A primeira apetência que Pixie sentiu, ao chegar à casa de província dos donos, foi visitar o seu amigo Nico, que morava a uns três quintais de distância. Voltar a ficar de conversa com ele em cima de um telhado era mesmo o único apoio mental a que se agarrava para suportar mais de duas horas de viagem, fechado na sua caixa, aos pés do pendura, que, no caso, era a cadela da família. Que vexame!
Antes de mais, no entanto, havia que voltar a explorar a casa. Nunca se sabia se teria havido alterações importantes ou se dava para perceber que a casa tinha sido visitada por roedores. A moradia era relativamente recente e dificilmente lá entrariam, mas, com roedores, nunca se sabe. Inspecionou primeiro o rés-do-chão, sem esquecer a bancada da cozinha, nem o espaço atrás do sofá da sala. Tirando um ligeiro cheiro a mofo na despensa, estava tudo bem. Subiu a escada interna da vivenda e vistoriou os dois quartos, com especial atenção aos espaços por baixo das camas. Respirou fundo. Estava tudo em ordem.
Desceu as escadas e começou a miar, humildemente, para que lhe abrissem a porta do quintal. No telheiro demorou muito tempo a perceber quais os animais que por ali tinham andado. Basicamente, tinham sido pequenos pássaros, mas havia um cheiro bastante exótico. Por fim, percebeu: devia ter sido um lagarto, provavelmente pequeno. Havia de passar ali todos os dias, a ver se o apanhava. De repente, sentiu um desinteresse intenso. A revista estava feita, só iria visitar o amigo depois de cair a noite. Até lá… Instalou-se em cima de um tronco largo, no monte da lenha, e iniciou um tratamento lambido do pelo cinzento listado, o que ainda levou o seu tempo. Quando entendeu que já estava razoavelmente limpo, estendeu-se, dobrou as mãos para dentro, bocejou, e o sono não tardou.
— Nessa noite, não esperou pelo fim do jantar para se ausentar. Com um pulo, saltou para o muro do quintal, percorreu-o até quase ao fim, onde havia um casinhoto no quintal contíguo, desceu o pequeno telhado, saltou para o chão e avançou, atento, por entre couves e feijoeiros até um muro baixo. Novo pulo, nova caminhada, quando percebeu um vulto sobre a parede. Estacou. Apesar do lusco-fusco, pareceu-lhe a silhueta de um gato. Aproximou-se lenta e cautelosamente até que identificou, sem dúvidas, o seu amigo Nico, um escorreito gato amarelo.
— Os cumprimentos foram reduzidos. Havia tal familiaridade que, apesar dos meses sem encontros, era como se tivessem estado à conversa na véspera.
— Nico, grande malandro! Até parece que combinámos encontrar-nos aqui. Estás sempre na mesma.
— Então, estás cá e não dizias nada?
— O que é feito? Essa saúde?
— Tá tudo. Sempre fino como o alho. Aqui não entra mazela. E tu?
— Olha, fui ontem vacinado contra o vírus da leucemia felina. Desta já me livrei.
— E deixaste? Isso é para nos fazer dóceis e servis como os cães.
— Não. É por causa de uma doença grave que podemos apanhar. Podemos morrer!
— Oh, meu amigo… Já estás com o discurso dos donos. Escuta, tens de tomar já uns antídotos contra essa vacina degradante. Tens de comer erva do diabo, para te fazer vomitar e eliminar os componentes mais agressivos. Depois, róis casca de sabugueiro, para absorver os restantes. Mas o tratamento só fica completo se comeres uma lagartixa verde. A vacina é atraída pelos tecidos orgânicos dos rastejantes. Talvez por detetar o seu espírito de rastejamento.
— Nico, escuta; a vacina é o que me vai proteger de uma doença terrível, não o contrário. Tu não te vais vacinar?
