Na sua câmara no gineceu do
palácio, Penélope medita sobre a sua impotência perante as
insistências desprezíveis dos pretendentes. Lá em baixo, na sala
grande, banqueteiam-se com as olorosas carnes das rezes dos seus
domínios, estrondeando júbilos alarves, sem respeito pela casa que
os acolhe, nem pela sua anfitriã. A repulsa física que sente por
aqueles brutos não é menor do que a ira pelo saque que impõem ao
seu património. Tivesse ela uma espada e outro seria o festim e
outras as carnes sacrificadas, mas Penélope não dispõe de mais do
que de uma bainha.
Ulisses partiu há muitos anos,
elevando em glória a sua espada fulgurante. À frente dos seus
guerreiros, a espada de Ulisses prometia a vitória junto aos muros
de Troia. Ele e os seus companheiros iriam enterrar as espadas de
Marte em muitos corpos de opositores valorosos. Para trás ficaram as
esposas, as mães, com a ambígua defesa das suas bainhas de Vénus.
Como enfrentar o mundo com uma bainha?
Dez anos durou a guerra de Troia.
Foram batalhas constantes ou só um tedioso cerco, como sussurrava o
rumor? Em que atividades teriam os combatentes gastado esses dez
anos? Conhecendo os homens e os seus valores, Penélope acredita que
passaram os intermináveis dias de assédio a exibir e a comparar as
suas espadas. E a afagá-las para lhes realçar o brilho. Muita
vaidade têm os homens nas suas espadas. Na sua rigidez confiam, do
seu brilho se orgulham, nelas se reveem, como símbolo excelso do
esplendor da sua virilidade.
Passados esses dez anos, saqueada
Troia, todos os combatentes regressaram aos seus lares, para maior ou
menor fortuna, mas Ulisses não. Andará a saquear cidades, a
depredar campos inimigos, a arrebatar manadas de gordos vitelos? Ou,
objeto da ira dos deuses, terá sido desviado da sua rota para praias
distantes, rochedos destruidores? Como poderá Penélope saber? Um
viajante naufragado nas costas de Ítaca diz-lhe que viu Ulisses em
Creta, recebido com louvores de herói; outro, que ouviu falar em
desditas marítimas do navegador Ulisses.
Penélope espera. Que pode uma
esposa amante do seu esposo fazer senão esperar? Sente saudades.
Sente solidão. Aninhada no leito que partilhou com Ulisses,
compadece-se da sua bainha, também ela ali abandonada, triste e
chorosa, como criança perdida e faminta. Em desvelos maternais,
enche-a de carinhos para que consiga adormecer.
Passaram já dezassete anos e
Ulisses mantém-se ausente. O pai de Penélope insiste que é tempo
demais para esperar; que ela deve voltar a casar. O mundo conspira
contra as mulheres. Todos sentenciam que tem de haver uma espada
naquela casa. O filho de Ulisses arvora naturalmente uma espada, mas
tem apenas dezassete anos. É demasiado novo para defender um
património como o de seu pai.
Penélope é ainda bastante jovem
e bela e suscita claramente o interesse de muitos pretendentes da
ilha e de fora dela, todos nobres e valorosos, como exige a nobreza
da excelente requestada. Parece, no entanto, a Penélope que é maior
o interesse dos pretendentes na riqueza imensa que o património de
Ulisses representa. A todos vai negando o seu leito e os seus
domínios, mas eles não arredam pé. Apoiados na sentença espatária
do pai de Penélope, vão ficando, vão-se instalando, comendo e
bebendo à conta dos bens de Ulisses, até que ela escolha um deles.
São muitos, fazem questão de
exibir a evidência das suas espadas, não se pode combatê-los senão
com astúcia. Penélope é a esposa de um homem conhecido como
“Ulisses dos mil ardis”. Também ela medita em estratagemas para
ganhar tempo.
Uma ajuda a Penélope é decidida
pelos deuses, a pedido de Atena e por ela personificada. Casta como
é, admira e quer recompensar a fidelidade conjugal de Penélope. Uma
ideia é inspirada à mortal.
Declara que escolherá um
pretendente depois de completar a mortalha fúnebre para o pai de
Ulisses, que está entrado em anos. Pode ser que entretanto Ulisses
chegue. Mas os meses passam e Ulisses não regressa. Penélope desfaz
de noite a urdidura tecida durante o dia.
