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10/06/2022

A angústia do dirigente na iminência do embate

 

— Estou ansioso, Lampreia! Achas que vamos conseguir mostrar um bom jogo no domingo?

— Presidente, estou convencido de que vai ser dos melhores da temporada.

— Ah, ótimo! Adoro desfrutar de uma partida de futebol, no seu conceito mais puro: o embate vigoroso entre duas equipas de garbosos mancebos, virtuosos no tratamento de uma bola com os pés, envolvidos numa sã competição inspirada no lazer varonil, e comandados por duas mentes altamente estratégicas que analisam ao pormenor as forças e as fraquezas da equipa adversária.

— Felizmente, nisso, somos dos melhores.

— O adversário é difícil, hem!?

— Muito difícil! Tive de chegar aos oitenta mil.

— Então, quer dizer que estamos com força anímica para vencer!

— Com tendência para 3–1. É o que está combinado.

— 1?

— Presidente, fica sempre bem um golo de honra, para abrilhantar a nossa vitória.

— Mas, atenção; a forma física deles parece estar em alta.

— Sim, mas a preparação física de véspera vai incluir uma jantarada bem regada. Só para alegrar um pouco a noite.

— Jantarada é uma boa solução. E os nossos, estão motivados?

— Muito! Já lhes lembrei que a claque ficaria muito aborrecida se eles não se esforçassem.

— Ah, pois ficaria! E não é para brincadeiras…

— Para nenhum se esquecer disso, já marquei uma conferência de balneário para a próxima sexta.

— Conferência de balneário parece-me bem. E os árbitros?

— O costume: nevadas ou bombons, conforme os gostos. Nevadas russas e chocolatinhos de Cabo-Verde.

— Não há nenhum com gostos menos exóticos?

— Um preferiu doces de São Gonçalo de Amarante.

— Muito bem, Lampreia! Gosto de ver tudo bem encaminhado, mas, sabes, às vezes, temo que este desporto transmita, aos mais novos, uma imagem de competição desregrada; que se perguntem onde fica o desporto pelo desporto, o prazer do esforço físico, o ideal de que o importante não é a vitória, mas sim a participação.

— O clube tem sempre a participação como lema. Queremos que as claques compareçam massivamente no estádio, com todos e com tudo — cornetões, matracas, very lights —, sobretudo quando a bancada adversária for poderosa. A bola é redonda e o nosso clube não tem proteção celeste, digamos assim.

— Muito bem, Lampreia! E a pedagogia social, o fair play, a gentileza para com o adversário? Não nos esqueçamos de que os jovens copiam, na vida de todos os dias, o que observam em campo!

— Se o Paulinho Quebra-ossos tiver que meter os pitões na fronha do Juvenal Gazela… é chato, mas é a vida. Às vezes, é a única maneira de acalmar um espírito demasiado fogoso e impedir um golo certo. Aí, é altura de o Juvenal mostrar o seu fair play e dar a outra face, não é?

— Isso mesmo. Aprecio o espírito cristão.

— Os espectadores gostam sempre de ver uma boa metáfora bíblica. Estamos à espera de quarenta mil.

— Como é isso, Lampreia? Pensei que o estádio só comportasse trinta e três mil!

— É! Mas não pude suportar a imagem de sete mil rostos juvenis, chorosos por não conseguirem ingresso.

— Ah! Muito bem, Lampreia!; vejo que tens bom coração.

— Obrigado! O desporto sadio toca-me fundo. Acredito que é o melhor sustentáculo de mentes saudáveis e um formidável gerador de cidadania responsável.

— Estou absolutamente de acordo. Isso e uma imprensa livre que o promova e o valorize.

— Sim, sai amanhã mais uma dose das escutas aos nossos adversários, que enviei aos jornais de referência: Offside, Penalty e Hat-trick.

— É isso que precisamos: jornalismo desportivo de investigação.

— Já avisei os repórteres que a avença está a pagamento.

— Perfeito, Lampreia! O desporto deste país nem sabe quanto te deve. Nem o clube de todos nós.

— Cerca de seis milhões. Já fiz as contas. Mas não se preocupe; o perdão do empréstimo bancário do Banco de Benemerência Nacional ao clube já está assegurado.

— Nem sei como te agradecer, Lampreia!

— Sugiro um apoio vigoroso do clube à minha candidatura autárquica!

— Podes contar com ele, Lampreia! Um amigo na Câmara é bom para o clube e é bom para o desporto. Bola para a frente!


Joaquim Bispo


Imagem:

Caravaggio, Os batoteiros, c. 1594.

Museu de Arte Kimbell, Fort Worth, Texas, EUA.

