Para
Duarte, domingo era dia de passeio cultural, fosse qual fosse a
disposição de ânimo. Desde que se separara da mulher, podia
arrastar-se toda a semana pela casa, de pijama e sem banho, mas, aos
domingos, impunha-se arranjar-se e sair. Naquele domingo de início
de maio, resolveu ir até Belém e seguir o impulso do momento.
Começou por entrar no Centro Cultural de Belém. Percorria a
exposição temporária “1968: O Fogo das Ideias”, quando foi
interpelado por uma morena muito jovem — de talvez uns trinta e
poucos anos — que não reconheceu de imediato:
— Duarte!
Há quanto tempo! O que tens...
10/12/2023
10/11/2023
O condutor de rebanhos
Em 10.11.23
por joaquim bispo

Um
certo pastor de ovelhas foi imortalizado pelo grego Esopo, que contou
como ele se divertia a enganar os vizinhos, gritando “Lobo!” sem
justificação. De cada vez que gritava, os outros pastores corriam a
acudir, em vão. Tantas vezes os enganou que, um dia, vieram os
lobos, ele gritou “Lobo"!, mas ninguém o foi ajudar.
Ressabiado
com o desaire, vendeu terras e rebanho e foi viver para uma vila
distante. Instalou-se num casarão da rua principal — a Alameda
Atlântica —, rodeado por outras casas de gente bem instalada na
vida, mas com as traseiras para uma rua de casebres humildes — a
Rua...
10/10/2023
Um planeta B
Em 10.10.23
por joaquim bispo

— O
dinheiro que o Estado já meteu nos bancos, desde a crise de 2008,
dava para construir 100 hospitais — atirou Carlos, como quem bate
um trunfo na mesa de sueca. — O Público
diz que são dezoito mil milhões de euros.
Luís
e Carlos costumam encontrar-se no regresso a Odivelas e, ao longo do
tempo, criaram uma competição intelectual, para entreter a viagem
de metro: ver qual consegue apresentar a notícia mais fantástica. O
que também lhes permite ocupar as horas mortas no trabalho com
pesquisas e cálculos. Luís dá apoio às fotocopiadoras da
biblioteca da Faculdade de Letras e passou...
10/09/2023
Os vertiginosos dias de uma escritora diletante
Em 10.9.23
por joaquim bispo

Quando
a inspiração chegou, a escritora ainda dormia. Eram nove horas de
sábado.
Keravnós,
o muso relutante, já estava habituado a escritores. Com o seu ar
vagamente monástico, a fazer lembrar Afonso Cruz, sentou-se num
cadeirão de canto e esperou. Eram quase onze horas quando a
escritora apareceu, mole e olheirenta, e foi logo para o computador.
— Estás
com pica para escrever?
— Ah,
que susto! — sobressaltou-se a escritora. — Olá! Sim, mas
primeiro vou enviar uns mails, ver as notícias e consultar as
entradas no meu site. É só uns minutos.
Três
quartos de hora depois, o muso voltou...
10/08/2023
A Grande Extinção
Em 10.8.23
por joaquim bispo

— O
sol iniciava o percurso descendente sobre a área predominantemente
agrícola que será conhecida, sessenta e cinco milhões de anos
depois, por Lourinhã e se estende bem para dentro do espaço que
será mar no futuro. Em todos os ninhos urbanos terminaram já as
diligências alimentares do período zenital, exceto no ninho de
Albbano. Alddina mantinha quentes as fatias de ovos de anquilossauro
com caules tenros de rhynia, enquanto, inquieta, espreitava o
caminho, na esperança da chegada iminente do companheiro. A certo
momento, resolveu pedir ajuda ao filho de ambos, através do
comunicador.
—...
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