10/08/2024

O riso escarninho

  Na altura, a incriminação não era opção. O meu desejo mais profundo era mesmo matar Estêvão Arunhos, um antigo mestre de obras e meu vizinho do rés-do-chão. A antipatia vinha de há muito, logo desde os primeiros encontros, quando me mudara para aquele condomínio. O seu ar boçal e desdenhoso manifestava-se em comentários mordazes ao meu modo de vestir, nos olhares irónicos, nos risos alarves, quando me via acompanhado. Não havia razões de reparo, a não ser a sua mentalidade retrógrada e fascista. Durante mais de dois anos, revesti-me de compreensão e paciência, acreditando que o tempo...

10/07/2024

A pedra

  No verão, Damião passava o dia na ribeira. Um fio de água, um charco aqui outro acolá; para os seus quinze anos, era o paraíso na Terra. Caçar pássaros com a fisga não passava de pretexto para andar descalço pelas areias sussurrantes, sob a sombra de amieiros e salgueiros. Raios de sol penetravam nas densas ramagens, mas não conseguiam alterar o frescor da proximidade da água. Silêncio não havia, tampouco ruído. Sons naturais eram a melodia do local: rumorejos das copas verdes, cicios do fio de água em algum socalco entre pedras, um ou outro chilreio. Ao longe, o som cristalino das campainhas...

10/06/2024

O acaso

  Marco não admitia que tinha um problema de jogo. É certo que sempre estivera envolvido em ambiências de fortuna e azar, quer na adolescência, em que começara por jogar King a meio centavo o ponto, depois “abafa” e “lerpa” na tropa, com incursões cada vez mais frequentes na zona de máquinas do Casino do Estoril, até às posteriores dependências da roleta e aos seus mais recentes empolgamentos com o póquer on line. Na tropa, apostava o vencimento de oficial miliciano. Quando as sucessivas noites de jogatina corriam mal e o vencimento se ia, iam-se também as saídas do quartel. Felizmente,...

10/05/2024

Abraão e o GPS

  Abraão nunca aceitara bem aquele filho nascido fora de tempo. Quando o Senhor lhe anunciou que ia ser pai, Sara já tinha alguma idade. Como podia ainda gerar descendência? Sara tivera uma série de abortos espontâneos. O ambiente insalubre em que toda a gente vivia no século XXI, não ajudava. A carne estava carregada de hormonas, o peixe, de mercúrio e outros venenos, as verduras, de agrotóxicos e chumbo dos fumos de escape. Aquela estada em terra estrangeira também fora traumática. Fora vítima de violação e sabe-se lá se apanhara alguma doença. Depois de todas as provações, e já sem...

10/04/2024

O Apocalipse de Atouguia

  Atouguia era uma sibila neandertal que vivia na zona mais ocidental da atual Península Ibérica, 29 mil anos antes do presente. A sua vivência simples de recoletora, adaptada às condições climáticas de então, foi certo dia marcada pelo terror de um feroz ataque de esguios e sanguinários invasores. Fugiu, escondeu-se numa loca rochosa, ouviu os gritos desesperados dos seus irmãos. Assistiu em agonia à morte de todos os membros do seu clã, que, depois de esquartejados pelas lâminas de sílex dos atacantes, foram comidos, numa orgia de sangue e ferocidade, que durou vários dias. Obrigada pela...

10/03/2024

A última morada

  Respeita a minha última morada. Pelo teu exemplo, talvez respeitem a tua. Eburo estava indignado. A anta da sua família, com mais de 6000 anos, fora arrasada para plantar um amendoal. Ninguém o avisara que os mortos não se indignam. Nem têm nenhuma das outras inumeráveis emoções dos vivos. Mas, não era o único morto que não tinha consciência da impossibilidade da sua vitalidade psíquica. Comentou o desacato com familiares e amigos, mas não obteve mais do que encolheres de ombros. Parecia que todos já estavam habituados à falta de respeito pela integridade dos seus restos...