bem, que estamos muito sensíveis aos dramas dos refugiados ucranianos, mas já pensou que pode tratar-se de uma mera consequência do nosso racismo tendencialmente endémico? Há dias ouvi alguém notar que estes refugiados são lourinhos e lavadinhos e os outros eram “farruscos”. Não acha que o racismo pode ter tido aqui um papel?

De maneira nenhuma! — declarou Dutra com veemência. — Isso seria de uma sordidez sem nome. Então nós estaremos a condoer-nos com uns, porque aspiramos ao seu branquismo, e borrifámo-nos para outros, como que a exorcizar o nosso grau de “farrusquice”? Não acredito nisso! Se não fosse a pandemia, também nos borrifávamos para os ucranianos. É a minha tese.

No meio do zunzum que flutuava na plateia, levantou-se o braço de uma mulher, com um colar de pérolas de fantasia.

Sr. Dutra, no Iraque havia um ditador que mantinha o povo submetido pelo terror; na Ucrânia existe um regime democrático, com um presidente eleito, atacado por um outro ditador. Parece-me que será mais por aqui…

Os refugiados são todos iguais — começou o palestrante, em tom paciente. — São desgraçados a fugir da guerra e da fome; da perseguição e da morte. Tanto no Iraque como na Ucrânia, fugiam e fogem da devastação causada por uma superpotência. Recuso-me a acreditar que as pessoas tratem os povos conforme os regimes que têm - sejam democracias ou regimes desaprovados pelas superpotências - e que deixem de ter compaixão pelas pessoas que nasceram em países cujo modelo político não aprovam.

O burburinho acentuava-se. Antes que o orador entrasse em pormenorizações, o presidente da coletividade resolveu dar por concluída a sessão e entrou em palco. De rosto sorridente, deu um abraço ao orador e dirigiu-se ao microfone.

E pronto, caros associados e público em geral; encerramos assim a nossa primeira palestra de 2022. Espero que tenham gostado. Quero agradecer ao Sr. Manuel Alves Dutra a sua brilhante comunicação e cá estaremos de hoje a um mês para mais uma MAD Talks. Até lá!

O salão da associação encheu-se com as palmas de quase todos os presentes, alguns estavam até a decidir não deixar passar a próxima palestra, mas outros pareciam muito desapontados e não tencionavam voltar. Manuel Dutra mostrava-se satisfeito e já antevia o êxito da palestra do mês seguinte de título “As tocantes declarações de amor das superpotências pelas populações dos países hostis“.

Joaquim Bispo

*

Este conto foi selecionado para a 56ª edição (março/abril de 2026) da Revista LiteraLivre, em formato e-book (páginas 66 a 68):

https://drive.google.com/file/d/13aCqpBlbdC19wZcNDV8fVnwM731FH1xH/view

*

Imagem:

Ragnhild Kaarbø, Composição com uma cabeça, c. 1925.

Museu Nacional, Oslo.

* * *

10/02/2026

Os três tecelões-de-cabeça-preta

 


Entre duas laranjeiras do quintal, à roda do idoso de longas pernas ossudas, a criançada agitada e saltitante, aos poucos, sossega, para escutar a história que ele vai contar.

«Era uma vez três passarinhos tecelões — uns que têm a cabeça preta, mas o corpo todo amarelo — que ainda viviam no ninho dos pais. Já voavam e já se alimentavam sozinhos, mas ainda vinham todos os dias dormir ao ninho. Ao fim de uns meses, o tempo começou a ficar mais frio e a comida foi ficando mais difícil de encontrar, de maneira que os pais dos pequenos tecelões aconselharam-nos a migrar. Abraçaram-nos, com tristeza, e recomendaram-lhes que, lá na terra para onde fossem, cada um construísse uma casa muito bem feita, que fosse confortável e resistisse ao mau tempo e aos inimigos que quisessem comê-los.

Os passarinhos voaram, voaram e, quando chegaram ao distante país para onde tinham migrado, primeiro alimentaram-se e descansaram um pouco, mas depois deram muitas voltas a voar, para ficarem a saber onde havia mais comida e de que materiais de construção dispunham. Antes de começarem a construir, cada um disse como ia fazer:

Vou fazer a minha casa com hastes de palha entrelaçadas na ponta de um ramo fino — declarou Crispim, o mais jovem.»

A miudagem soltou uma gargalhada. Como parecia tonto o Crispim!

«— Vou construir a minha casa com galhos sobre os ramos grossos de uma árvore — declarou Bézé, o irmão do meio.»

