Mostrar mensagens com a etiqueta rochas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta rochas. Mostrar todas as mensagens

10/02/2021

A talentosa professora Camila



A anterior confiança de Alcides vacilava. Acreditara que, apesar de toda a conjuntura desfavorável, seria possível a um licenciado em Construção e Conservação de 21 anos encontrar trabalho na terra da Merkel. Infelizmente, faltava-lhe uma disciplina para terminar o curso. A professora de Patologias da Pedra ameaçava não lhe dar nota para passar.

É certo que tinha feito um ano com muito namoro e muita cerveja, pelo que ambos os testes deram negativa. Até maio, no entanto, confiava que o seu charme e alguma melhoria no trabalho escrito alterassem o rumo negativo. Quando saiu a fraca nota do trabalho, foi falar com a professora, uma morena de uns quarenta e poucos anos, de cabelo curto e seios cheios, que ele costumava comer com os olhos nas aulas, explicando-lhe que o seu futuro estava dependente apenas daquela disciplina e pedindo-lhe, insinuante, que não o fizesse voltar no ano seguinte. Ela avaliou a importância do problema com um olhar simpático, quase cúmplice.

Alcides, eu não quero chumbar ninguém, mas você está com uma nota muito baixa. E estamos em meados de junho, as aulas já acabaram; já não há tempo para uma improvável recuperação. O que acha que eu posso fazer?

No momento, Alcides estava disposto a fazer qualquer coisa para salvar o ano e tudo lhe parecia possível.

Professora, dê-me uma semana. Depois pode fazer-me a prova que quiser.

Foi uma semana arrasadora. Levantava-se pelas sete e lia tudo o que encontrava da bibliografia até perto da meia-noite, só com intervalos para comer. Andava com os olhos como os dos cachuchos, de tanto queimar as pestanas.

Na tarde do sábado seguinte, Alcides compareceu na morada indicada, uma pequena vivenda da encosta de Pedrouços. Um jardinzito separava a porta, da rua.

A professora Camila recebeu-o cordialmente, convidando-o de imediato para lanchar. Vestia-se de maneira informal: um polo amarelo de decote em bico, que lhe realçava o peito, e umas calças leves pelo meio da canela. Camila encaminhou-o para a cozinha, para não o deixar sozinho enquanto preparava o chá.

Estudou muito, Alcides? — lançou sorridente.

Sei tudo na ponta da língua, professora. Vai ver! — respondeu ele, sincero.

Instalaram-se na pequena mesa da cozinha, à frente de um bule de chá e duas torradas.

O seu marido não lancha connosco? — quis saber Alcides.

Não; ele afinal saiu ontem para um congresso e só volta amanhã à noite. Somos só os dois — adiantou, com um sorriso talvez neutro, talvez não.

Alcides, como bom entendedor, ficou alerta para quaisquer indícios propiciadores daquela oportunidade potencial. Talvez por isso lhe tenha parecido que Camila espalhava a manteiga na torrada de maneira um pouco lasciva. E bebericava o chá pegando na chávena com ambas as mãos e fazendo um biquinho com os lábios. Estar a sós com a professora que tantas vezes desejara, em ambiente não de intimidade, mas ainda assim de privacidade, espicaçava-lhe os instintos. «Será que vou ter sorte?», divagava furtivamente.

Então, vamos começar? — inquiriu Camila, convidando o aluno para a sala.

Um pouco nervoso, mas confiante, Alcides instalou-se num maple, enquanto a professora se sentou no sofá em frente.

Como combinámos, Alcides, é preciso que eu fique com a certeza de que você está bem seguro da matéria, para conseguirmos reverter a situação. Está calmo e concentrado?

Ao aceno afirmativo de Alcides, pensou numa pergunta básica e lançou:

O que são rochas?

Alcides baixou os olhos procurando a concentração que se esbatera quando Camila, ao pensar na pergunta, baixara a cabeça e o tronco, expondo um pouco mais de pele, no decote.

