10/11/2019

A zorra

A vida de Anselmo Carvalho, sempre acompanhada por uma corrente de consciência palradora, decorria num ramerrame pontuado pela regularidade pendular das refeições domésticas, a vacuidade dos programas televisivos e a futilidade dos seus passatempos, em que avultava o sudoku. Há muito tinha deixado o interior para conquistar a grande capital, que muitas vezes se revelara uma amante perversa. “Porra!” acudia-lhe aos lábios quando se lembrava desses tempos de desenraizado. Na sua meia-idade, cultivava uma postura pouco ativa e vagamente agreste, como a árvore que lhe dava o sobrenome, e estava...