Nova risada se fez ouvir. Parecia que a história não era estranha à pequenada.

«— Vou construir a minha casa no buraco de um muro de pedra, largo e forte — declarou Antão, o mais velho.»

Um rumor de satisfação atravessou a assistência. Antão, sim, sabia como construir uma casa para resistir aos sopros de um lobo que quisesse comê-los, como na história dos três porquinhos!

«Assim disseram, assim fizeram. Antão não precisou de trabalhar muito; limitou-se a procurar uma cavidade de bom tamanho num muro grosso, deu-lhe uma limpeza e estava pronta. Do seu buraco soltou um chilreio de satisfação.»

«Bézé também se limitou a procurar uma árvore forte, com um espaço aconchegado na ligação de dois ramos, trouxe uma boa quantidade de pauzinhos e galhos para atapetar o chão e deitou-se a assobiar, desfrutando o espaço.»

A pequenada parecia estar a preparar-se para desfrutar do insucesso deste construtor de uma casa de madeira.

«Crispim demorou muito tempo a acabar a sua casa. Fez inúmeras viagens ao chão para apanhar palhas e ervas que entrelaçou na ponta de um galho, de maneira a formar uma espécie de bola de feno, com uma única entrada. Por fim, assobiou a anunciar a conclusão da obra. Os irmãos vieram ter com ele, mas não ficaram muito contentes com a casa do irmão:

Isto é muito frágil, Crispim! Se vem uma rajada de vento desfaz-te a casa e leva-a pelos ares.

Foram ver a casa de Bézé.

Tem uma bela vista, tem uma base sólida, mas não tem telhado. Pede às nuvens de chuva que não passem por aqui! — brincaram.

A última casa era a de Antão.

A-ah! Nesta casa não chove, nem há vento que a leve — aplaudiam os irmãos. — Muito bem!

Apesar das imperfeições, cada um já dormiu em sua casa, nessa noite. Mas, de madrugada, Antão, no seu ninho de pedra, ouviu uns ruídos arrastados. Cheio de medo, foi espreitar à abertura. Quase gelou de terror: uma cobra castanha, com duas riscas pretas a todo o comprimento, trepava pacientemente pelas pedras, dirigindo-se para a toca do nosso amiguinho Antão. Fugiu dali a sete asas para casa de Bézé.

Bézé, dá-me guarida, porque uma cobra atacou a minha casa — pediu ele ao irmão.»

O que é guarida, senhor avô? — perguntou um dos pequenos ouvintes.

É abrigo, proteção; um local onde seja possível viver sem perigo — esclareceu ele.

A cobra não podia atacar a casa do Bézé? — perguntou outro.

Não sabemos, mas, a árvore era muito grossa e de tronco liso, e talvez a cobra não conseguisse subir.

«De manhã, já esquecidos do susto da noite anterior, puseram-se a brincar naquela casa tão arejada e confortável. A brincadeira atraiu um falcão que passava por ali e desceu velozmente sobre os manos, para os apanhar. Novamente em fuga, só se lembraram de se esconder na casinha de palha de Crispim.

Mano, socorre-nos, porque a casa de pedra de Antão foi atacada por uma cobra das pedras e a minha foi atacada por um falcão — pediu Bézé.

Mas vocês não a acham muito frágil? — disse Crispim com uma ponta de ironia.»

O que é uma ponta de ironia? — quis saber um dos jovens ouvintes.

É uma espécie de troça — tentou explicar o velho.

«Os irmãos, depois dos sustos que tinham apanhado, acharam que a casa do irmão até tinha coisas boas, que ainda não tinham pensado:

À tua casa não chegam cobras, porque o ramo onde ela está presa é muito fino e elas cairiam, se cá viessem — calculou Antão.

E o ramo não aguentaria o peso dos falcões, se eles cá pousassem, nem conseguiriam entrar na casa — raciocinou Bézé.

Crispim mandou entrar os manos e eles ficaram admirados e encantados com a casa, toda acolchoada com lã. Nessa tarde veio uma grande tempestade, mas a chuva não entrava na casinha de palha muito bem entrançada, e o vento fazia-a abanar e rodopiar, mas ela mantinha-se bem presa ao raminho e aguentou a tempestade.

Nunca pensámos que a tua casa fosse a mais bem construída das três. Pusemos-lhe defeitos, mas é a melhor das que construímos. Desculpa o que dissemos! — disse Antão. — Vou construir uma como a tua.

Eu também vou construir uma igual — disse Bézé. — É mesmo confortável.