São sistemas químicos inorgânicos. Formaram-se num determinado ambiente geológico e refletem o equilíbrio termodinâmico atingido na fase de formação. (…) Têm composição química razoavelmente bem definida, mas em proporções variáveis, pelo que não há duas rochas iguais.

Quais as tipologias mais frequentes? — continuou Camila, após a mesma flexão de tronco.

Alcides, embora atento à pergunta, não conseguiu evitar que os olhos se abandonassem ao vislumbre daquela alvura láctea. Demorou um pouco a iniciar a resposta.

Sabe a resposta ou passamos a outra? — condescendeu Camila, após uns segundos.

Não, não! — reagiu Alcides. — Em peso, a quarta parte da crusta terrestre é composta por silício e metade por oxigénio. Os minerais mais abundantes são os silicatos, nas ígneas (granitos e basaltos), sedimentares (argilas, xistos e grés) e metamórficas (gnaisses e micaxistos), seguidos de longe pelos carbonatos, nas sedimentares (calcários) e metamórficas (mármores).

Muito bem! Que rochas predominam nos monumentos portugueses?

A concentração de Alcides baqueava. Aquelas rotundidades anunciadas estavam prestes a condená-lo. Baixou os olhos a tentar recompor-se, mas entrara numa batalha interior, como um computador bloqueado por excesso de tarefas.

Alcides, você prometeu-me que ia preparar-se! O que se passa?

O jovem, encurralado, resolveu abrir o jogo.

Professora, desculpe, mas não consigo concentrar-me — declarou, apontando com os olhos para a origem da perturbação.

Camila olhou para o próprio decote.

Oh, desculpe. De qualquer modo, na vida profissional temos de saber ultrapassar certas pequenas distrações. Quer que me tape? — perguntou, sincera, puxando o decote para cima. Após a hesitação de Alcides, perguntou com um sorriso irónico: — Ou quer que me destape?

Alcides leu a pergunta como uma das tais oportunidades que podem render benefícios sensuais, se não forem desperdiçadas.

Posso escolher? — arriscou, com um sorriso cúmplice. — Podíamos fazer uma espécie de strip-poker! — adiantou, de olhar brilhante.

Camila ficou uns segundos calada a avaliá-lo. Há muito tinha percebido como era malicioso aquele aluno. Depois levantou-se e foi ao bengaleiro buscar um cachecol.

Acho que o melhor é tapar-lhe os olhos, para não se distrair — anunciou, enquanto lhe enrolava o pano em torno da cabeça, atando-o atrás.

Ok, professora — concedeu Alcides, desistindo de expectativas mais ambiciosas, que tinham chegado a dominá-lo nos últimos momentos. — Já vi que não tenho sorte…

Alcides, você é danado! A sorte não cai do céu; constrói-se todos os dias — ralhou docemente, fazendo-se desentendida. — Se calhar foi um ano com brincadeira a mais. Mas eu não acho mal, se o estudo não for de menos. O importante é atingir o objetivo. — Meditou um pouco. — Sabe qual é o meu objetivo, neste momento? Conseguir que você acerte as respostas às perguntas que lhe quero fazer. Mas, por falar em sorte, também não desgosto de jogos atrevidos — disse a sorrir. — Vamos lá experimentar esse póquer maroto. Uma peça de roupa por cada resposta, é isso?

Maravilha, professora! Já me agrada mais.

Uma coisa lhe prometo: se você acertar as respostas todas, ganha uma prenda no fim…

Bora lá, professora! — rejubilou Alcides, a abarrotar de entusiasmo por baixo do cachecol.

Vamos lá, então. Que mármores coloridos da península de Lisboa conhece?

O encarnadão de Pêro Pinheiro, o amarelo de Negrais, o azul de Sintra e o negro de Mem Martins.

Boa! Lã vão as sabrinas. O que é a meteorização?

