As desavenças já vinham de longe. O avô de Verdasco sempre se queixara que um vizinho, um tal Gadanho, tinha uma atitude manhosa e traiçoeira nas relações com os vizinhos. A horta que depois o pai cultivava nos limites da freguesia de Lograssol, perto do Luso, sofria das manobras mesquinhas de Gadanho, que ia raspando a base da estrema um pouco sobrelevada, que, ao longo de muitos invernos, se ia desmoronando pouco a pouco, acrescentando área de terra à do manhoso e subtraindo-a do vizinho. Muitas discussões depois e de dois inícios de agressões que os familiares conseguiram suster, o ambiente tornara-se de tal modo desagradável que o pai de Verdasco abandonou mesmo o cultivo daquela horta, para nem ver o que Gadanho fazia.
Verdasco fora criado com aquele conflito na estrema do quotidiano e, depois da morte do pai, herdara aquela horta e aquela desavença, mas conseguia não pensar muito nisso, nem queria, até porque vivia em Penacova, a uma vintena de quilómetros. Só lá ia pela altura das ameixas e das peras, colher o que as árvores queriam dar. Mas, de cada vez, conseguia perceber que Croncho, o filho de Gadanho, herdara o terreno do pai e a mesma postura manhosa. Uma vez reparava que Croncho avançara a estrema meio metro para dentro do caminho comum; outra que encaminhara a regueira das chuvas para o seu terreno, que lhe arrastava terras; ou atravessava o seu terreno com o trator, fazendo novo caminho aos poucos. Não entrava em confrontos nem discussões, mas ia remoendo o desagrado. Jurava, para si, que um dia lhe iria calcar a sepultura.
Uma noite, cabeceando na Internet, Verdasco esbugalhou os olhos de surpresa: uma nota da funerária do Luso anunciava a morte e o funeral de Croncho. Não dizia de que morrera.
Depois de muito meditar e reviver as arrelias que o avô e o pai tinham amargado com aquela família e o que este membro continuava a fazer, Verdasco resolveu ir ao funeral e confirmar com os seus olhos que aquele miserável não voltaria a fazer-lhe sacanices.
Era uma terça-feira de fevereiro, Verdasco não foi à igreja; esperou no estacionamento do cemitério. A comitiva era reduzida: três pessoas, que não conhecia, além do padre e do cangalheiro. Croncho estava divorciado e a mulher e filhos estavam para França. Verdasco aproximou-se, mas manteve uma distância reservada. Ouviu as orações do padre, viu o cangalheiro e o coveiro descer a urna e este começar a lançar pazadas de terra para cima. Ninguém chorou. Quando os três acompanhantes se afastaram, Verdasco chegou-se à boca da cova, a fazer a confirmação possível. Ainda viu um canto do caixão já quase completamente coberto de terra, em que agora começavam a cair uns pingos de chuva. Aí estava toda a fanfarronice, toda a manha! Assim acabava quem não soubera viver. Mas tinha sorte o malandro: o pequeno cemitério entre pinhais era bem aprazível; quase apetecia viver ali.
Quando começou a sentir-se aliviado, Verdasco respirou fundo, saiu do cemitério e entrou no carro. Manteve-se ali ainda um bocado, imóvel, a saborear um resto de ressentimento, mas escurecia e ainda tinha uns quilómetros de estrada sinuosa até Penacova.
Passados uns dez minutos, já no lusco-fusco da serra e rodeado de floresta, a meio de uma curva para a direita, um alarme - turuli-turuli - invadiu o habitáculo, ao mesmo tempo que um sinal vermelho se acendia no painel, a indicar que o cinto do passageiro não estava colocado. Instintivamente, olhou para o lado. Claro que não estava ali ninguém, mas o assento pareceu-lhe pressionado.
Em pânico, travou; as rodas de trás começaram a deslizar, percebeu a berma a aproximar-se, e o desnível logo ali. Pressentindo que, sair da estrada, antes de traseira, rodou o volante ajudando a rotação e conseguiu parar, virado para trás, mesmo encostado à berma direita. Sem cuidar da altura, atirou-se para fora do carro. Caiu sobre mato rasteiro, um metro abaixo, e rolou até bater num tronco. Conseguiu endireitar-se e trepar pelo aclive até ao alcatrão, uns dez metros para lá da traseira do carro.
Enquanto corria arranhado e desnorteado pela estrada de Penacova, vigiado pelos farolins vermelhos do carro no anoitecer chuvoso, teve um vislumbre de raciocínio: o que quer que acionara o alarme, e de cuja natureza suspeitava, revelava-se bem mais pesado do que habitualmente se diz. Pelo menos naquele caso, o que era de esperar.
No dia seguinte, o mecânico que rebocou o carro explicou-lhe que é relativamente frequente o desajuste do sensor de peso do banco, quando há muita humidade no ar, mas Estino não quis saber. Daí a uma semana tinha vendido o carro.
Joaquim Bispo
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Imagem: Anúbis pesa o coração do defunto contra a pena da verdade
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Mais um conto marcado pela arte do contador, que prende o leitor do princípio até ao fim, e que sempre surpreende, como outros com que nos brinda. A minha vénia.
ResponderEliminarMuito obrigado, Jorge Golias.
ResponderEliminarSe assim fala do que escrevo, a vénia é minha.
Gosto de ler.
ResponderEliminarAinda mais quando a leitura me surpreende positivamente.
Tem sido o caso deste "escritor das casas novas" que regularmente me faz rir com o que escreve.
Estas "extremas" são de uma ruralidade de sachola, que ele bem conhece.
Continua Joaquim
Abraço
Peralta
Muito obrigado, Peralta.
ResponderEliminarSim, sou (se calhar, fui) de um ruralidade de estremas (assim mesmo, com s) e de talefes, que só os que lá viviam conheciam (a localização e a importância).
Abraço!