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10/04/2026

Uma pancada na cabeça

 

A viagem de quinze dias ao Egito suscitou a Augusto Salado preocupações com a segurança da casa. Talvez fosse a distância, talvez o muito tempo fora, talvez um certo sentimento de superstição com civilizações com poderes obscuros.

Puxando um pouco pela cabeça, resolveu organizar um sistema de simulação de presença, para enganar os ladrões, com a ajuda de simples aparelhos automáticos: um candeeiro de pé alto na sala, ligado a um temporizador, que acenderia entre as 20:15 e as 00:40 h, daria a entender que havia rotinas quotidianas em casa, embora a persiana estivesse sempre meio aberta; ligou ainda outro candeeiro de parede, no hall de entrada, a um sensor de movimento, apontado para a frincha que a porta tinha, que acenderia ― testou ― se alguém se aproximasse. E partiu descansado.

Por pouco tempo. Já ia no avião quando se apercebeu que cometera um erro: o candeeiro de pé alto estava até apoiado a um canto, mas tinha uma das suas telas por cima. Se o prego que a segurava cedesse, o quadro talvez batesse no abat-jour, o candeeiro caísse e ficasse aquelas mais de quatro horas com a lâmpada encostada sabe-se lá a quê. Nem queria pensar. Mas, que fazer? O que não tem remédio remediado está. Conformou-se com o que o destino lhe reservaria. E desfrutou a viagem sem angústias.

Mas o destino não o ameaçava apenas a cinco mil quilómetros de distância. Na ponta final das férias, depois de ter visitado talvez um dezena de túmulos e templos por todo o vale do Nilo, já em Abu Simbel, na visita ao túmulo de Nefertari, desequilibrou-se com um pequeno desnível do chão, caiu, bateu com a cabeça na laje e desmaiou. Disseram-lhe que foi uma questão de 15 segundos; nem foi preciso chamar apoio médico. Salado acordou normalmente e ficou consciente, apenas com um pequeno “galo” no frontal direito. E três dias depois estava de regresso a Lisboa.

Ao chegar a casa, meteu a chave à porta, mas ela não abriu; parecia presa. Teria descaído? Tentou puxá-la para cima, enquanto a empurrava, mas mantinha-se perra. Parecia ter qualquer coisa atrás. Curiosamente, a luz do hall acendeu-se, o que lhe fez acelerar a pulsação. «Está alguém lá dentro», concluiu, em pânico, completamente esquecido das geringonças que montara.

Pediu apoio ao vizinho da frente e, quando a empurraram com força, a porta arrastou alguma coisa e abriu-se. Então depararam com os tacos de madeira do chão levantados em grande parte do hall. Tinham sido eles que travavam a porta. Que estranho! Não havia torneiras abertas, nem fugas de água visíveis. Uma misteriosa poalha branca e arenosa por baixo dos tacos fê-lo acionar a hipótese de maldição de Nefertari. O ténue cheiro perfumado que exalava, a evocar os bálsamos das princesas egípcias, fortalecia-lhe essa suspeita.

Nessa noite já achou estranhas as notícias. Aliás, tinha-se até esquecido dos grandes conflitos em curso.

Os europeus afirmavam que a única maneira admissível de conseguir a paz na Ucrânia era derrotar a Rússia. Não diziam qual o número aceitável de ucranianos a sacrificar.

No outro dia, uma das inúmeras comentadoras, que agora enchiam o ecrã de éticas alinhadas, com os escombros de Gaza em fundo, afirmava que Israel tem o direito de se defender. «Mas ninguém lhe explicou quem é que começou; que foram os israelitas que, em 1948, expulsaram 700.000 palestinianos das suas terras, das suas casas?», espantou-se Salado.

Agora, diziam que os países europeus tencionavam comprar armas e munições aos Estados Unidos para oferecerem à Ucrânia e esta despejar sobre a Rússia. «Curiosa combinação! Uns ficam com a despesa; outros com os mortos; e outros com os cofres cheios...»

«Alguma coisa se passa com a televisão» ― pensou.

No dia seguinte, mais um perplexidade: os mesmos países ocidentais que condenavam a invasão russa, agora alinhavam com o invasor Israel a afirmar a necessidade de desmantelar o Hamas. «E vão negociar com quem?»

Mais um dia e a notícia era que alguns países europeus declaravam a inevitabilidade de desmantelar o estado social ― as reformas, as pensões, os apoios sociais, o subsídio de desemprego e outros ―, para conseguirem criar uma estrutura militar que pudesse combater a Rússia.

Salado começou a desconfiar da sua sanidade mental. Aquela pancada com a cabeça no chão do túmulo da Nefertari talvez tivesse feito estragos não visíveis, mas que estivessem a comprometer o seu discernimento.