Penélope já não sabe que mais
temer: a morte funesta do esposo em batalhas remotas ou a sedução
de feiticeiras, ninfas e deusas invejosas. Em quem andará Ulisses a
cravar a espada: em corpos de inimigos cruéis e desprezíveis ou em
carnes mais delicadas e propícias? As costas dos mares irrequietos
estão cheias de tentações e perigos.
Tecer, urdir uma teia, lidar com
miríades de fios, juntar uns, separar outros, ajuda Penélope a
meditar, a ter uma visão alargada da complexidade dos desafios que
enfrenta. Apura-lhe a intuição, desvenda-lhe outros padrões,
outras tecituras. Avalia possibilidades onde antes só encontrava
entraves. Atena não a abandona.
Conferencia com o filho e com
Mentor, o fiel amigo que Ulisses deixou a tomar conta dos seus
domínios. Envia-os a pedir ajuda aos bravos heróis e companheiros
de Ulisses em Troia, que há muito regressaram, mas também eles só
vislumbram a solução matrimonial com um pretendente. A lógica da
espada prevalece.
Seu pai e seus irmãos pressionam
Penélope para que aceite Eurímaco, o pretendente que mais ricas
prendas tem oferecido. Também a ela este parece o menos mau dos que
a cortejam. Nunca Antínoo, o rude e agressivo líder da turba
arrogante dos pretendentes. Disfarçadamente, vai avaliando os modos
corteses de Eurímaco, o seu porte nobre, a elegância do seu gládio,
bem mais admirável que as desprezíveis adagas ou as traiçoeiras
cimitarras da maioria. Mas custa-lhe a imposição da escolha. Não é
opção para uma rainha. Sobretudo sem a certeza da morte de Ulisses.
Se os pretendentes fossem dois ou
três, facilmente poderia criar algumas intrigas, acicatar ciúmes e
livrar-se de todos, mas com cento e oito…
Terrível dilema. É como se
Hera, protetora das mulheres casadas, sentindo curiosidade pela
extrema fidelidade de Penélope, bloqueasse outras ajudas dos deuses,
propondo-se ver como conseguirá uma mortal desenvencilhar-se do
aperto em que se encontra. Talvez a mortal encontre soluções para
problemas tão complexos como os que por vezes ela própria enfrenta
— as constantes traições de Zeus.
A situação é muito difícil, é
um problema sem solução visível. Só os aedos vislumbraram e
cantaram uma. Supostamente devida a um auxílio a Ulisses decidido
pelos deuses. Homero cantará um regresso tumultuoso e arrasador de
Ulisses. Com o auxílio de Atena, chegará a Ítaca disfarçado de
mendigo, entrará no seu palácio ocupado, com a ajuda do filho e de
um porqueiro, revelar-se-á a alguns servos indefetíveis e obterá o
seu apoio. Arquitetará então um plano terrível que executará
implacavelmente até à morte de todos os pretendentes. Sem perdoar
um. E até de algumas servas que a eles se entregaram, por terem
transformado em bordel a casa da sua senhora.
Que Ulisses implacável é este?
Quão brutal e sanguinário se tornou um homem que, tendo já matado
os principais e mais odiosos pretendentes, prossegue o massacre,
mesmo depois de pedidos de perdão e declarações de pagamento de
todos os depredações executadas na sua casa? E ter matado simples
servas? Como desapareceu a sua lendária sensatez? Em que se
transformou Ulisses? Ninguém o reconhece. A maioria só se deixa
convencer ao lhe ser mostrada uma antiga cicatriz na perna. Será
mesmo Ulisses que regressa? Ou um aventureiro que com ele privou e de
quem foi confidente?
Outros aedos cantarão versões
libidinosas de amores adúlteros de Penélope. Uma chegará ao
extremo de pretender ter ela ido cedendo sucessivamente aos mais de
cem pretendentes. Muito adulterada deverá estar a memória para
admitir que tal seria concebível a uma princesa de Esparta, cidade
por excelência das mulheres virtuosas.
Em nova conferência, Penélope,
o filho e Mentor reveem as várias hipóteses. Dificilmente
conseguirão livrar-se dos pretendentes pelos meios tradicionais.
