— São três imperiais, duas águas das Pedras e uma coca-cola, se faz favor — pediu Diogo, ao balcão, sem ter a certeza de ser a sua vez. O pedido não merecia qualquer comentário, mas há pessoas que não perdem uma oportunidade de exibir conhecimento, ou o que com ele se parece, a propósito seja do que for.
— A
água é, provavelmente,
um dos produtos de excreção da atividade metabólica dos seres
vivos — lançou Bernardo,
seguro do impacto que ia causar na assembleia de circunstância: o
grupo de amigos que deixara as toalhas a marcar lugares na areia e
viera matar a sede na esplanada do apoio de praia. — Só assim se
explica a enorme quantidade de água que temos, em contraste com os
outros planetas conhecidos.
— Eh lá! Ainda bem que pedi
cerveja. — brincou Afonso, que já conhecia a “peça”.
— Há também a teoria
do choque da Terra com um planeta oceânico, em tempos primordiais,
mas essa parece-me uma explicação milagrosa, que cheira a
criacionismo — continuou Bernardo, ignorando ostensivamente o
comentário. — É
certo que a Terra já conteria água primordial, aquando do
aparecimento das estruturas que deram origem aos primeiros seres
vivos. Como conteria oxigénio e centenas de outros elementos e
compostos químicos, gerados nas fornalhas nucleares das estrelas,
que, ao explodirem, deram origem às poeiras e gases que vieram a
juntar-se e formaram os planetas que compõem atualmente o sistema
solar. Mas seria água e oxigénio não muito mais frequentes do que
a mica ou o sódio. Como Carl Sagan explicou muito bem, o oxigénio
foi produzido pelas algas azuis, antes do aparecimento dos organismos
que hoje dependem dele para viver. É lógico especular que pode
também ter sido o metabolismo de milhões de minúsculos seres
vivos, a excretar quantidades ínfimas de água durante milhares de
milhões de anos que deu origem a esta avassaladora massa líquida
que quase submerge todo o planeta — o gesto largo abarcava a
imensidão do oceano que continuava a calote visível dali.
— Ih, que nojo! — fez
Carolina, que já estava a visualizar gosmas e escorrimentos em
criaturas moles e viscosas. — E nós andamos aqui a banhar-nos
nesse muco todo?
— Não seria menos límpida do
que esta — garantiu o orador. — A
água ainda hoje é um subproduto do metabolismo de muitos
organismos, incluindo plantas e animais. Por exemplo, durante a
respiração celular, o oxigénio é usado para quebrar moléculas
orgânicas, libertando energia e produzindo dióxido de carbono e
água como subprodutos.
— Vamos todos contar uma
história que meta água, salvo seja — chilreou Mariana, a mais
nova do grupo, tentando salvar a tarde. — E que se tenha passado
connosco. Começo eu. Quando tinha uns 14 anos, o agrupamento de
escuteiros de que fazia parte, fez um acampamento na zona de Oleiros.
Numa das manhãs, estava prevista uma caminhada por aqueles montes
secos e cheios de pinheiros. A certa altura, e contrariando as regras
aprendidas, afastei-me do grupo e da trilha, para fazer xixi e quando
voltei já não vi ninguém. Chamei, gritei, mas nem um som me
respondeu. Ao fim de um bocado de espera inútil, resolvi voltar para
trás, pela trilha que trazíamos.
Neste ponto da narrativa, a
atenção dos amigos já estava assegurada.
— Andei, andei, mas não havia
maneira de encontrar o acampamento. Nem reconhecia nada em volta.
Claramente, estava perdida. Era verão, o calor apertava mais do que
aqui, e já tinha esgotado o cantil. Comecei a sentir medo. A meio da
tarde, permiti-me chorar um bocadinho. Aquelas lágrimas foram as
únicas gotas que ingeri, desde o fim da manhã. Então, reparei que
as andorinhas pareciam voar mais baixo, perto do alto do caminho
antigo em que estava. Por aí fui, na esperança de que isso
significasse mais humidade. Porque as andorinhas comem mosquitos em
voo, e estes não conseguem voar alto onde há humidade.
