10/05/2015

A Luz de Delft



O que vou contar começou na semana após o Natal, ao chegar a casa, cerca das cinco da tarde. Depois de me pôr à vontade, preparei um copo de leite-com-chocolate morno, juntei um pacote de bolachas recheadas e fui lanchar para a sala, enquanto via televisão.
Foi já no fim do lanche que o vi: o carteiro de Pablo Neruda, como eu me lembrava dele no filme, estava mesmo atrás da rapariga que lê uma carta junto a uma janela aberta, na reprodução pintada de Vermeer, que tenho por cima da escrivaninha. Primeiro, fiquei estático, sem saber bem o que pensar. Depois, observei as bolachas e cheirei o leite-com-chocolate, mas pareceram-me em bom estado!
Levantei-me e mirei-o de perto. Estava com aquele ar ingénuo e satisfeito de quem finalmente sabe o que são metáforas. E parecia bem implantado na camada cromática, como se tivesse sido pintado ao mesmo tempo que a mulher. Esquecendo o anacronismo do vestuário, não ficava mal de todo no quadro. Aparentemente, tinha sido ele a trazer a carta à jovem holandesa de Vermeer.
Bem”, pensei, “é melhor não dizer nada a ninguém, sem dormir sobre o assunto”. E foi isso que fiz no sofá, a meio de um diagnóstico delicado do Dr. House.
Quando acordei, a primeira coisa que fiz foi olhar para o quadro. O carteiro já lá não estava. Fiquei aborrecido. Frustrara-se a hipótese de mostrar o fenómeno aos amigos. Logo a seguir, fiquei preocupado. O que quer que tivesse perturbado a minha perceção devia estar em mim e podia ser um grave problema de saúde.
Resolvi fazer umas pesquisas na Net sobre alterações de perceção. Um site francês advertia que níveis elevados de açúcar no sangue podem provocar alucinações. Nessa noite, dormi mal.
No dia seguinte, via-se uma alcoviteira de Murillo assomando à janela, a falar com a rapariga da carta. E nos outros dias sucederam-se outras imagens de menor dimensão: um jarrão azul com flores, de Cézanne, junto à fruteira; uma joia a imitar Lalique no cabelo da jovem; o gato da Olímpia de Manet, sobre a tapeçaria; eu sei lá! Isto, apesar de eu ter começado a conter-me nas sobremesas e a lanchar só fruta fresca.
Entretanto, fui ao médico. Impôs-me uma dieta rigorosa sem açúcares e receitou-me uns comprimidos de lítio. Disse que devo ter uma predisposição genética visionária que foi potenciada pelos excessos da quadra natalícia. Para eliminar todos os fatores desencadeantes, aconselhou-me ainda a parar com quaisquer leituras sobre arte durante uns tempos. Certo é que, passadas umas semanas, deixei de ver imagens estranhas a perturbar o recolhimento da holandesa de Vermeer na leitura da sua carta.
Quando já dava por seguro que o meu problema estava sanado, certa manhã, dei pela falta da própria mulher do quadro. Calculam como fiquei! O coração acelerou-se e quase entrei em pânico. Se antes era açúcar, o que seria agora?!
Telefonei logo para o meu médico, que também se mostrou alarmado e me disse que eu, provavelmente, teria abusado da dieta. Mandou-me tomar imediatamente um pacote de açúcar dissolvido em água e que fosse ao consultório dele no dia seguinte. Tomei o que ele mandou e estaquei pensativo a olhar para o quadro deserto. Que intrigante a situação!
Então, reparei nuns pequenos vultos refletidos na vidraça do quadro, agora noutra posição. Eram-me familiares. Apesar de minúsculos, não deixavam margem para dúvidas – eram as silhuetas da holandesa desaparecida e do carteiro de Pablo Neruda, passeando de braço dado numa praça de Delft!
Instantaneamente, entendi todo o percurso de aproximação e sedução: o primeiro contacto, o recado influente, as flores, a prenda…
No dia seguinte, já não fui ao médico. Nunca mais lá voltei. Percebi que o amor é mais forte que quaisquer dietas ou comprimidos. E encontra sempre o seu caminho.

Joaquim Bispo

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Ilustração de Rodolfo Bispo: https://www.facebook.com/rodolfo.bispo.77


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(Este conto foi publicado no número 16 da revista literária virtual Samizdat, de maio de 2009)

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10/04/2015

O atraso da primavera




Há muito, muito tempo, quando os homens viviam ao ritmo das estações, houve um ano em que a primavera se atrasou para além do habitual. Passou março, abril ia adiantado e nem sinais dela.