O vizinho viu a notícia na televisão de que vão acabar com as pensões para gastar em mísseis? ― perguntou ele a um, que encontrou na escada.

Capazes disso são eles... ― deu ele de ombros. ― Estão mortinhos para começarem todos à batatada. Eles é que mandam nisto...

Dois dias depois, um comentador televisivo declarava que colegas e camaradas na NATO lhe tinham assegurado que esta força está e estará preparada para defender todos os centímetros quadrados do território euro-atlântico e derrotar a Rússia em qualquer teatro de operações, seja guerra convencional, seja guerra nuclear. «A guerra nuclear pode ter e terá vencedores» ― asseverava.

«Aqui há gato» ― desconfiou. «Está tudo doido, ou sou só eu?»

Mais um dia e outro militante dizia que, em 61, Cuba não podia colocar ogivas nucleares na sua ilha, mas que agora é diferente. «A Ucrânia tem todo o direito a fazê-lo.»

No dia seguinte, diziam que o Trump queria comprar Gaza aos palestinianos para fazer lá um formidável empreendimento turístico. A maluqueira do Trump era grande, mas esta notícia?

Salado deixou de contar os dias. Num deles saltou de pasmo: uma fila de comentadores, muito alinhadinhos, estavam a receber condecorações de excelência. Chamavam-nos pelo nome, antecedido do posto, eles avançavam até a um rabino, que lhes aplicava uma quipá, e a seguir, um oficial americano passava-lhes uma faixa da NATO pela cabeça, faziam continência e voltavam ao lugar, muito compenetrados.

Mentira, isto não pode ser! ― indignou-se Salado. ― Se isto fosse verdade, não mostravam.

O vizinho viu ontem os comentadores a receber condecorações da NATO e de Israel? ― perguntou ele ao vizinho.

Capazes disso são eles... ― aventou o inquirido, em tom conspirativo. ― Se calhar, é porque as mereceram…

Capazes disso são eles… ― respondeu Salado, para terminar a conversa, mas já estava a ver que não seria o vizinho a tirar-lhe dúvidas sobre o que se estava a passar.

À tarde, a Prémio Nobel da Paz apelava a Trump para a ajudar a vencer a guerra contra Maduro, na Venezuela. Era demasiado inconcebível. O problema não devia ser da televisão. Alguma coisa de terrível se passava, mas devia ser com o seu cérebro: estava a alterar a realidade. Resolveu recorrer às urgências.

Ao chegar ao hospital confirmou os seus piores receios: ― a urgência estava fechada. Uma urgência fechada? Era o mundo em si que chegava alterado ao seu intelecto. Sentimentos de fragilidade física e finitude invadiram-no. A quem pedir ajuda, quando o nosso cérebro soçobra?

Resolveu perder o amor a mais de 100 euros e consultar um psiquiatra privado.

Ó homem, por onde é que você tem andado? ― reagiu o médico, quando Salado lhe contou de que se queixava. ― O clima de confrontação está ao rubro e essas singularidades de política externa estão mesmo a acontecer. E, naturalmente, vão sendo comentadas pelas televisões. Mas, tem de lhes dar um desconto. Eles não conseguem evitar “puxar a brasa à sua sardinha”. Aparentemente muito lógicos, patriotas e bem-intencionados, mas a amplificar as teses militaristas e armamentistas. Mas essa das condecorações da NATO é ilusão pura, garanto-lhe. Eu posso receitar-lhe uns antidepressivos e uns hipnóticos…

Salado começou a tomar os medicamentos, e parecia melhorar. Um vazamento da máquina de lavar roupa do andar de cima fê-lo concluir que teria sido isso que acontecera, tendo a água perfumada deslizado sobre a laje até ao hall de entrada. Finalmente, as coisas pareciam fazer sentido.

Mas, um dia, acordou com uma enorme dor de cabeça. Conseguiu ligar para a Saúde 24, pouco depois veio uma ambulância e levou-o para um hospital a funcionar. Tinha um aneurisma cerebral, provavelmente devido a traumatismo craniano. Foi operado de urgência e salvou-se à justa. Deram-lhe alta duas semanas depois, mas, atendendo ao histórico, aconselharam-no a evitar notícias. Quando, um dia, num café, foi apanhado por um televisor ligado e soube que o presidente americano raptara o presidente da Venezuela, queria anexar a Gronelândia e ameaçava obliterar a civilização persa, achou que estava a ter uma recaída.

Joaquim Bispo

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Imagem: Pieter Brueghel, o Velho, A Parábola dos Cegos, 1568.

Museu de Capodimonte, Nápoles.

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