Teresa mudava de posição, para
não perder pitada.
— Então, a duas centenas de
metros do alto, uma fonte. Ou o que restava dela. Um pequeno muro
apresentava, a meia altura, uma pedra saliente, com uma estreita
cânula escavada. Dela iam pingando não mais que gotas de água. A
ela colei a boca. Lentamente, aquelas gotas esparsas, mas frescas,
foram-me hidratando. Ao fim de uma meia hora, tinha recobrado a
esperança e permiti-me descansar um bocadinho. Nessa altura senti
muito intimamente o flagelo da falta de água potável que atinge
grandes fatias da população mundial. E lembrei-me das histórias de
meninas africanas que palmilham muitos quilómetros para irem buscar
água para a família a algum poço remoto. Não sei quanto tempo
passou, mas, de repente, chegou ao pé de mim uma patrulha de
escuteiros, das várias que foram lançadas à minha procura. Depois,
vim a saber que aquela era a rota dos moleiros de antigamente. Daí a
fonte. Vivam os moleiros e outras profissões antigas que, por
necessidade própria, deixaram muitas fontes por esses caminhos!
«Muito bem!», «Gira!», «Que
susto!» — foram alguns dos comentários que saudaram a prestação
de Mariana.
— Pronto; a minha já está.
Agora, outra — desafiou.
Por momentos, ninguém parecia
disposto a dar continuidade à versão Decameron
à portuguesa lançada pela amiga. Por fim, Afonso, o engenhocas do
grupo, decidiu-se:
— Eu não sei se a minha
história vale. Não tem perigos de vida, mas tem água. Água,
líquida, insidiosa e intrusiva, a entrar-me pelo parapeito de uma
janela sem eu conseguir descortinar como entrava, nem como impedi-la
de entrar. Vedei a caixilharia de alumínio com silicone, mas
continuava a pingar dentro de casa e ameaçava encharcar-me o soalho
e levantar-me os tacos. Percebi rapidamente que ela se infiltrava por
uma fissura da pedra do parapeito, mas estava fora de questão gastar
um balúrdio a substituir uma pedra enorme de mármore, mesmo depois
de várias tentativas infrutíferas de vedar a frincha. Resolvi, em
vez disso, construir uma “armadilha para água”, como eu lhe
chamo.
Neste ponto, Afonso conseguia
também atenção unânime da plateia.
— Não é nada de especial; só
um mecanismo simples que usa a caraterística da capilaridade,
própria da água, para a obrigar a seguir o caminho que eu quero.
Aliás, a água tem 70 características especiais, diferentes das dos
outros líquidos. É mesmo um líquido “do outro mundo”. Como
sabem, a água agarra-se às paredes dos objetos que toca. Se essas
paredes forem as de um tubo muito fino, a água sobe até um certo
nível. Em vez de tubos finos, usei fio de algodão, como o usado nas
velas. Primeiro, capto a humidade com um pano absorvente à saída da
racha e se acumula numa pequena caixa; ao interior dessa caixa
liga-se o fio de algodão. A água trepa pelo fio, ultrapassa o bordo
da caixa e vai-se expandindo
fio afora. Aí, o peso é o empurrão extra que leva a água a chegar
ao fundo do fio e a pingar
para um recipiente com alguma capacidade e equipado com um sifão.
Quando o nível da água ultrapassa o ponto de implantação do
estreito sifão, é arrastada sem piedade e vai à vida dela, através
de um tubinho na parede. Nem quero imaginar o que faria ela aos meus
queridos tacos.
Claramente, o grupo esperava
mais. Os rostos apresentavam algum espanto, mas pelos motivos
errados.
— Ó Afonso, essa máquina é
um bocado artesanal, não? — ironizou Bernardo. — Só tem a
vantagem de não gastar eletricidade.