O verão, lá dos pomares que habitava, olhava, olhava e os campos que vislumbrava mantinham-se desolados, gelados, batidos pelo vento. Temendo pela eclosão das sementes e preocupado com o que pudesse ter acontecido à primavera, resolveu procurar o outono para lhe comunicar o que estava a acontecer e decidirem o que fazer. Muniu-se de uma coroa de raios solares e pôs-se a caminho. Em breve atingiu as florestas onde o outono vivia. Este ficou muito preocupado com o que o verão lhe contou e sugeriu que fossem falar com o inverno, que vivia numa gruta rochosa numa montanha a norte. Talvez ele soubesse alguma coisa ou pudesse ajudá-los a procurar a desaparecida. Pôs pelos ombros uma ampla capa de folhagem castanha, vermelha e amarela e puseram-se a caminho. Andaram, andaram por campos vazios e silenciosos e prados de plantas cinzentas e murchas. O vento assobiava gélido e selvagem. A progressão ia-se tornando mais penosa, por serras escalvadas e desfiladeiros atulhados de neve. Ao fim de uns dias, chegaram finalmente à caverna do inverno.

Entraram. O frio parecia mais intenso, o escuro era medonho. Ao fundo de uma galeria, encontraram o inverno agitando as suas asas de morcego sob o seu manto de nuvens negras, atarefado com o funcionamento do enorme fole que soprava os ventos agrestes por sobre os montes e os vales.

Inverno! — bradou o outono, que era quem tinha mais contactos com ele — já viste a primavera este ano?

O visado virou-se lentamente e, de cabeça baixa, mirou os visitantes por baixo das sobrancelhas nevadas.

Ó entes tresloucados, o que fazeis por estas paragens? Abrigai-vos aí nessa côncava, que não estais habituados a estes frios.

Não te preocupes connosco, que estamos protegidos — a voz possante e clara do verão encheu a caverna. — O que nos preocupa é que já estamos a chegar a maio e ainda não vimos a primavera.

O inverno imobilizou o fole e aproximou-se dos visitantes.

Não te abespinhes, verão! Sei que és jovem e sanguíneo mas a hospitalidade é um dos meus princípios. Sim, já a vi. A pobrezinha está lá dentro, deitada. Mas, descansai um pouco. Sentai-vos.

Que lhe fizeste, velho perverso? Abusaste dela? — a coroa do verão faiscava.

O inverno olhou-o com indulgência. Juntou uns cavacos e acendeu uma fogueira.

Esqueces-te que é minha filha? — murmurou. — Está um pouco atrasada, só isso. A juventude não tem o sentido das responsabilidades! — a sua voz parecia denotar algum desapontamento, enquanto lhes servia um ponche quente.

O outono, mais cordato, sorveu um trago e indagou:

Mas diz-nos, inverno, que se passa com ela para deixar assim as plantas e os animais em completa desorientação?

Ela esteve no outro hemisfério, como faz todos os anos, mas desta vez parece que conheceu lá alguém interessante — um tal a quem chamam El Niño — e só voltou há meia dúzia de dias. Vinha exausta e toda alvoroçada, de modo que eu achei melhor ela descansar uns dias antes de reiniciar as suas tarefas. Esperai que eu vou chamá-la!

Enquanto se afastava para a zona mais escura da caverna, o verão mostrava-se inquieto:

Acreditas nele?

Não sei. Vamos esperar. Mas, se for verdade, acho incrível que a menina tenha ficado no bem-bom, para lá da licença, e que, chegada aqui, o papá ainda ache que a filhinha precisa de descansar. Não é espantoso?

Claro! Eu acho que isto não pode continuar! Ou bem que se assumem compromissos ou não!

Pouco depois, entrava a jovem, deslumbrante num vestido de pétalas de amendoeira e uma tiara de flores amarelas de giesta que acentuavam o azul celeste dos olhos.

Oh, que queridos! Preocupados por minha causa! — beijou ambos, ao mesmo tempo que lhes fazia uma festinha no rosto. — Estava cansadíssima. Foram umas férias e tanto! Fiz falta?

