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10/05/2026

Peso

 

As desavenças já vinham de longe. O avô de Verdasco sempre se queixara que um vizinho, um tal Gadanho, tinha uma atitude manhosa e traiçoeira nas relações com os vizinhos. A horta que depois o pai cultivava nos limites da freguesia de Lograssol, perto do Luso, sofria das manobras mesquinhas de Gadanho, que ia raspando a base da estrema um pouco sobrelevada, que, ao longo de muitos invernos, se ia desmoronando pouco a pouco, acrescentando área de terra à do manhoso e subtraindo-a do vizinho. Muitas discussões depois e de dois inícios de agressões que os familiares conseguiram suster, o ambiente tornara-se de tal modo desagradável que o pai de Verdasco abandonou mesmo o cultivo daquela horta, para nem ver o que Gadanho fazia.

Verdasco fora criado com aquele conflito na estrema do quotidiano e, depois da morte do pai, herdara aquela horta e aquela desavença, mas conseguia não pensar muito nisso, nem queria, até porque vivia em Penacova, a uma vintena de quilómetros. Só lá ia pela altura das ameixas e das peras, colher o que as árvores queriam dar. Mas, de cada vez, conseguia perceber que Croncho, o filho de Gadanho, herdara o terreno do pai e a mesma postura manhosa. Uma vez reparava que Croncho avançara a estrema meio metro para dentro do caminho comum; outra que encaminhara a regueira das chuvas para o seu terreno, que lhe arrastava terras; ou atravessava o seu terreno com o trator, fazendo novo caminho aos poucos. Não entrava em confrontos nem discussões, mas ia remoendo o desagrado. Jurava, para si, que um dia lhe iria calcar a sepultura.

Uma noite, cabeceando na Internet, Verdasco esbugalhou os olhos de surpresa: uma nota da funerária do Luso anunciava a morte e o funeral de Croncho. Não dizia de que morrera.

Depois de muito meditar e reviver as arrelias que o avô e o pai tinham amargado com aquela família e o que este membro continuava a fazer, Verdasco resolveu ir ao funeral e confirmar com os seus olhos que aquele miserável não voltaria a fazer-lhe sacanices.

Era uma terça-feira de fevereiro, Verdasco não foi à igreja; esperou no estacionamento do cemitério. A comitiva era reduzida: três pessoas, que não conhecia, além do padre e do cangalheiro. Croncho estava divorciado e a mulher e filhos estavam para França. Verdasco aproximou-se, mas manteve uma distância reservada. Ouviu as orações do padre, viu o cangalheiro e o coveiro descer a urna e este começar a lançar pazadas de terra para cima. Ninguém chorou. Quando os três acompanhantes se afastaram, Verdasco chegou-se à boca da cova, a fazer a confirmação possível. Ainda viu um canto do caixão já quase completamente coberto de terra, em que agora começavam a cair uns pingos de chuva. Aí estava toda a fanfarronice, toda a manha! Assim acabava quem não soubera viver. Mas tinha sorte o malandro: o pequeno cemitério entre pinhais era bem aprazível; quase apetecia viver ali.

Quando começou a sentir-se aliviado, Verdasco respirou fundo, saiu do cemitério e entrou no carro. Manteve-se ali ainda um bocado, imóvel, a saborear um resto de ressentimento, mas escurecia e ainda tinha uns quilómetros de estrada sinuosa até Penacova.

Passados uns dez minutos, já no escuro da serra e rodeado de floresta, a meio de uma curva para a direita, um alarme - turuli-turuli - invadiu o habitáculo, ao mesmo tempo que um sinal vermelho se acendia no painel, a indicar que o cinto do passageiro não estava colocado. Instintivamente, olhou para o lado. Claro que não estava ali ninguém, mas o assento pareceu-lhe pressionado.

Em pânico, travou, as rodas de trás começaram a deslizar, percebeu a berma a aproximar-se, e o desnível logo ali, rodou o volante ajudando a rotação e conseguiu parar, virado para trás, mesmo encostado à berma direita. Sem cuidar da altura, saltou para fora do carro. Caiu sobre mato rasteiro, um metro abaixo, e rolou até bater num tronco. Conseguiu endireitar-se e trepar pelo aclive até ao alcatrão, uns dez metros para lá da traseira do carro.

Enquanto corria arranhado e desnorteado na noite chuvosa pela estrada de Penacova, vigiado pelos farolins vermelhos do carro, teve um vislumbre de raciocínio: o que quer que acionara o alarme, e de cuja natureza suspeitava, revelava-se bem mais pesado do que habitualmente se diz. Pelo menos naquele caso, o que era de esperar.

No dia seguinte, o mecânico que rebocou o carro explicou-lhe que é relativamente frequente o desajuste do sensor de peso do banco, quando há muita humidade no ar, mas Estino não quis saber. Daí a uma semana tinha vendido o carro.

Joaquim Bispo

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Imagem: Anúbis pesa o coração do defunto contra a pena da verdade

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