Na primavera seguinte, foram visitar os pais e contaram as aventuras de como tinham descoberto a casa que era melhor para eles.

Muito bem, filhos! Pode não se acertar à primeira, mas vocês tentaram e conseguiram inventar uma casa que vos protege dos perigos do lugar, só com materiais da zona. E confortável, o que é fundamental. Parabéns!

Depois destas palavras, os jovens tecelões e os pais cantaram e dançaram felizes. E a partir de então, todos os tecelões-de-cabeça-preta daquela terra distante passaram a construir as casas como a do Crispim.»

E pronto, acabou a história — concluiu o ancião. — Agora, vamos subir, que são horas de almoço.

Não é assim! A história não é assim; é com três porquinhos; e a melhor casa é a de pedra — contestou uma das crianças. — E falta o lobo — lembrou outra.

Esta história não é a dos três porquinhos — explicou, cheio de paciência, o velho, na função de educador de infância da família —; é a dos três tecelões-de-cabeça-preta. Cada animal tem a sua história, e uma casa de pedra pode ser boa para um porquinho, mas não ser para um passarinho tecelão. E uma casa de galhos pode ser boa para uma cegonha, porque as cegonhas são grandes e não são atacadas pelos pequenos falcões. O Crispim teve sucesso porque puxou pela cabeça e percebeu que uma casinha leve pendurada num raminho era a mais adequada para evitar predadores e aguentar tempestades. Vá, todos para casa! Hoje há mosca.

Yeh! — gritaram os pequenos aranhiços, subindo rapidamente para a teia principal, mas dois não pareciam satisfeitos e ficaram para trás:

O que é adequada?

E predadores?

Joaquim Bispo


*

Imagem de IA.

* * *

10/01/2026

Vitória inútil (A outra – 2ª parte)

 


Resumo da primeira parte: https://vislumbresdamusa.blogspot.com/2025/11/a-outra.html

Nely, aspirante a escritora e jovem amante de Galhardo, um mecenas artístico, certo dia, roída de ciúmes da mulher dele, manda matá-la, através dos bons ofícios de Albano, um ex-namorado.

*

Tenho tantas saudades, querido! Vem ver-me, vem! Sim? — convidou Nely, inquieta, numa dessas manhãs um pouco enevoadas, habituais na zona.

É talvez a quarta chamada de Nely para o amante, desde que a mulher dele foi morta. Deu-lhe os pêsames, sentidamente, logo que a comunicação social noticiou o caso, incitando-o a arranjar forças para ultrapassar tão dura provação. Depois, deixou passar quinze dias sem dizer nada. Quando ligou novamente, Galhardo desculpou-se, mas mandou entregar-lhe o cheque habitual.

Desta vez, Galhardo acedeu ao convite. Nely foi particularmente carinhosa e, no fim de uma sessão de amor bastante ardente, quis falar do futuro.

Querido, preocupo-me contigo. Deves estar tão sozinho! Tu não podes viver assim! Tens de ter uma mulher para te acarinhar, para te dar as boas-noites, para dormir agarradinha a ti, para te beijar quando acordas. E para fazer amor contigo quando quiseres. Sabes que eu sou afetuosa contigo, porque gosto muito de ti. Não quero pressionar-te, mas custa-me que estejas sozinho, tendo-me a mim, disposta a viver junto de ti.

Nely, eu também gosto de ti, mas ainda é muito cedo. Está tudo muito fresco.

Eu sei! Posso esperar mais um pouco, mas já estou à espera há tanto tempo. Quanto mais tenho de esperar?

Não sei Nely. O que sei agora é que estava muito habituado a ela. Não é fácil, de repente, mudar os hábitos todos. E creio que a minha filha não ia aceitar muito bem.

Mas algum dia vai ter de ser!

Não necessariamente. Posso continuar nesta situação por tempo indeterminado. Para dizer a verdade, não sei se quero voltar a casar tão cedo.

Não? Mas tu precisas de uma mulher, sei-o bem! Não sentes que te faz falta uma mulher meiga e compreensiva? Que melhor companheira podes arranjar que eu?

Sabes, eu era feliz antes de matarem a Matilde. E também posso dizer que sou feliz agora. Quando tenho saudades tuas, venho ter contigo; quando tens saudades minhas, ligas-me. O que há melhor que isto?

Não me sinto bem. É como se me estivesses a usar. Enquanto tinhas a tua mulher, eu entendia. Mas agora…

Por mim, não é preciso mudar o que seja. Tu tens a tua casa, eu tenho a minha. Continuo a vir cá de vez em quando, continuo a deixar o cheque.