Afastada a crispação e posta a conversa em dia, a primavera despediu-se. Com as suas asas brancas elevou-se nos ares, sob o olhar embevecido do trio. As nuvens negras rasgaram-se e dissiparam-se, o céu azul apareceu e o sol beijou os prados, os pomares e os bosques. Do alto, começaram a cair pétalas de todas as cores que esvoaçavam e pousavam delicadamente sobre todas as plantas. Os talos esqueléticos em que elas tocavam começaram a lançar rebentos que se abriam em folhas e flores. Cheiros adocicados flutuavam ao sabor da brisa suave. Nuvens de abelhas, besouros e gafanhotos cruzavam os ares em azáfamas surpreendentes. Passarada de todos os tamanhos e cores revoluteava a alimentar-se, a acasalar, a construir ninhos. Os seus inúmeros chilreios misturavam-se com as cegarregas de grilos e cigarras e o coaxar das rãs.

A temperatura era agora fresca mas amena, os campos fervilhavam de cores e vida e os homens estavam felizes. Atrasada, mas fulgurante, tinha chegado finalmente a primavera.

 
Joaquim Bispo

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Ilustração de Rodolfo Bispo: https://www.facebook.com/rodolfo.bispo.77

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(Este conto foi publicado na revista CAIS, em maio de 2007, e no número 15 da revista literária virtual Samizdat, de abril de 2009)

10/03/2015

Os ratos




Pelo Carnaval, encontrei um amigo que já não via há uns anos. Falou-me com entusiasmo de uma compra que entretanto fizera — uma casa no campo que, segundo disse, era um elixir miraculoso para a pressão da vida na cidade. Satisfeito com o meu interesse, acabou por insistir em me emprestar a casa, para lá ir passar uns dias. Eu aceitei com agrado e muita curiosidade. Mas o meu amigo avisou-me:
— Olha que é capaz de haver lá ratos! Da última vez que lá estive, havia.

Na manhã do sábado seguinte, rumei às Beiras, com a minha mulher. Mas antes preveni-me. Fui à drogaria e comprei uma embalagem de pastilhas de raticida.
Efetivamente, o sítio é lindíssimo: muito arborizado, junto ao espelho de água de uma barragem, com a sombra azulada de uma serra, em fundo. Feito de encomenda para um fim de semana romântico. E a vivenda tem o encanto das casas tradicionais: antiga, toda em granito, com lareira, e quartos forrados a madeira.
Mas, realmente, está infestada de ratos. Na cozinha, havia restos de embalagens que o meu amigo lá teria deixado — pacotes de sumos, garrafas plásticas de refrigerantes, caixas de flocos — tudo misturado com xixi e caganitas. O aspeto da cozinha era desolador.

Foi uma tarde de sábado pouco romântica. Limpar toda aquela porcaria, provocou-nos sentimentos perversos de vingança. À noite, antes de adormecer, distribuí uma meia dúzia de pastilhas, pelos cantos da cozinha, sentindo o rancor prestes a ser saciado. De noite, uma vez que acordei, apercebi-me, nitidamente, de um restolhar na cozinha. Virei-me para o outro lado, com um sorriso consolado.

Ao romper do dia, acordei sobressaltado. Ouviam-se guinchos, correrias, ruídos vários, vindos do forro da casa. Era um chinfrim enorme. Como se um bando de gatos perseguisse os ratos, numa luta feroz e prolongada. Não se assemelhava nada à débil agonia de dois ou três ratos envenenados. Parecia até que o reboliço aumentava.

A minha curiosidade não me deixou continuar na cama. Como havia um alçapão no teto do quarto, fui buscar um escadote e, um pouco receoso, espreitei.
O que vi não pode ser completamente transmitido por palavras. Uma dezena de ratos copulava, freneticamente, num desespero alucinado. Corriam. Rebolavam. Saltavam. Trocavam continuamente de parceiro. Formavam-se mesmo, molhos de três ou quatro, em tentativas de cópulas improváveis. No soalho, jaziam já uns quatro, mortos por exaustão.

Fiquei um minuto atónito, a olhar para aquele cenário, sem compreender o que estava a acontecer; a perguntar-me porque é que os ratos se estavam a comportar daquela maneira. 
A explicação atingiu-me então como um soco. Fiquei gelado. Devo ter feito um esgar de horror, ao tomar consciência da incrível estupidez da minha troca de embalagens. Do alto do escadote, olhei para a mesa-de-cabeceira. Lá estava uma pastilha azul de raticida, que eu estive quase a tomar, se não fosse a enxaqueca providencial da minha mulher!

Joaquim Bispo
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Ilustração de Rodolfo Bispo: https://www.facebook.com/rodolfo.bispo.77

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(Este conto foi o primeiro que publiquei na revista literária virtual Samizdat, no número 7, de agosto de 2008)