10/01/2016

Sem abrigo


O dia começou-me mal. Não ouvi o despertador e cheguei atrasado ao emprego. Isto numa sexta-feira, o dia em que saio mais cedo para ir à consulta do psicanalista a Lisboa.
Parti de Castelo Branco às quatro da tarde e às seis já estava a chegar ao aeroporto mas, a partir daí, o trânsito estava complicado. Perto das sete, a hora da consulta, telefonei do Campo Grande ao doutor, a pedir desculpa pelo atraso. Às sete e vinte, já desvairado, encostei o carro como pude, a meio da 5 de Outubro, e apressei o passo para o consultório, que é junto ao Saldanha.
A consulta foi pouco produtiva. Não consegui soltar-me e verbalizar todas as queixas que tenho da vida, desde que a Noémia me deixou. Quando ia para pagar, dei-me conta que tinha deixado a carteira no compartimento da porta do carro, onde a meti ao pagar a portagem. Fiquei a dever a consulta.
Voltei ao carro, mas não o encontrei. No café em frente, confirmaram-me que tinha sido rebocado. Na pressa, tinha-o posto num espaço reservado a deficientes.
De repente, vi-me numa situação muito desconfortável: só tinha um porta-moedas com 4 euros e 40, eram nove da noite, estava a duzentos quilómetros de casa e não tinha onde dormir. Enquanto pensava o que havia de fazer, comi uma sandes de queijo com uma imperial e um café. Fiquei com 1 euro e 70.
Lembrei-me de um amigo da tropa, o Marques, que, quando me encontra, insiste para o ir visitar a Campo de Ourique. Liguei-lhe, mas, assim que começou a chamar, acabou-se a bateria do telemóvel. Numa lista telefónica, por exclusão de partes, encontrei a morada. Meti-me no Metro até ao Rato e depois fui a pé. Quando dei com a rua Tomás da Anunciação, eram já quase onze da noite. Toquei, toquei à campainha, mas ninguém respondeu. Se calhar tinham saído de fim-de-semana.
Voltei para trás, meio acabrunhado. Sem saber para onde ir, segui a linha do elétrico por S. Bento até ao Chiado. Já não cirandava pela cidade desde os tempos de tropa, há uns vinte e tal anos. Aqui e ali, vi pessoas a dormir enroladas em cobertores e metidas em caixas de cartão. Como se teriam deixado chegar àquilo? Um despedimento inesperado? Um endividamento incontrolável? Uma desistência abismal? Um indivíduo de barba hirsuta veio pedir-me «uma ajuda». Apeteceu-me dizer-lhe «hoje não pode ser», como habitualmente, mas acabei por lhe dar vinte e cinco cêntimos. Pela primeira vez, sentia uma identificação estranha com aquelas pessoas. Deambulei pela Baixa a ver as iluminações de Natal. Era minha intenção continuar a andar até que amanhecesse mas, ao contrário do que esperava, comecei a sentir-me cansado. Subi a Almirante Reis e toquei em três pensões. Uma estava cheia e as outras duas não me aceitaram sem identificação ou sem pagar adiantado.
Pela primeira vez, também não tinha onde dormir. Para piorar as coisas, começou a chuviscar. Estive um bocado debaixo do toldo de uma montra de móveis. Depois, encostado às paredes, meti por uma transversal da Morais Soares e entrei na porta de um prédio que estava encostada.
Fiquei parado na penumbra, atento a todos os ruídos. Do alto das escadas ouvia-se, de vez em quando, um ruído indefinido. Cheirava a mofo. Sentei-me nos degraus de madeira e aos poucos a fadiga invadiu-me. Estive ali muito tempo de pernas encolhidas, dobrado sobre os joelhos, com o rosto apoiado nas mãos abertas, enquanto o frio se espalhava por todo o corpo. Apesar de estar cheio de sono, só conseguia adormecer por curtos períodos, devido ao frio e à posição. Apetecia esticar-me. A meio da noite, reclinei-me de lado nos degraus, mas as arestas magoavam. Fui mudando amiúde de posição. Tiritava. Os pés estavam gelados. Ansiava pela manhã.
De repente, meio estremunhado, ouvi ruídos de passos a descer as escadas. Em poucos segundos, estava confrontado com um cão grande a ladrar furiosamente e a fazer avanços para me morder. O que me valeu foi o dono e a trela com que o segurava. Envergonhado, saí.
Tinha parado de chover. Subi a rua até ao alto da Penha de França. O casario acinzentado começava a ganhar cor. Do lado de Xabregas, o céu tingia-se de fortes tons de vermelho. Em breve, a enorme bola solar fez a sua entrada triunfal. Há quanto tempo não via um nascer de Sol! Fiquei um bocado a saborear essa extraordinária visão e a sentir o corpo a deleitar-se com o pouco calor que transmitia.
Depois, comecei a encaminhar-me para o parque de carros rebocados de Sete Rios. Na Duque de Ávila, encontrei um café aberto. Perguntei quanto custava um galão.
Oitenta!
E se for setenta? ― murmurei eu, de porta-moedas aberto.
O homem mirou-me e começou a preparar o galão. Deve ter reparado na barba por fazer, nos olhos remelados, na roupa amarrotada e empoeirada de roçar nas escadas. Fui à casa de banho, aliviei a bexiga, lavei os olhos e passei as mãos molhadas pelo cabelo. Daí a pouco, com o calor do galão a inundar-me o estômago, sentia-me pronto para outra. Salvo seja! Espero que nunca mais volte a não ter onde dormir. Nem imagino pelo que passa quem vive anos sem abrigo.
Ao resgatar o carro, fiquei a saber que passei uma noite horrível sem necessidade: afinal, o parque de rebocados só fecha à meia-noite. Nesse início de 2009, apeteceu-me gritar uns palavrões.

Joaquim Bispo

* * *

(Este conto foi publicado no número 14 da revista literária virtual Samizdat, de março de 2009.)

* * *

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2 comentários:

  1. Bispo, gostei bastante do tom do conto. Porque há dias em que realmente não nos devíamos levantar da cama, quanto mais sair de casa... Mas o olhar com que se vivem os momentos menos bons, construíram uma estrutura narrativa que alicia a ler. Espero que também tenhas decidido escrever para as " Histórias da Casa ". Vamos falando. Beijos.

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  2. Obrigado, Ana! Quem escreve sempre se encontra. Abraço!

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