Isso é outra coisa que me incomoda. Eu sei que é um mecenato para eu poder escrever, mas parece outra coisa. Como se me estivesses a pagar para dormir contigo. Sabes o que quero dizer.

Nada disso! Se fosse para te pagar favores sexuais, teria de gastar muito mais do que te deixo. O que te dou não é para te pagar nada; é para te ajudar a ser escritora.

Acho que estás é a ajudar-me a ser puta. E das baratas. Eu não quero ser puta, quero viver da Literatura, de cabeça erguida.

Mas não está fácil, não é? Poucos são os escritores que o conseguem.

Não, não está fácil. Mas, se queres ajudar-me a ser escritora, realmente, não me dês dinheiro; leva-me para ao pé de ti. Faz-me tua mulher!

Também não é simples para mim. Sabes, a morte da minha mulher fez-me pensar. Antes, sentia-me como que preso. Tinha prazer não só por estar contigo, mas também por estar a ser infiel. Era uma espécie de atitude reflexa à prisão do casamento. Analisando-me a fundo, acho que vinha ter contigo também pelo prazer da transgressão. A relação contigo existia, digamos assim, em função dela. Agora, que aquela grilheta desapareceu, em vez de me sentir mais livre, tenho sentido menos urgência de te procurar. Achas que consegues entender como funciona a cabeça de um homem?

Nely começou por um esgar da face, antes de começar a soluçar convulsivamente. Arrastadamente, articulou:

Tu não gostas de mim!

Gosto! — afirmava Galhardo, sem ênfase.

Como é possível tratares-me assim, depois de tudo o que tenho aturado? Achas que gosto de fazer broches, a seco? Eu sei lá por onde andaste com ele!

Não sejas ordinária!

Porquê? As tuas gajas são todas muito finas? Só aqui a puta é que te faz as badalhoquices que te apetecem, é?

Olha, eu não gosto nada de cenas destas. Recompõe-te, se fazes favor.

Senão, o quê?

Senão vou-me embora. Não há razão para estares com essas coisas. Alguma vez te prometi que casava contigo? Alguma vez te obriguei a fazer alguma coisa que não quisesses?

Vai-te embora, vai! Abandona-me aqui sozinha! Deita-me fora como um trapo velho. Vai; mostra o canalha que és!

Vou, vou. Vou mesmo, Nely! Assim, não! Não apareço por cá tão cedo, está bem? Mas não te preocupes, que eu faço-te chegar o cheque. Adeus!

Vai p’ó raio que te parta, mais o cheque! Desaparece da minha vista! Desaparece! — gritava Nely, transtornada.

Galhardo saiu da casa de Nely, meio constrangido pela cena que ela fizera, meio aliviado por estar a libertar-se desta ligação. A relação já ia longa e de vez em quando sentia que não passava de “mais do mesmo”. Iria estar atento a que Nely não passasse dificuldades económicas, pelo menos durante um ano, mas precisava de leveza, de jovialidade e não de situações penosas e recriminações.


No dia seguinte, Nely, de cara fechada, ligava para Albano, de um telefone público, alterando a expressão assim que ele atendeu:

Olá! Vais bem? Sim, tudo bem! Queria falar contigo, sabes porquê? Por causa de uma dívida, estás a ver? Estás? Maroto, sabes como levar a tua avante! Já sei como pagar, mas não queria que entendesses como o simples pagamento de uma dívida, antes como um agradecimento sentido e desejado. Sabes, tenho pensado muito naqueles tempos. Acho que fui uma estúpida em não esperar mais uns minutos. Era muito nova. Se fosse agora, e depois de ver como estás bonito, tinha esperado pelo menos uma hora. Não te rias, que é verdade! Sim, podes vir quando quiseres; avisa-me só, que é para me pôr airosa. Vá, um beijo!

Joaquim Bispo

*

Este conto integra a coletânea Tempo de Vilões — resultante de concurso literário —, disponível na Amazon, em formato eBook Kindle. https://www.amazon.com.br/gp/product/B0BB52VNKX?fbclid=IwAR1GOZxMaC6Ka3Ae6NUGvQej0wTpM_UQ6ZN7bn8bpvBykJkP0XeUIn7nJr8

*

Imagem:

Jean-Auguste Dominique Ingres, Júpiter e Tétis, 1811.

Museu Granet, Aix-en-Provence, França.

* * *