— Eu? Era o que me faltava! Eu sou um espírito livre e livre quero continuar a ser. O meu dono que não me venha com vacinas, que leva logo o que contar. Eu sou gentil e simpático, mas, quando se trata da minha saúde e da minha liberdade, não faço concessões.
— Mas, nunca levaste vacinas?
— Devo ter levado em pequeno, mas, na altura, não sabia nada das conspirações que os homens engendram. E talvez não me tenha feito mal. Era a polivalente, uma vacina já muito ensaiada, mas essa que levaste… Tu é que vais ser a cobaia. Se não queres ter problemas, faz o que te digo.
— Ó Nico, não digas isso. Tens alguma prova do que dizes?
— Olha, olha! O Bigodes, um gato ali da outra rua, depois de levar a vacina ficou 18 horas a dormir.
— Oh, grande coisa. Eu faço isso quase todos os dias. Mas apanhou a doença?
— Não. Mas eu também não. Ouve, Pixie, eu guio-me pela tradição e pelo meu instinto, que nunca me falhou. Lambo-me cuidadosamente todos os dias. Todos esse vírus e bactérias que estão no pelo, enfraquecidos pela minha saliva, são decompostos no estômago e vão fortalecer o meu sistema imunitário. E depois, já inúteis, são vomitados na bola de pelo. Não falha. Era a prática que o meu avô, um gato robusto e altivo, usou toda a vida e nunca o vi ficar doente. Muito menos submisso ou bajulador.
A conversa continuou animada pela noite dentro, até o homem do quintal do limoeiro os correr a limões:
— Raisparta os gatos. Fora daqui! Janeiro tão longe e é já este berreiro todo. Dantes não havia tanto gato.
Joaquim Bispo
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Imagem de IA.
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Bom como sempre!
ResponderEliminarMuito obrigado, Guinha!
Eliminar❤️
ResponderEliminarMuito obrigado, Anónima/o!
EliminarDeve ser mesmo por causa das vacinas que os gatos agora andam sempre numa gritaria, antes era só em janeiro e fevereiro!
ResponderEliminarDantes era por causa do cio das gatas e consequente desvario dos corpos; agora é por causa do desvario das mentes.
EliminarJoaquim, que escrita ! O deambular do gato pela casa, o seu descanso e depois o caminho até ao encontro do amigo, para mim não estou a ler, estou a ver imagens de um verdadeiro filme. É incrível o teu poder descritivo; é que entras no pormenor. No tempo em que os animais falavam... alguns até diziam coisas acertadas ! Gostei do final do conto. Parabéns sr Realizador/Escritor. Meu amigo continua a escrever e a publicar, pois agora tenho tempo para te ler. Estou em casa recuperando da cirurgia. Um grande abraço
ResponderEliminarMuito obrigado, Portugal.
EliminarMuito me animo de saber que já foste operado.
Desejo-te recuperação rápida.
Grande abraço!
Obrigado Joaquim
EliminarEstes gatos do Quim, parecem humanos amigos que se encontram para passar férias na terrinha... conversando sobre o dia a dia.
ResponderEliminarSem a surpresa do "gato escaldado..."
Peralta
Muito obrigado, Peralta.
EliminarEstes são amigos, mas têm visões diferentes sobre as vacinas. Como tantos amigos humanos.
Muito engraçado e muito bem escrito. Margarida Navarro
ResponderEliminarMuito obrigado, Margarida Navarro.
EliminarJá manifestei algumas vezes quanto aprecio esta arte de escrever, em que a «mensagem» se vai revelando com beleza - quanto ao estilo e seu conteúdo. Faz bem sentir que a nossa Língua pode ser tratada MUITO BEM.
ResponderEliminarMuito obrigado. Manuel Alte da Veiga.
EliminarDeste lado, posso dizer que faz bem sentir que o que escrevo é apreciado.
Bom dia. Muito agradecida.
ResponderEliminarBoas férias. Bjs
Muito obrigado, Anónima!
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