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10/11/2018

Saramago em Concerto




Na última passagem de ano, desloquei-me com o grupo familiar habitual ao espaço fronteiro à Torre de Belém, onde a autarquia prometia música e fogo de artifício. A surpresa foi muito agradável. Até à meia-noite, atuou um conjunto muito curioso: formado por três violas, bateria, piano e três metais, só tocam músicas dos Beatles, copiam-nos em tudo, até nas roupas. Dão pelo nome de “Get Back Beatles” e são brasileiros. O esforço rende resultados: abstraindo-nos um pouco, quase acreditamos que estamos a ver e a ouvir os autênticos, quarenta anos depois, em Lisboa, todos vivos e jovens.
Admirei-os por terem conseguido arranjar um nicho de mercado original e rendoso.
Este revivalismo vem acontecendo com outras formulações. Tomei conhecimento de que, num clube privado, um grupo fazia a passagem de ano só com a banda sonora de uma novela brasileira. Uma passagem de ano temática.
Sempre atento às oportunidades de ganhar dinheiro com a literatura, dei por mim a pensar como se aplicaria o conceito ao ramo literário:
Seria possível encher um pavilhão, a pagar, para ver um autor a criar um conto? Várias câmaras captariam a folha onde o escritor alinharia as palavras, apresentando em grandes ecrãs panorâmicos com que palavras começava, quais cortava, mostrando o conto a nascer e a crescer, paulatina, mas inexoravelmente. Outras câmaras mostravam que apoios consultava, que palavras procurava nos dicionários, que partes ia aproveitando. Seria de evitar que o escritor usasse computadores, que embora tornassem a história visualmente mais limpa, fariam desaparecer as partes rejeitadas, que no papel se conservam riscadas, como cicatrizes do lutar literário. Quando muito, uma secretária, bonita e eficaz, iria passando a computador, e mostrando em ecrã próprio, a história num evoluir limpo. O frenesim no público aumentaria, à medida que algumas variantes da história eram abandonadas, nem sempre recompensado com uma variante mais interessante. Por fim, a história atingia o seu fim e o público rebentava em aplausos, a cujos “bravo” e “bis” o autor se mostrava surdo.
Numa fase de esgotamento da receita, o espetáculo podia incluir, como novidade e complemento, a apresentação em ecrãs próprios do desenrolar da tempestade cerebral do autor, através de sensores encefalográficos, podendo o público assistir ao saltitar constante da atividade cerebral, acendendo uma ou outra área, convenientemente identificadas pelo nome e pela atividade que desenvolvem.
Daria para encher um pavilhão com dez mil pessoas?
Para um público mais restrito e conhecedor — em sala-estúdio —, o escritor podia produzir uma história “à maneira de” um autor conhecido. A história seria totalmente nova, mas faria lembrar, irresistivelmente, o autor de referência. Para os melhores resultados, não faltaria quem levantasse a suspeita de que o escritor se limitara a transcrever um inédito desconhecido do autor emulado, conseguido sabe-se lá por que ínvios meios.
De qualquer modo, não se trataria de um paralelo perfeito com estes “Beatles”. O que eles fazem não é criar música com o estilo “Beatles”, nem recriar, com estilo próprio, as músicas originais. Isto seria escrever uma história conhecida com palavras próprias. Eventualmente, introduzindo uma peripécia, ou alterando outra, de maneira a potenciar a emoção que a história já transmite. O público que conhecesse a história iria achar que esta versão era mais épica do que a original, por exemplo, ou que não respeitava a intensidade da relação entre os protagonistas. Uma opção a considerar.
O que eles fazem é imitar os Beatles e as suas músicas, ao mais pequeno pormenor. O equivalente literário seria um escritor transcrever, palavra por palavra, uma obra literária de um monstro das letras. Onde residiria o interesse do público? Talvez a confirmar a sobreposição perfeita da história. Os mais puristas trariam exemplares da obra em execução e comparariam, ponto a ponto, o virtuosismo do escritor-reprodutor. Não se lhe exigiria, claro, que nunca tivesse lido a obra — como Borges fez com Pierre Menard —, mas que não lhe escapassem as reticências cheias de segundos sentidos, nem o rigor dos itálicos. Depois dos aplausos, haveria sempre alguém que comentaria: «Viram onde ele pôs o travessão, quando Gregor Samsa percebe que é um inseto? Já vi o Fritzl executar este conto com muito mais virtuosismo, sem falhar uma vírgula. Não há executante de Kafka como ele!»
Pensando bem, a reprodução em literatura tem o seu maior público na leitura. Basta comprar o livro; mas por que não ir ao concerto? Já imaginaram um concerto de Saramago ou uma audição de Machado de Assis? Aí, um diseur pode obter algum efeito de arrebatamento no ouvinte: a clareza cristalina da voz, as entoações insinuando significados, as pausas dramatizando silêncios — alguém que transmita toda a potência dos diálogos, como quando o cantor arranca emoções da audiência, que faça o pensamento do público vogar por regiões etéreas, quando percorra os bons nacos de prosa narrativa, qual solista a desenvolver a parte instrumental.
Com o fenómeno das editoras antropófagas — que se fazem pagar edições de autor, que fingem distribuir —, a solução pode passar pelos concertos. Quem sabe se alguns escritores iniciantes, mas muito promissores, virão a obter divulgação e início de reconhecimento público, fazendo a primeira parte de grandes concertos de escritores famosos?

Joaquim Bispo
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Imagem: Fico Molina, José de Sousa Saramago, sem data.
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(Esta crónica foi publicada no número 25 da revista literária digital Samizdat, de fevereiro de 2010.)
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