Eles dispõem da avassaladora vantagem da força, quer imediatamente,
quer em retaliações futuras. Há que usar de criatividade, de
astúcia, da força do espírito. Penélope fala em manobras de
humilhação e do seu possível poder dissuasor. É uma arma
poderosa, mas que pode gerar reações de grande brutalidade
retaliatória.
Mentor sugere alternativas
violentas. Poderia mandar as criadas envenenar-lhes a comida, mas os
pais e outros familiares não entenderiam e viriam cobrar vingança.
Poderia propor jogos de eliminatórias — corridas de carros, tiro
de arco — até ao apuramento de um vencedor. Podiam ser torneios
tão viris e violentos que os pretendentes se fossem eliminando
fisicamente uns aos outros. Mas sempre restaria algum, talvez um que
Penélope não quer ver nem dourado, talvez o odioso Antínoo...
Não; abdicar do poder da escolha
está fora de questão. Bem bastara ter sido ela o prémio na corrida
de carros que Ulisses vencera. Para acentuar que a escolha nupcial
também fora sua, Penélope aceitara seguir Ulisses para Ítaca, em
vez de se manter em Esparta, conforme os rogos do pai. Deixar que o
acaso decida, seria um retrocesso no controlo do processo e isso é
inaceitável.
Há anos que os pretendentes se
fizeram presentes. Mais ou menos convincentes, cada um intenta ser o
príncipe que a encantará. Aos poucos habituou-se à adulação
subjacente. Cada um daqueles jovens almeja elevar em glória a espada
no seu leito. A uma decisão sua, podia dar sentido à sua bainha.
Mas não é da companhia de um jovem que Penépole sente falta.
Ulisses nunca abandona o seu pensamento.
Passaram mais três anos.
Completam-se em breve vinte, desde que Ulisses levantou a sua
poderosa espada na proa da negra nau que rumava a Troia, encabeçando
a flotilha de outras onze. O estratagema de desfazer a urdidura
durante a noite foi desmascarado por uma escrava. Penélope é
pressionada a escolher um pretendente, das muitas dezenas que todos
os dias se fazem comensais nas mesas da sala grande. Que fazer? Adiar
a escolha torna-se cada vez mais difícil. Atena cicia-lhe soluções.
Penélope tece, maneja os fios
com destreza, medita, imagina que consegue prender um dos fios a um
pretendente e comandá-lo. Outro fio a outro pretendente. Um fio para
cada um. É uma urdidura ambiciosa, uma teia ampla, global. Cada fio
cumpre uma função particular, e juntos completam o tecido. A este
cumpre assegurar o resguardo, a proteção, o recato, o seu, de
mulher casada, ou viúva, ou só mulher. Através da urdidura pode
comandar o seu destino.
A queda de Troia desarticulou o
equilíbrio da região. Hordas de desenraizados espreitam e saqueiam
as costas mediterrânicas. Penélope toma consciência da força que,
se unida, aquela centena de guardiões representa. Uma guarda de
elite é a proteção mínima, mas suficiente que a livrará de
depredações invasoras. O que consome à mesa é um preço
irrisório, comparado com a proteção que oferece. É preciso que o
espírito que moveu para ali cada um dos pretendentes se consolide em
irmandade protetora.
Se antes, por cortesia, não
hostilizava os pretendentes, cada vez os acarinha mais, apesar do
deboche que alguns protagonizam. Incentiva e, não raras vezes,
aceita honrar com a sua presença os jogos de adestramento bélico e
os banquetes subsequentes. Evita que, cansados da espera, desistam,
enviando-lhes mensagens personalizadas, sugerindo dias mais
auspiciosos e insinuando que pode estar próximo o prémio que
espera. Fazendo-o sentir-se especial, envolve cada pretendente num
acordo tácito de proteção, Atrás do véu que brota do seu tear,
vai conseguindo tecer uma teia coesa e protetora, para si e para
Ítaca. Que talvez lhe permita esperar por Ulisses indefinidamente.
Joaquim
Bispo
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Este
conto foi selecionado para a 54ª edição (novembro/dezembro de
2025) da Revista LiteraLivre, em formato e-book (páginas 81 a
85):
https://drive.google.com/file/d/1bfOCXN-t7jfyhFDgiptn9viPPOrV-Yhy/view
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Imagem:
John William Waterhouse, Penélope e os Pretendentes, 1912.
Coleção
Aberdeen Art Gallery
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