Ao ouvir o som das sandálias a cair, Alcides percebeu que seria vantajoso acompanhar e tirou também os ténis, antes de responder:

Quando a rocha é arrancada à pedreira e colocada sob o ataque de agentes externos, como o ar, as diferenças de temperatura, a água — com as consequentes oxidações, expansões e dissoluções —, as redes cristalinas da rocha são destruídas ou rearranjadas. É a essa tentativa de reequilíbrio que chamamos meteorização. A desagregação é o equilíbrio final que a rocha de um edifício atinge.

Boa! Essa bem merece a camisola. Fora! Fale-me da corrosão.

Ainda mal pressentira que Camila despia o polo e já Alcides tirava a sua t-shirt. Cheio de confiança, não hesitou:

A corrosão avança nos pontos vulneráveis do sistema cristalino. Os cristais reais não são perfeitos; podem conter dezenas de milhões de defeitos por centímetro cúbico: deslocações, lacunas, impurezas. Tais defeitos representam outros tantos constrangimentos físicos. Ao nível do grão, uma rocha é tanto mais resistente quanto mais fino for o seu grão.

Muito bem! — incitou Camila, sem dar a entender que o seu olhar, à solta, se alongara no desfrute do tronco robusto e algo peludo do aluno. — Calças fora. O que são crostas negras?

Alcides, de coração acelerado, tirou as calças de ganga. Estava num estado de alguma agitação, visualizando a professora com o belo peito a sobressair do sutiã e em cuequinhas.

São zonas enegrecidas nas superfícies das pedras, constituídas por depósitos de sais e de partículas da poluição da atmosfera, as quais produzem gesso a partir do dióxido de enxofre e do ácido sulfúrico destas, na sua interação com os substratos siliciosos e carbonatados.

Certo! Falta uma. Qual a origem dos oxalatos de cálcio nas superfícies dos edifícios?

Alcides ouviu o bater dos fechos do sutiã sobre a mesinha de apoio. A informação química desencadeada percorreu o seu corpo a alta velocidade, levando ordens aos corpos cavernosos. Alguma coisa em si passou a forcejar para se libertar. Alcides ofegava. Era demasiado bom o que lhe estava a acontecer. E sabia a resposta seguinte.

Os oxalatos, visíveis como formações relevadas, não têm origem em deposições externas sobre a pedra, mas na transformação dela. Devem ser associados à segregação de ácido oxálico pelas raízes de fungos, algas e líquenes, na sua atividade bioquímica sobre as rochas carbonatadas.

Muito bem, Alcides, muito bem! Pode tirar o pano dos olhos.

Yes! — gritou o felizardo, saltando e arrancando de repelão o cachecol, desejoso de passar à prometida fase seguinte. Inexplicavelmente, a professora continuava vestida. Perante o rosto de surpresa e desapontamento do aluno, Camila sorriu, quase maternal, escondendo alguma perturbação.

Ainda bem que o cachecol permitiu que não se distraísse mais. Correu bem, não acha? Está satisfeito?

Satisfeito é dizer pouco. É evidente que estou muito… mesmo muito contente — abandalhou Alcides, ainda confiante, exibindo os bóxeres tensos. — Mas a festa vem agora, não foi o que prometeu, professora?

Prometi-lhe uma prenda, sim. Quere-a já? — indagou, um pouco matreira.

Ó professora, é o que eu mais quero — inflamou-se Alcides. — Sempre a desejei!

Está bem! Eu também acho que é a coisa mais importante para si, agora. Aqui tem! — E estendeu a Alcides uma folhinha com a nota final da disciplina: 11. — Tudo de bom para si, lá na Alemanha! E beijinhos à senhora Merkel — riu.


Joaquim Bispo


*

Imagem: Escultura de Francisco Simões.

*

(Este conto integra a coletânea Bad Girl — Contos Eróticos, Silkskin Editora, Lisboa, 2015.)

* * *