— Agora é a minha vez —
avisou Carolina, talvez encorajada pela aparente sensaboria da
história de Afonso. — Havia uma miúda que vivia numa quinta e os
pais incumbiam-na de várias tarefas, apesar da idade. Era frequente
ir com o irmão numa burra
buscar
os ovos a outra propriedade agrícola. Ou levar a merenda a algum
rancho de trabalhadores.
Ou outra tarefa qualquer, que por esses princípios da década de 50
os adultos incumbiam as crianças. Até tinham um ditado: “O
trabalho do menino é pouco, mas quem o despreza é louco”. Dessa
vez, tinha chovido muito e a ribeira tinha subido. O caminho de
regresso a casa passava necessariamente por aquela ribeira. E ponte
era coisa que não havia. A travessia era sempre feita a vau, tanto
por mulas, burros, cavalos, como por carroças e carros de bois. Não
mais que uns dez metros de extensão, numa ribeira que, exceto no
inverno, tinha sempre pequeno caudal e chegava a secar.
Também Carolina conseguia obter
a atenção do grupo.
— O rapazito, no comando
das rédeas, incitou a burra
a
avançar ribeira adentro, como habitualmente. A água só lhe dava
pelo meio da barriga, mas a força da corrente já era grande e a
própria burra
não conseguiu manter o rumo reto. Aos poucos, foi sendo arrastada
alguns metros, para grande aflição
dos miúdos, até que ficou empancada numas rochas que ocupavam parte
do leito. Felizmente!
— Uau! — fez Diogo.
— Que história mais macaca! Não havia pontes, os miúdos andavam
sozinhos em burras…
Isso foi em que planeta?
— Acredito
perfeitamente! —
firmou-se Carolina. — Já vi fotografias daqueles tempos… eram
inacreditáveis. As condições eram miseráveis, mas parece que toda
a gente vivia assim. Imaginem dois
miúdos de uns 10, 12 anos, rodeados de água, em cima de uma burra
presa
no meio de uma
ribeira, que devia levar força e volume. E os pais, numa quinta a
uns 2 ou 3 quilómetros, sem saber de nada. No meio da aflição, o
miúdo, habituado
ao campo e a safar-se dos seus apertos, conseguiu passar por cima do
pescoço da burra,
para o muro da borda, talvez com a ajuda de alguma rocha intermédia.
Então deitou a correr
para buscar auxílio.
Fez uma pausa, como que a abarcar
o dramatismo da situação, perante o silêncio atento dos amigos.
— Esta parte é a que me faz
mais impressão. Posso pensar na aflição do miúdo, na corrida
desesperada que deve ter feito para avisar os pais, mas, imaginem a
miúda! O irmão foi-se embora e ela ficou ali sozinha no maior
perigo, com o coração em papa, em risco de ser levada pela
corrente. O que deve ter pensado, o que deve ter chorado! Quando o
miúdo chegou finalmente ao pé do pai e, quase sem fôlego, lhe
contou o que tinha acontecido, este saltou para uma égua em pelo e
lançou-se num galope insano, numa aflição que não podemos
imaginar. Aqueles minutos de galope só podem ter sido terríveis.
Felizmente, chegou a tempo. Com a desenvoltura dos adultos, conseguiu
retirar a miúda e abraçou-a,
de olhos alagados. Iria agradecer tanto à Senhora das Necessidades!
Depois desencaixou a burra
dos
rochedos e tudo acabou em bem, felizmente. Agora é só uma história
que aqueles
miúdos,
agora idosos e meus tios-avós, contam, quando se lembram dos tempos
antigos.
— Pessoal, já chega de
histórias macabras — interrompeu Teresa, até ali calada e sem uma
história de jeito para contar. — Vamos outra vez à água? O
último é um charco de água suja.
— Bora! — responderam todos.
E desataram a correr para o mergulho refrescante.
Joaquim Bispo
*
Este conto foi selecionado para a
58ª edição (julho/agosto de 2026) da Revista LiteraLivre, em
formato e-book (páginas 87 a 90):
https://drive.google.com/file/d/1hBQROpjlpysmA8rAqQurhhJbCmbiaGUO/view * * *