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Este texto foi um dos selecionados para a 33ª edição (maio/junho de 2022) da Revista LiteraLivre, em formato e-book (páginas 89 a 90).

https://drive.google.com/file/d/1lA0AUETjL28cvRL6G5_y6G6Ltk2Aqk1g/view

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10/09/2018

Os benefícios do futebol



Por mais estranho que pareça, o futebol tem-se revelado muito importante para mim, culturalmente.

Há dias, à hora das notícias, liguei o televisor para a RTP-1, com a preocupação de saber se vai aumentar o orçamento para a Defesa e diminuir para a Educação. Em vão: estava a transmitir um jogo de um dos inúmeros torneios oficiais, semioficiais e de preparação que o mundo do futebol promove para corresponder à procura do público condicionado e arrecadar mais uns milhões em direitos televisivos.



Gosto de ver uma ou outra partida que envolva a seleção, desde que o desempenho seja leal, pujante e criativo, mas daí a engolir todos os produtos que a sobre-produção descarrega...

Mudei para a SIC, com vontade de perceber porque se começou a falar tanto e tão de repente em comboios e transporte ferroviário. Será que vem aí mais uma conta para pagarmos? Em vão: estava a falar o treinador do Benfica, talvez tentando distrair os adeptos das más notícias recentes...



Lembrei-me do orgulho benfiquista da década de 60, por não ter jogadores estrangeiros. Era sentido como uma espécie de brio bairrista, mas nacional, de ganhar com a prata da casa, sem ajudas, nem truques, nem jogadas menos claras de qualquer tipo.

Mudei para a TVI, resignado a ouvir mais algum caso pungente de pequenez e corrupção, dos muitos que vão atingindo tantas instituições insuspeitas. Em vão: estava a falar o novo presidente do Sporting.



Não sem que eu vislumbrasse, de memória recente, um espetáculo medonho de autocratas, bandos de arruaceiros, tumultos, agressões, alarme social.

Mudei para a SIC-Notícias, disposto a espantar-me, como habitualmente, com a criatividade das manipulações, dos esquemas e das subversões que os intervenientes do sistema vão usando para desresponsabilizar, descriminalizar, libertar, e talvez indemnizar o corrupto do dia. Em vão: um painel de peritos discutia compenetradamente um duvidoso fora-de-jogo que um árbitro validara, certamente por incumbência de quem lhe pagou, dizia um.



O futebol é um espetáculo visual, cujos bons lances são, para alguns, objetos estéticos. Para mim, é como o sexo: é para praticar ou para ver, mas não para discutir o desempenho dos intervenientes.

Mudei para a TVI-24 para ver com os meus olhos as ameaças do regime de Trump aos juízes do Tribunal Penal Internacional, por estes tentarem julgar os criminosos de guerra americanos. Em vão: um painel de entendidos altercava, aos gritos, sobre a gravidade e as consequências a tirar do caso da espionagem à Justiça, feita por membros do Benfica.



Acho divertido, mas dramático, que os desgraçados que ganham o salário mínimo, ou menos, acicatados por máquinas de radicalização de que estas trupes são os testas de ponte, se esfarrapem a vitoriar, acéfala e infundadamente, bandeiras, símbolos e panteões risíveis, mas pior, vão aos estádios pagar bilhetes de preço proibitivo, que alimentam uma engrenagem financeira com aspetos obscenos de anti-desportivismo por parte de dirigentes, e de desigualdade social, em relação aos seus milionários ídolos.

Mudei para a RTP-3 só para confirmar que as potências em conflito na Síria continuam a declarar fazê-lo para defender o povo sírio, enquanto continuam a tentar travar a chegada à Europa da vaga de desesperados migrantes resultante. Em vão: um painel de especialistas perorava sonolentamente sobre as tarefas do Sporting para ultrapassar a crise em curso.



É inacreditável a quantidade de horas que variados painéis de comentadores gastam a falar de futebol, às vezes de um jogo ou de uma jogada apenas. Acreditem ou não, às vezes relatam um jogo que só eles estão a ver, mas não mostram… Com certeza que têm espectadores, mas tenho dificuldade em imaginar milhares de pessoas em suas casas a prestar atenção a uns tipos que falam, apenas falam, de um espetáculo que é eminentemente visual.

Já sem grandes esperanças de escapar ao futebol e aos seus tentáculos, mudei para a RTP-2. Foi aí que, após ter percorrido o longo e estreito carreiro atrás descrito, tive oportunidade de assistir a um programa sobre “endocrinologia e ambiente” e os efeitos nefastos que um meio-ambiente cada vez mais poluído tem para a saúde. Muito interessante e pedagógico, e certamente mais enriquecedor para cada um dos outros espectadores, se não estivessem presos à mesmice do chuto na bola. Por mim, pelo contrário, se não fosse a omnipresença televisiva do futebol tê-lo-ia perdido. Só lhe posso estar agradecido!

Joaquim Bispo
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Imagem: Jan Vermeer, O astrónomo, 1668.
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